Rodrigo Sá, colunista
Corria o ano de 1990 quando, de uma assentada, fecharam centenas de quilómetros de via-férrea no nosso País. Sem aviso, sem apelo nem agravo, autarcas e cidadãos foram simplesmente informados que já não havia comboio. À velhinha linha do Corgo foram retirados dezenas de quilómetros, desde Vila Real até Chaves. Alguns sentiram que esses quilómetros lhe foram roubados… As linhas eram deficitárias, os custos de exploração e manutenção eram superiores aos proveitos, logo as linhas fechavam.
O Primeiro-ministro da altura, recordemo-nos, chamava-se Aníbal Cavaco Silva. Nem de propósito, no dia em que foi comunicada a suspensão da circulação ferroviária na parte da linha do Corgo que escapou a essa febre de 1990, o agora Presidente da República Cavaco Silva, falou da necessidade de pesar custos e proveitos e decidir investimentos com base nessa simples conta de deve e haver. Há retorno, investe-se. Não há retorno, encerra-se ou não se constrói. Mas a realidade é mais complexa do que uma conta de merceeiro.
O Primeiro-ministro, agora, chama-se José Sócrates, e considera que há mais variáveis que devem ser tidas em conta. Variáveis como solidariedade, diferenciação positiva, investimento no interior, continuidade do território nacional. Os acontecimentos de 1990 justificam a reacção que vimos nas populações em 2009, aquando da suspensão da circulação. O receio de que o provisório passe a definitivo, de que linha não volte a abrir levou as pessoas para a rua a defenderem o que é o seu património cultural, além de um meio de transporte. Mas desta vez tudo será diferente.
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As razões por detrás da rápida suspensão da circulação na via foram apenas de segurança, após esta ser devidamente estudada. E logo depois da urgente e inadiável decisão, a Sra. Secretária de Estado dos Transportes, Ana Vitorino, veio a Vila Real, falou com Presidentes de Câmara, de Junta de Freguesia, representantes de instituições ligadas ao turismo ou desenvolvimento regional e anunciou o que se esperava: a linha está fechada para protecção de quem lá circula, mas será reaberta, depois de um ano e meio de obras, depois de investimentos superiores a 27 milhões de euros.
Ou seja, aquilo que era o fim da linha do Corgo é, afinal, um importante investimento na nossa região, que potenciará a vertente de transporte associada ao comboio, mas também a vertente turística e ambiental. Faz todo o sentido. Numa altura em que se fala, com insistência, no investimento na ferrovia de alta velocidade, terá que se apostar também na requalificação das vias já existentes. Imagine-se o que seria construir uma rede de auto-estradas, mas não manter as vias municipais, IP`s e IC`s que constituem a malha mais fina do sistema rodoviário. As auto-estradas seriam inúteis. O mesmo se passa com a ferrovia.
É necessário apostar num transporte de alta velocidade rápido e concorrencial ao avião, tanto em preço como em tempo, mas melhorando o todo ferroviário nacional. As linhas devem ser melhores, mais seguras, electrificadas e adequadas às reais necessidades dos utentes. O comboio é e deve ser um transporte de futuro. Pela sua comodidade, pelo seu baixo impacto ambiental e já agora, pelas viagens únicas e inesquecíveis que proporciona.
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