33ª Edição · Prêmio Revista Ferroviária
Vote no Prêmio RF 2026!
Faça parte do Colégio Eleitoral
Clique e Cadastre-se
revistaferroviaria.com.br

Estados ‘agrícolas’ lideram buscas na internet

A colheita recorde de grãos esperada para esta safra 2016/17
devolveu o ânimo às principais regiões produtoras brasileiras, indicando uma
possível retomada do consumo apesar do cenário de instabilidade persistente na
política e na economia do país.

Levantamento realizado pelo Google para o Valor aponta um
aumento mais expressivo nas buscas por produtos e serviços nos Estados com
forte economia agrícola, no primeiro quadrimestre deste ano, em relação ao
restante do país. O intervalo janeiro-abril é especialmente importante no
calendário agrícola porque concentra a colheita e o pico da comercialização da
soja produzida no Brasil.

Em Mato Grosso, o maior produtor e exportador nacional de
grãos, as buscas no Google se destacaram em todos os itens clássicos de consumo
que tendem a ser procurados quando as perspectivas são boas – móveis, fogões,
lavadoras, televisores, geladeiras e celulares. Os setores automotivo e de
turismo também registraram interesse maior dos mato-grossenses nos meses de
safra que os dos brasileiros de Estados com baixa presença agrícola, assim como
a busca por cartões, cotação de câmbio, seguro e previdência privada.

As notícias estão em todo lugar. Reportagens e entrevistas exclusivas sobre o setor ferroviário, só na RF — desde 1940.

Por R$ 8,42/mês — parcele em 12x sem juros.

Assinar agora

A situação não foi diferente em Mato Grosso do Sul, Goiás,
Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Dependendo do setor
observado, as buscas nessas regiões chegam a ficar dez pontos percentuais acima
da média Brasil, como nos pacotes de viagens. Tome-se como exemplo o setor de
cruzeiros marítimos: enquanto a procura caiu 6% no país como um todo, entre
janeiro e março, nos Estados agrícolas houve alta de 1%.

“As buscas servem como um termômetro das intenções do
consumidor, antecipando comportamentos e gerando oportunidades de negócios para
diversos setores e podendo, em alguns casos, até antecipar alguns movimentos de
mercado”, diz Carlos Calderon, gerente de Insights no Google Brasil.

Ainda que buscas não resultem necessariamente em compras, a
sobreposição dos mapas da produção agrícola e dos cliques no Google dá uma
dimensão mais ampla do impacto do agronegócio nas economias regionais, um
movimento sentido nas ruas mas não devidamente mensurado nas estatísticas do
setor. O reflexo do “dinheiro novo na praça” é mais comumente
monitorado pelo caminho de volta que faz à propriedade rural, com
reinvestimentos em máquinas agrícolas, insumos e tecnologias aplicadas às
sementes.

O indicador mais abrangente de consumo é interessante também
porque abarca a maior parcela da população rural: a que não é dona da terra,
mas gravita em torno do seu desempenho. Dados do Cadastro Geral dos Empregados
e Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, mostram que o
setor agropecuário teve no primeiro quadrimestre deste ano o melhor desempenho
em contratações desde 2011, quando o Brasil vivia um “Pibão”.

“O agronegócio não só se recuperou como está a passos
largos em contratações, ficando apenas atrás do setor de ensino”, diz
Fábio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), citando
que de janeiro a abril foram contratados 29,2 mil trabalhadores para o campo,
contra 4,2 mil em 2016.

“Enquanto o emprego no Brasil ficou parado, no
agronegócio ele cresceu 1,9%. A última vez que se viu tanta contratação no
setor foi em 2011 – 81,7 mil trabalhadores. É o emprego e a renda que dão
lastro para o consumo”.

“Vivemos uma situação diferenciada do resto do país.
Quando as indústrias estavam fechando em São Paulo e no Rio Grande do Sul, a
gente não sentia nada. Nossa moeda de troca é o grão – aqui compramos casa com
soja”, diz Marilene de Godoi, gerente-executiva da Associação Comercial e
Empresarial de Sorriso, em Mato Grosso. O Estado deverá colher 30,5 milhões de
toneladas do total de 113 milhões de toneladas de soja estimadas para este
ciclo 2016/17 – ou 17,2% a mais que na safra passada.

No município paranaense de Campo Mourão, sede da Coamo, a
maior cooperativa agrícola do país e segunda maior empregadora local depois da
Prefeitura, a Associação Comercial mantém o otimismo. “O país está em
crise, mas nós vamos manter as vendas”, diz o presidente, Paulo César
Gomes.

As coisas só não estão melhores, diz ele, porque o produtor
ainda está segurando a soja na expectativa de preços melhores diante da oferta
prevista para esta safra – 243,3 milhões de toneladas, ou 25,6% a mais que no ciclo
anterior. Tamanha abundância pressiona os preços e rouba a margem de lucro do
produtor rural, já às voltas com os custos mais altos de produção.

Na sexta-feira, o preço da saca da soja entregue em
Paranaguá (PR) valia R$ 69,35. No mesmo dia de 2016, eram R$ 96,30. “Se o
preço [da saca de soja] estivesse bom, o consumo seria maior”, reclama
Fernando Cunha, do Sindicato Rural de Tupanciretã, no Rio Grande do Sul.
“Não vejo esse ânimo todo no comércio. Aqui, só estamos repondo aquilo que
estraga”, diz ele.

Mas há ainda outra diferença fundamental, segundo o
economista e diretor de análise setorial da consultoria Tendências, Adriano
Pitoli: o agronegócio tende a sentir mais tardiamente os impactos negativos da
crise política. Isso ocorre, diz ele, porque setores importantes como soja e
milho estão mais atrelados ao mercado externo. “Eles sentem muito mais o
que ocorre na China [e na oferta e demanda global de commodities] do que os
problemas na política nacional. É isso o que manda. De certa forma, são regiões
mais blindadas ao Planalto Central”, afirma.

Em 2015, quando a expectativa da consultoria era de que os
tumultos brasileiros atingiriam mais fortemente as regiões Sul e Sudeste do
país – sustentadas em boa parte por setores sensíveis à crise, como a construção
civil e a indústria de bens de capital -, foram o PIB do Centro-Oeste e do
Nordeste que mais decepcionaram. “O clima quebrou a safra e diminuiu a
renda familiar”, diz Pitoli. Agora, o movimento é contrário: a supersafra
levou à expansão de 13,4% do PIB agropecuário no 1º trimestre. Para 2017, a
Tendências ainda projeta uma alta do PIB do setor de 11,8% no Centro-Oeste e de
4,8% no Sul – mas as coisas podem mudar se os escândalos persistirem.

Marilene, de Sorriso, diz que o baque a quebra em 2015/16 influenciou
mais a economia local, e só agora as vendas voltaram a ganhar ritmo. No
levantamento do Google, a recuperação do varejo em Mato Grosso é nítida, mas
ainda não atingiu os níveis de 2015.

“É normal, o consumidor se adapta em dias ruins, mas
não deixa de viajar – escolhe um pacote mais curto, parcela em 12 vezes”,
diz o presidente do Grupo CVC, Luiz Eduardo Falco, que há dois anos foi a
Sorriso inaugurar uma loja. Neste 1º trimestre, Mato Grosso, Goiás, Paraná e
Rio Grande do Sul tiveram uma expansão média de 15% em vendas – o mesmo
percentual de todo o ano passado.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*