O jornal Valor publicou na sua edição de ontem o protesto dos produtores de grãos que se queixam de que a América Latina Logística (ALL) lhes cobra um frete ferroviário superior ao do transporte por caminhões, ou equivalente a 95% deste. Pode-se entender que, diante da denúncia, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) esteja querendo cortar o teto das tarifas das ferrovias.
A ALL desmente a denúncia, embora pareça existir, entre a companhia ferroviária e as grandes tradings, um acordo para reduzir o frete no caso dos clientes importantes e regulares. Isso, todavia, não justificaria um frete tão elevado para os produtores independentes de grãos.
Embora os valores variem de país a país, a regra geral é que o transporte ferroviário é 8 vezes mais barato que o rodoviário, comparação que deve ser ainda mais favorável no Brasil, considerando a péssima conservação das nossas estradas.
No caso, porém, existe um fator muito especial: a importância da safra de soja num momento em que, por causa da seca que atinge outros países e especialmente os EUA, o preço da soja está atingindo nível elevado – o que estimula a ALL a ser sócia no transporte de uma commodity cujo valor está explodindo.
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Nada justifica essa tentativa de “participação indireta nos lucros” dos produtores, especialmente sabendo que, no caso de uma safra ruim, a ALL não se mostraria disposta a participar das perdas. O frete ferroviário é ainda muito elevado no Brasil, e é bem conhecido o fato de que, produzindo soja a um preço muito inferior ao da soja americana – por causa dos custos de transporte terrestre e portuário -, esse produto acaba chegando nos EUA a um preço superior ao da soja ali produzida.
A ALL, que não se arrisca a elevar o custo do frete das tradings – que lhe garantem cargas volumosas -, procura obter vantagem da demanda aquecida de uma mercadoria valorizada.
É uma situação que tem sua origem na falta de concorrência no transporte ferroviário. Não se justifica, no entanto, a implantação de uma outra ferrovia na região que não teria negócios suficientes, já que a demanda de transporte é sazonal. Em compensação, justifica-se, sim, a intervenção pública para evitar abusos no quadro de uma análise real da situação.
Não se pode admitir um excesso de preferência para as tradings, mas se pode examinar com a ALL a hipótese de aumentar a capacidade de transporte. O que não é aceitável é que o frete ferroviário negue a vantagem desse meio de transporte.
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