Folha de Pernambuco – Os primeiros trens seminovos acordados no processo de concessão do Metrô do Recife virão do Rio Grande do Sul, entre o fim de março e início de abril, caso tudo corra bem. As composições terão o mesmo tamanho e tempo de uso que parte do maquinário atual do sistema, mas com algumas diferenças importantes, como a ausência de ar-condicionado e um sistema de ventilação diferente.
Quem confirmou as informações foi o gerente Regional de Operação da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), José Innocêncio, em entrevista exclusiva à Folha de Pernambuco.
Segundo ele, das 11 composições acordadas para chegar até julho, seis serão cedidas primeiro pela Trensurb. Esses trens devem seguir o mesmo parâmetro dos que estão em operação no Recife no momento, inclusive com o mesmo tamanho e capacidade. Na Linha Centro, por exemplo, o maquinário é composto por quatro carros, com 1.036 passageiros, seguindo a regulamentação de ocupação de no máximo seis passageiros/m².
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O gerente explica ainda que esses trens, por mais que tenham o mesmo tempo de uso das composições mais antigas do Recife – cerca de 40 anos -, estão em condições melhores por rodarem em malhas ferroviárias menores no Rio Grande do Sul.
“O trecho deles é muito menor que os nossos, então a conservação é muito melhor. O que aconteceu com o Rio Grande do Sul para liberar esses trens? Porque eles decidiram comprar trens novos (da China). Então eles não tinham sequer onde colocar esses trens. Ou eles passam para locais de derretimento de ferro ou coisas assim, ou vendem para alguém que está precisando”, afirmou.
‘Ou vem, ou para’
O representante deixou claro, ainda, que é importante entender que a chegada desses trens, por mais que não seja perfeita, é de extrema necessidade para a manutenção do Metrô da cidade, sobretudo da Linha Sul.
O ramal possui 12 estações e atende 1,2 mil passageiros com uma linha férrea de 13,3 quilômetros. A frota possui nove trens em funcionamento. Segundo o José Innocêncio, há um estudo que mostra que em três anos a maior parte do maquinário estará deteriorada, e apenas três composições sobrarão para atender toda a linha – o que não chega nem perto de ser o suficiente.
“O cálculo é feito baseado na história dos demais. Então esses que estão aí não têm nenhuma razão de não passar pela mesma situação dos outros. Se tudo for normal e não tiver um raio, uma batida, um desastre, teremos apenas três trens na Linha Sul”, começou.
“Isso faz com que as plataformas fiquem muito lotadas e aumenta o risco de fatalidades. Então diante disso, ou a gente tem trens mesmo que na condição dos nossos, mesmo velhos, ou a gente para. O problema é que a gente tem pessoas que trabalham lá, ou seja, uma catástrofe social no transporte. Qual é a saída? Ou vem ou para. Só tem duas opções. Então a gente optou por trazer esses trens antigos, não velhos, porque velhos são os nossos que rodaram muito mais que os do Rio Grande do Sul e Minas Gerais”, completou.
Trens sem ar-condicionado
Segundo José Innocêncio, os trens que vão chegar não terão ar-condicionado. Ao invés disso, eles possuem um sistema de ventilação com janelas mais largas e ventiladores de alta potência, colocados nos salões dos vagões, que, de acordo com o gerente, devem suprir as necessidades dos passageiros.
“Eles (trens seminovos) supriam muito bem, e inclusive são melhores do que a gente tinha, ventilam muito melhor. São janelas diferentes. E, volto a dizer: ou é trem sem ar-condicionado, ou é não trem. E não trem significa parar o sistema”, destacou.
Esses trens são semelhantes aos primeiros trazidos para o Metrô do Recife na década de 1980 – e que, parcialmente, ainda estão em operação. O ar-condicionado, inclusive, só foi adicionado a essas composições anos depois, em uma revisão do sistema.
Para os veículos que vão chegar agora, no entanto, a CBTU entende que não vale a pena instalar os aparelhos de refrigeração pelo curto tempo de uso que o maquinário vai ter em Pernambuco. Caso a concessão à iniciativa privada ocorra como esperado, esses trens deverão ser substituídos por novos em até três anos.
