Valor Econômico – O crescimento populacional e a expansão urbana do Distrito Federal transformaram a dinâmica da mobilidade na capital federal. Desde 2011, quando foi elaborado o primeiro Plano Diretor de Transporte Urbano (PDTU), o número de deslocamentos diários quase dobrou, chegando a 6,2 milhões – 930 mil entre o DF e as cidades do entorno, segundo dados oficiais. Nesse período, o transporte coletivo perdeu espaço: a fatia das viagens por ônibus caiu de 32% para 24,2%, e o metrô responde por apenas 2,2% dos deslocamentos. O uso do automóvel subiu de 39% para 46% desde 2011, impulsionado pelos aplicativos.
Agora, o DF revisa o PDTU de uma cidade projetada para amplas avenidas que consolidou uma cultura centrada no carro. Estão previstos no projeto ampliação de faixas exclusivas, criação de novos terminais e incentivo à mobilidade ativa, com zonas de baixa velocidade e conexões cicloviárias, diz o secretário de Mobilidade, Zeno Gonçalves, para quem o desafio é conciliar crescimento populacional e sustentabilidade urbana.
Gonçalves defende uma política de “despriorização do carro particular”, com cobrança pelo uso de estacionamentos públicos, hoje gratuitos, como forma de estimular o transporte coletivo. O secretário destaca que o DF já possui uma das frotas mais limpas do país, com mais de 1,2 mil veículos padrão Euro 6, mas reconhece que o sistema ainda precisa ser mais eficiente e atrativo.
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“O PDTU fala em ruas completas, mas mantém três faixas para carros e cria uma quarta para ônibus. Isso não desestimula o uso do automóvel”, critica o deputado distrital Max Maciel (PSOL), presidente da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana da Câmara. Ele aponta falta de coordenação entre os órgãos de transporte. “As decisões estão pulverizadas entre DER, Detran e Secretaria de Mobilidade. Falta uma autoridade única, com poder real de planejamento e execução.”
Considerado o ponto mais crítico da rede de transporte do DF, o metrô não teve ampliação significativa desde quando foi inaugurado, em 2000. Agora estão nos planos a ampliação das estações de Samambaia e Ceilândia, estudos da linha 2 e a compra de 15 novos trens, o que dobraria a capacidade do sistema. Mas com investimento privado. “O governo prepara um projeto de concessão à iniciativa privada, que deve ser analisado pelo Tribunal de Contas do DF ainda este ano”, afirma o secretário.
A falta de integração entre os modais e entre o DF e o Entorno é outro obstáculo, diz Pastor Willy Gonzales, coordenador do Grupo de Pesquisa em Comportamento em Transportes e Novas Tecnologias do Programa de Pós-Graduação em Transportes da Universidade de Brasília. “O sistema não conversa entre si. As pessoas perdem tempo refazendo trajetos porque as conexões não funcionam”, diz. Ele também alerta para a ausência de coordenação com Goiás, onde vivem mais de 1,5 milhão de pessoas que dependem da capital.
Gonzales defende o incentivo ao uso de bicicletas e a integração tarifária e operacional entre ônibus, metrô e outros modais, e que o novo plano enfrente o crescimento urbano desordenado, que multiplica deslocamentos e pressiona a infraestrutura. “É preciso investir no básico: calçadas acessíveis, iluminação e segurança para pedestres”, afirma.
A revisão do PDTU está em consulta pública. O governo afirma ter recebido quase mil contribuições e promete ampliar o debate antes de enviar a versão final à Câmara Legislativa no início de 2026. A expectativa é que o novo plano sirva de base para captar recursos e orientar as políticas de mobilidade nas próximas décadas.
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