Folha de S. Paulo – Ela já ganhou apelido, virou tema de série na TV, desbravou a Amazônia mais de um século atrás e, desde o ano passado, ganhou um novo museu para contar sua história.
A icônica Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, inaugurada em 1912, representou um dos mais complexos projetos ferroviários do país, por ser construída na então totalmente isolada Amazônia, envolver 20 mil trabalhadores e contribuir para o desenvolvimento da região fronteiriça com a Bolívia.
Sua história remonta a 1903, num acordo em que o Brasil aceitou construir a ferrovia para escoar a produção de borracha boliviana em troca da área onde está o Acre. A estrada de ferro ficou conhecida como “Ferrovia do Diabo” devido às milhares de mortes registradas (ou não) durante sua construção.
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A história da ferrovia foi retratada no livro “Mad Maria”, do escritor amazonense Márcio de Souza, que morreu em 2024, e numa minissérie homônima exibida pela TV Globo em 2005. Também é narrada em obras como “1912 – Vitória na Selva”, de Ricardo Leite.
“Mad Maria”, o livro, foi escrito em 1980 e é considerado o ápice de uma obra dedicada a voltar os holofotes ao Norte do país e à exploração da Amazônia.
A ferrovia teve, no total, 366 quilômetros de extensão, ligando Porto Velho a Guajará-Mirim, na fronteira com a Bolívia, e transportando borracha, gado, alimentos e, também, pessoas.
Inaugurado em maio do ano passado, o museu está instalado em dois galpões do complexo ferroviário Madeira-Mamoré, às margens do rio Madeira, e teve investimento total de R$ 30 milhões, numa parceria público-privada entre a Santo Antônio Energia, a Prefeitura de Porto Velho e o complexo, que também envolveu compensação ambiental da hidrelétrica de Santo Antônio.
O museu ocupa uma área de 500 metros quadrados e guarda mais de 300 objetos que remetem à ferrovia, como dormentes, fotos, objetos e a locomotiva 12, símbolo da Madeira-Mamoré.
O objetivo do espaço é preservar a memória da ferrovia e o ciclo da borracha na região amazônica. O museu tem exposição dividida em quatro estações, que contam a trajetória da ferrovia em mais de 300 objetos, dos quais 200 são reproduções fotográficas.
Também há 25 metros quadrados de maquetes, vídeos, elementos interativos e 33 réplicas para acessibilidade. A área de visitação tem áudio descrição, imagens em alto relevo, tradução em libras e leituras em braile.
Além da construção das linhas férreas em si, o espaço também narra a história dos povos ribeirinhos e seringueiros e seus costumes.
“Foram feitos projetos, foram concebidos, houve discussão com a prefeitura, com o Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional]. Discutidos os projetos, aí a Santo Antônio executou e fez a entrega final”, disse André Germano, gerente de meio ambiente e segurança do trabalho da Santo Antônio Energia.
A empresa, controlada pela Eletrobras, foi responsável por implantar a hidrelétrica Santo Antônio, a quarta maior geradora de energia hídrica do país, e por sua operação desde 2012. O investimento, segundo a usina, faz parte de suas estratégias ESG.
Participaram da implantação, segundo Germano, pesquisadores, produtores, técnicos e comunidade acadêmica da capital rondoniense, para selecionar, identificar e tratar os itens.
Todo o complexo é tombado, o que obrigou que fossem respeitados padrões, cores e dimensões dos objetos envolvidos.
O alerta para a necessidade de recuperação do patrimônio, conta Germano, foi dado em 2014, com a última grande cheia do rio Madeira, que alagou todo o complexo em que o museu se encontra.
Os investimentos no local contemplaram o museu e as intervenções na área, de 115 mil metros quadrados.
Na última quinta-feira (2), a maria-fumaça 18, que foi usada na Madeira-Mamoré, voltou a funcionar depois de mais de duas décadas parada. Essa história será contada aqui nas próximas reportagens de uma série sobre a histórica ferrovia, desativada há cerca de seis décadas.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/blogs/sobre-trilhos/2025/10/museu-reconta-a-historia-da-iconica-estrada-de-ferro-madeira-mamore.shtml
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