“Não dá para a gente ter ar-condicionado, porque instalar ar-condicionado precisa melhorar a estrutura do trem, reforçar. Então, não vale a pena reforçar, porque é um custo muito alto para um trem que está previsto parar de existir ou parar de rodar em três anos”, explicou.
Novo método de segurança
Os veículos que rodam no Grande Recife têm um equipamento chamado de ATC, que identifica onde a composição está na malha ferroviária e indica quando ela pode se locomover para não gerar colisões e acidentes.
Os trens que vão chegar, no entanto, não possuem esse sistema, e demandam controle manual, por ação humana, para guiar os condutores. Por mais que não seja ideal, a CBTU também entendeu que vale mais a pena conseguir ajuda externa do que adequar o equipamento utilizado agora às composições do Rio Grande do Sul.
“Estamos contratando uma startup do Porto Digital que vai elaborar um sistema para suprir a ausência desse sistema de segurança. Eles estão estudando o uso de um sistema com antenas, e estamos avaliando, porque tudo indica que será melhor do que apenas o custo de licenciamento. A questão número zero do nosso sistema, é a questão da segurança. Evitar qualquer acidente”, disse.
Funcionamento a partir de junho
Quando chegarem, os trens ainda vão precisar passar por uma avaliação pela equipe técnica da CBTU. Além disso, uma turma com metroviários deve ser enviada ao estado de origem para passar por uma formação de seis meses para aprender a usar o novo sistema e adequá-lo a Pernambuco.
Assim, segundo o gestor, a expectativa é que, caso tudo corra bem e nenhum problema seja identificado, essas seis composições só comecem a ser operadas na RMR em junho.
“Quem entra nessa etapa são os técnicos da empresa, as pessoas que têm expertise. Os técnicos, que diante do que formos vendo, vão dizer se tem ou não condições (a operação dos novos trens)”, afirmou.
Sistema sucateado
Não é de hoje que a população da Região Metropolitana do Recife (RMR) convive com uma realidade de sucateamento do Metrô. Trens velhos, sem ar-condicionado e tempos de intervalo muito longo – o que contribui para a lotação das estações -, além de constantes falhas que acarretam paralisações são algumas das situações cotidianas
Na última semana, por exemplo, um trem descarrilhou com pessoas dentro perto da Estação Central do Recife. Ninguém ficou ferido, mas os passageiros precisaram descer à via e andar até o terminal.
Segundo o representante da CBTU, a cada 1 milhão de quilômetros rodados, é necessária uma revisão dos trens. Os veículos mais antigos, em funcionamento desde a década de 1980, passaram pelo processo, que inclui inclusive a troca de praticamente todas as peças.
Já as composições adquiridas em 2013, em função da Copa do Mundo do ano seguinte, já ultrapassaram a cota máxima em mais de 300 mil quilômetros, e precisam ser revisados desde 2021.
“Trem é igual a carro. Tem um tempo que ele não serve mais. A tecnologia fica ultrapassada, ele fica com muitos problemas, fica muito velho. Com 30 ou 40 anos, não roda mais”, afirmou.
Os números são ainda mais alarmantes se for considerada a quantidade de trens disponíveis para atender os cerca de 138 mil passageiros que precisam do modal diariamente. Dos 25 primeiros trens do sistema, apenas sete seguem em funcionamento. Já dos 15 adquiridos para a Copa, 10 estão em atividade.
A concessão do Metrô do Recife prevê investimento de R$ 4 bilhões na requalificação de todo o sistema. O contrato de parceria terá duração de 30 anos.
A ação prevê ainda obras de requalificação das estações. O investimento total para recuperação do modal neste ano é de R$ 500 milhões, captados pelo governo federal em parceria com o governo do estado.
Até o dia 23 de março, está aberta uma consulta pública para que a população possa contribuir com propostas de melhoria para o sistema. É possível acess-ala no site do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Fonte: https://www.folhape.com.br/noticias/metro-do-recife-trens-seminovos/472429/#goog_rewarded
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