Valor Econômico (Opinião) – A Copa do Mundo é, para a mobilidade urbana, um dos maiores testes de estresse que uma cidade pode enfrentar. Levar os torcedores ao estádio significa transportar centenas de milhares de pessoas com segurança e pontualidade a um único destino, muitas delas pela primeira vez na cidade. Em 2026, esse desafio ganhou uma escala inédita, com um torneio que reúne 48 seleções (anteriormente eram 32) e 104 partidas disputadas em 16 cidades espalhadas por Estados Unidos, Canadá e México.
Por isso, a Copa funciona como um laboratório de mobilidade em escala extrema. As questões enfrentadas pelas cidades-sede não são diferentes daquelas vividas diariamente pelas grandes metrópoles brasileiras. Integração entre modais, informação em tempo real, experiência do usuário e gestão da operação estão no centro das necessidades de decisão desses municípios.
A primeira lição é bastante clara: quando uma cidade precisa receber e deslocar milhões de pessoas, não existe solução baseada apenas no automóvel. O transporte público deixa de ser uma alternativa e se torna a estrutura que sustenta toda a operação. A principal preocupação das cidades-sede não é quantos carros conseguirão chegar aos estádios, mas como garantir que grandes volumes de passageiros circulem de forma organizada, segura e previsível.
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À medida que os centros urbanos crescem, fica mais evidente que a mobilidade depende da capacidade de transportar mais pessoas, e não de mais veículos circulando pelas cidades, afinal ter mais automóveis só gera mais congestionamento no trânsito. Grandes eventos apenas tornam essa realidade impossível de ignorar.
Outra lição importante vem do uso inteligente de dados. Em uma Copa do Mundo, os passageiros precisam saber exatamente onde estão os ônibus, os trens e os demais meios de transporte para planejar seus deslocamentos e não perder os jogos. Ao mesmo tempo, operadores precisam acompanhar o desempenho da frota e o fluxo do trânsito para identificar corredores saturados, linhas que precisam de reforço e para agir rapidamente às mudanças de cenário.
Para muitos torcedores, a Copa do Mundo é a primeira experiência naquela cidade, o que exige ainda mais eficiência do transporte público. Ter um sistema integrado, de fácil compreensão, que seja confortável e confiável, transmite acolhimento a pessoas que podem decidir visitar a cidade mais uma vez. Enquanto viagens marcadas por informações confusas e dificuldade de acesso podem comprometer a percepção sobre o destino.
Na Copa do Mundo 2026 já podemos aprender com exemplos positivos e negativos. Em cidades como Atlanta, Los Angeles, Nova York e Seattle (EUA), agências de transporte vêm ampliando a oferta de ônibus e trens, reforçando equipes operacionais e investindo em integração modal, gestão de tráfego e monitoramento em tempo real, com o objetivo de absorver o aumento da demanda sem comprometer o funcionamento das cidades.
Por outro lado, o MetLife Stadium, em Nova Jersey, que será o palco final do torneio, tem sido apontado como um dos acessos mais complicados entre as cidades-sede. As limitações das opções de transporte coletivo e a necessidade de conexões adicionais evidenciam como gargalos de mobilidade podem impactar a experiência dos usuários mesmo em eventos cuidadosamente planejados.
Para o Brasil, a principal mensagem deixada pela Copa, tanto aquela de 2014 quanto a que acontece agora, é que os problemas que mobilizam gestores públicos e operadoras de transporte durante megaeventos são os mesmos que afetam milhões de cidadãos todos os dias, e que, portanto, não devemos esperar grandes eventos para resolvê-los.
João Valle é diretor da Empresa 1, de mobilidade urbana e bilhetagem eletrônica.
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