A Vale, na gestão de Fabio Schvartsman, vai avaliar a
diversificação dos negócios como forma de reduzir a dependência da empresa do
minério de ferro. Schvartsman, que assumiu a presidência da mineradora há uma
semana, reuniu-se com analistas de bancos de investimento na sexta-feira, e
indicou que diversificar o portfólio, embora não seja tarefa fácil, pode ser um
caminho para a Vale desde que faça sentido em termos de produtos – commodities
– e de preços. Na visão de analistas, dada a volatilidade do mercado, a Vale
continua sensível às variações nos preços do minério de ferro. “A Vale
virou uma espécie de derivativo de minério de ferro”, disse uma fonte.
Embora o mercado esteja otimista com a nova gestão da Vale,
não há convicção se as cotações do minério de ferro chegaram ao
“piso” uma vez que a curva de preços futuros da commodity aponta para
baixo. Esse é um ponto negativo para a Vale dada a forte correlação que existe
entre os preços da commodity e os resultados da companhia. Na sexta, a curva de
preços futuros do minério em Cingapura apontava para US$ 55 por tonelada no
quarto trimestre, número que deve cair para US$ 51,78 em 2018 e para US$ 47,84
em 2019. Também na sexta, o minério com teor de 62% de ferro fechou a US$ 57,80
por tonelada no mercado à vista de Tianjin, na China.
Em relatório enviado aos clientes na sexta, depois do
encontro com Schvartsman, o Credit Suisse avaliou que a questão não é se a Vale
deve ou não diversificar seu portfólio, mas fazer a diversificação certa. O
banco afirmou que o negócio de níquel, por exemplo, não gera lucro suficiente.
“A companhia vai reavaliar toda a sua base de ativos e posteriormente
estabelecer o crescimento ótimo e a estratégia de diversificação”, disse o
Credit Suisse em relatório.
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No encontro com os analistas, o presidente da Vale enfatizou
que a prioridade de sua gestão estará assentada em quatro pilares: estratégia,
performance, governança e sustentabilidade. Do encontro, os bancos destacaram
ainda a criação de um grupo de trabalho que fará um diagnóstico da companhia em
60 dias e a contratação da empresa de consultoria Falconi para fazer uma
verificação da matriz de custos, inicialmente no negócio de pelotas de minério
de ferro.
O J.P. Morgan destacou também, em relatório, a crença do
presidente da Vale que a mineradora precisa crescer dentro de uma estratégia de
longo prazo. Essa posição marca uma mudança em relação à gestão anterior, que
teve de lidar com o colapso nos preços das commodities e, nesse contexto,
retardou a agenda de crescimento. A diversificação também deve ser perseguida,
segundo o J.P Morgan: “Schvartsman quer repensar o portfólio de negócios
da Vale.”
No período recente, o minério de ferro tem representado
entre 80% e 85% do lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização
(Ebitda) da Vale. Trata-se de negócio com uma grande participação na geração de
caixa da companhia e, dado o volume de produção da Vale, qualquer oscilação de
preço é significativa. Tomando-se como base uma produção possível pela empresa
de 350 milhões de toneladas de minério de ferro neste ano, cada US$ 1 de queda
no preço do minério representa US$ 350 milhões a menos de receita.
Na visão de fontes próximas da Vale, a diversificação não é
tarefa simples dado o tamanho do negócio de minério de ferro da companhia. Uma
fonte afirmou que outros segmentos de atividade da Vale, como metais e carvão,
também são negócios de porte, embora sejam alvo de críticas do mercado por
gerarem pouca receita. É o caso do segmento de metais, que em 2016 gerou Ebitda
de US$ 1,8 bilhão e do carvão, que terminou o ano com Ebitda negativo,
resultado revertido no primeiro trimestre de 2017. Na visão da Vale, mesmo que
o resultado da empresa oscile a partir do que acontece com o minério de ferro,
a companhia está preparada para enfrentar cenários de preços menores. “A
companhia tem que estar preparada para passar por um ciclo de preços baixos e
enfrentar a volatilidade do mercado”, disse uma fonte.
Um analista disse que Schvartsman “herdou” uma
empresa mais enxuta, com uma boa base de ativos. Nos últimos anos, a companhia
fez o dever de casa em termos de redução de custos, trabalho esse que será
mantido por Schvartsman. A Vale também está em processo de desalavancagem. A
expectativa é que a mineradora possa reduzir a dívida líquida para um patamar
inferior aos US$ 15 bilhões, destacou o Credit Suisse. Essa é uma meta que
poderá ser alcançada ainda este ano, dependendo do comportamento dos preços.
A Corretora Itaú BBA também destacou em relatório que a Vale
precisa de uma estratégia de crescimento de longo prazo, além de reduzir a
dependência do minério de ferro. “Schvartsman vê crescimento através de
fusões e aquisições como prioridade para acelerar o processo de diversificação
da Vale, mas ele também reconhece os desafios em executar bem essa
estratégia”, disse o Itaú BBA.
Em abril, o Valor mostrou que as ações da mineradora
passaram a ser negociadas com menos desconto em relação aos seus pares no
mercado internacional por força da percepção de melhoria na governança da
empresa e também por um “descolamento” das ações em relação ao
minério de ferro. Mas na visão de analistas esse “descolamento” ainda
não é estrutural.
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