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No buraco da Infraero

Não tem mandato, função pública ou cargo partidário, mas
circula pelos palácios com a desenvoltura de quem desfruta de intimidade com o
poder. Conhece os corredores do Planalto, do Alvorada e do Congresso como o
chão da cela onde viveu por um ano, com cama de aço e chuveiro de água quente,
na ala VIP do presídio da Papuda, a 20 quilômetros da Praça dos Três Poderes.

Alto, sorriso afável, não aparenta 68 anos de idade, mas
conserva hábitos de chefão à moda antiga no beija-mão diário dos diretores de
agências reguladoras, como ANTT, e de empresas estatais, como Valec e Infraero.

Ex-presidiário do mensalão, sentenciado e perdoado, Valdemar
Costa Neto administra 37 votos no plenário da Câmara. Novamente investigado por
corrupção, agora na Operação Lava-Jato, é um homem de negócios com década e
meia de experiência nos subterrâneos dos governos Lula, Dilma Rousseff e Michel
Temer.

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Semana passada, ouviu um pedido de favor do presidente, o
segundo nos últimos quatro meses: assegurar o apoio do Partido da República na
votação de amanhã, decisiva à suspensão do inquérito por corrupção e formação
de quadrilha aberto contra Temer. Se der tudo certo, Temer e Costa Neto
continuarão sócios no poder até dezembro 2018.

Para o chefe do PR, atender a um presidente significa
investimento. Foi assim em 2002, quando Lula pediu-lhe para ajudar a
transformar José Alencar no seu candidato a vice-presidente. Até hoje Costa
Neto se apresenta como o “principal artífice” dessa aliança. Cobrou R$ 8
milhões, negociados com Delúbio Soares e José Dirceu no quarto do senador Paulo
Rocha (PT-PA), em Brasília. Lula e Alencar aguardaram na sala.

Como Delúbio e Dirceu não pagaram no prazo combinado, Costa
Neto chegou às vésperas daquela eleição geral sem caixa para sustentar seus
candidatos a deputado federal. Recorreu a Lúcio Funaro, intermediário
financeiro do PMDB de Temer, Eduardo Cunha, Geddel Vieira e Henrique Alves — os
três últimos estão presos. Tomou R$ 6 milhões de Funaro, a quem chama de
“agiota” por causa dos juros de R$ 200 mil ao mês.

O PT retribuiu-lhe na dúzia de anos seguintes. Com Lula e
Dilma, ele obteve o poder de influir nas contratações de obras como a Ferrovia
Norte-Sul, 4,1 mil quilômetros de trilhos através de dez estados, e a Ferrovia
Oeste-Leste, com 1,5 mil quilômetros entre Tocantins e Bahia.

Esses projetos continuam no papel, mas renderam dividendos a
Costa Neto e sua facção política. Agora, estão sob investigação com base em
provas e depoimentos de executivos da Odebrecht e Andrade Gutierrez, além de
agentes como Funaro.

Costa Neto avança em negócios na política. Prometeu um
punhado de votos a Temer e virou donatário com poder de influir nas concessões
de aeroportos, como o de Congonhas (SP), e em transações de lojas e balcões da
Infraero. Combalida, a estatal abriga sete mil empregados — muitos sem ter o
que fazer —, e acumula R$ 9 bilhões em prejuízos. Depende do socorro do Tesouro
(mais R$ 1,4 bilhão) para fechar as contas de 2017. Escavada nesse buraco, a
parceria Temer-Costa Neto pode vir a ser o começo de uma longa amizade.

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