Valor Econômico – A entrega festiva na cidade mineira de Sete Lagoas, no início de fevereiro, de oito locomotivas fabricadas no Brasil para operar na Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), inaugurou, neste ano, mais um ciclo de investimentos visando ampliar a capacidade de transporte de cargas no país e modernizar o setor ferroviário brasileiro.
Os equipamentos de alta potência, com tecnologia que permite mapear a geometria da via e tornar a operação mais segura e eficiente, foram produzidos em Sete Lagoas pela Progress Rail Locomotivas, subsidiária da Caterpillar, e custaram cerca de R$ 200 milhões.
A FCA é uma das quatro ferrovias de Minas Gerais, Estado com uma das maiores redes do país, com 5 mil quilômetros de trilhos que conectam polos produtivos a portos do Sudeste, viabilizando o escoamento de produtos como minério de ferro, insumos siderúrgicos, commodities agrícolas, contêineres e cargas gerais. As outras ferrovias são a Ferrovia Norte-Sul (FNS), a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) e a Malha Sudeste.
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O Ministério dos Transportes (MT) avalia que o principal desafio da região é a ampliação do transporte de cargas. No diagnóstico da malha ferroviária foram identificados trechos que demandam substituição de dormentes, renovação do perfil dos trilhos e requalificação estrutural para garantir maior eficiência operacional e segurança.
Um dos trechos subutilizados — na verdade, desativado — é o Corredor Minas-Rio da FCA, entre Arcos (MG) e Angra dos Reis (RJ), voltado para o transporte de carga e que tem desafios operacionais e de infraestrutura, como também grande potencial de revitalização para impulsionar a economia local e nacional, segundo o MT.
De acordo com a pasta, o plano é leiloar esse trecho ainda no primeiro semestre, em um processo que será o primeiro nos moldes da 1ª Política Nacional de Outorgas Ferroviárias. Trata-se de um chamamento público para novos players — ou seja, não inclui a VLI, que controla a FCA.
A FCA é a maior ferrovia do Brasil, com cerca de 7,2 mil quilômetros de trilhos em bitola métrica. Ela terá a sua concessão renovada com a VLI. “A renovação contratual da Ferrovia Centro-Atlântica será a grande mudança de página para Minas Gerais”, avalia Leonardo Ribeiro, secretário nacional de Transporte Ferroviário do MT.
Atualmente em fase final de análise, com foco na modernização da infraestrutura e na ampliação da capacidade de transporte, o processo de renovação da concessão da FCA prevê a devolução de trechos não operacionais mediante pagamento de indenização. Segundo o MT, a expectativa é que o novo contrato, com vigência de 30 anos, entre em vigor antes do encerramento do contrato atual, previsto para agosto de 2026.
A renovação da concessão prevê cerca de R$ 30 bilhões em investimentos obrigatórios e outros R$ 10 bilhões adicionais. “É um movimento que vai proporcionar mais capacidade, mais eficiência logística, redução de emissões e transferência de cargas das rodovias para os trilhos, beneficiando diretamente a economia nacional”, comenta Davi Barreto, diretor-presidente da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF).
O programa de investimentos da VLI também visa fortalecer as suas operações como Agente Transportador Ferroviário de Cargas para o transporte de carga geral em composições próprias na EFVM, que é uma concessão da Vale. Além disso, a VLI faz investimentos com os clientes, como a LD Celulose, para transporte de celulose solúvel da fábrica da empresa, no Triângulo Mineiro, aos portos do Espírito Santo. Foram aplicados mais de R$ 400 milhões para aquisição de 200 vagões e locomotivas, segundo Daniel Schaffazick, diretor de operações do Corredor Leste da VLI. Para 2026, a previsão da VLI é investir na FCA cerca de R$ 1,2 bilhão — somando R$ 4,8 bilhões no período 2023/2026.
Já a Malha Sudeste é operada pela MRS Logística — são 1.643 quilômetros de trilhos conectando regiões produtoras de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro aos principais polos industriais e aos portos de Santos e do Rio de Janeiro. Ela é estratégica para o escoamento de commodities minerais e agrícolas e para a movimentação de carga industrial no Sudeste do país.
“Essa atuação contribui para maior eficiência logística, redução da circulação de caminhões em longas distâncias, aumento da competitividade das cadeias produtivas atendidas e um transporte até 80% mais sustentável do que o modal mais utilizado no Brasil”, diz Guilherme Segalla de Mello, presidente da MRS Logística.
Para os projetos previstos no plano associado à renovação da concessão, aprovado em 2022, são estimados investimentos de R$ 10 bilhões nos próximos anos. A concessão irá até 2056. No terceiro trimestre de 2025, a companhia investiu R$ 866 milhões em toda a sua malha.
A retomada dos investimentos nas ferrovias mineiras abre perspectivas promissoras também para a consolidação do Estado como polo de engenharia ferroviária e indústria avançada. A multinacional Wabtec, por exemplo, investiu R$ 170 milhões em 2025 e está aplicando mais R$ 20 milhões neste ano em uma nova linha de produção e centro logístico na sua planta industrial em Contagem, informa Danilo Miyasato, presidente da subsidiária brasileira da Wabtec.
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