Com passagens em sua carreira por
grandes grupos, como Votorantim, Camargo Corrêa e Acciona e por uma consultoria
internacional, André Clark, que assumiu a presidência da alemã Siemens no
Brasil há quase três meses, tem pela frente uma missão arrojada. A meta traçada
pelo grupo, em 2014, bem antes de sua chegada ao cargo, visa dobrar o
faturamento da subsidiária em 2020. No ano passado, o valor ficou próximo de R$
5 bilhões.
Engenheiro químico formado na
Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Administração na FGV e MBA em
Finanças na New York University, o executivo declara otimista com o país e
convicto de que pode atingir a meta que recebeu. Mesmo considerando o cenário
de incerteza política da eleição [presidencial] deste ano – que classifica de
singular. “Há muito ainda o que fazer no Brasil e o crescimento do país
passa pela volta dos investimentos, principalmente em infraestrutura”,
afirma.
Após três a quatro anos focada em
reorganizações internas, na mudança de cultura empresarial e no ajuste de seus
negócios, a Siemens definiu que é hora de “crescer” no país. Nesse
período, a empresa ficou estacionada no mesmo patamar, também afetada pela
recessão econômica brasileira. Essa arrancada, observa, já era uma ambição da
subsidiária, pois o grupo tem visão estratégica para o Brasil. Aqui, destaca
Clark, há potencial de utilização das tecnologias, produtos e soluções
desenvolvidas pela companhia.
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A atuação da empresa continua centrada
no tripé eletrificação, automação e digitalização, modelo de negócios
aperfeiçoado em 2014 para ser aplicado em todos os setores – de mobilidade
urbana a energia, óleo e gás até a indústria em geral. O grupo também aposta na
área de saúde. Em Joinville (SC), em 2012, instalou fábrica de equipamentos
para diagnósticos de última geração.
Mas é no setor elétrico que a Siemens
tem tirado a maior fatia de seu faturamento local. Em torno da metade. Na visão
do executivo, o setor tem o marco regulatório mais organizado e avançado no
país. Avalia que a demanda deve continuar dinâmica nos próximos 36 meses.
“Apesar de toda a turbulência no setor, com alguns ajustes de regulação
foram realizados em dois anos leilões importantes, sem recorrer às estatais e
com forte presença forte de capital privado, local e estrangeiro”, diz
Clark.
A companhia está presente em toda a
cadeia de negócios do setor: geração, transmissão, distribuição e serviços,
avançando para termogeração a gás e energias renováveis (eólica e solar) e
armazenamento em baterias.
A nova estratégia de crescimento passa
por parcerias com investidores em projetos, em especial no setor elétrico. Isso
já teve início em 2017, quando firmou associação na holding Gás Natural Açu
(GNA), com a Prumo e a BP), que montou um empreendimento de termogeração a gás,
no Porto Açú (RJ). São previstos seis módulos, cada um com investimento
bilionários. Ficou com 33% de participação. Duas termoelétricas já estão
definidas.
Com o impulso do gás do pré-sal,
outros projetos semelhantes ao do Açú vão se replicados pela costa brasileira,
informou. Ao mesmo cinco já estão estruturados para irem a leilão. “Vamos
olhar todos. É um ciclo de aposta alta no Brasil e não é de baixa escala”,
ressaltou o executivo.
A Siemens vê muitas oportunidades no
setor elétrico: da geração distribuída a cidades inteligentes, smart grids e
eficiência energética. “Nossos clientes estão todos com planos avançados
de digitalização e o foco é competitividade e oferecer mais serviços.”
Em óleo e gás, aponta a volta dos
leilões de áreas no pré-sal, que trazem um apetite renovado – com presença de
clientes globais (Exxon, Shell, Total, os chineses e outros). Além da
recuperação financeira da Petrobras.
A área mais fraca no país é a de
transportes e logística, que tem forte dependência de recursos públicos. A
União e os estados estão com graves problemas fiscais, para não dizer quebrados
financeiramente. O investimento é de longo prazo de retorno. Por isso, diz, a parceria
de governos é fundamental. Isso vale para metrôs, aeroportos, rodovias… Em
ferrovias, leva-se até 80 anos. “A atratividade para o grande investidor
internacionais.
“Qual foi o último grande plano
decenal feito para essa área?”, questiona Clark. Para ele, se resolver a
governança de infraestrutura de Transporte e Logística, o disparo será enorme.
“Não se vê, atuante, uma EPE (Empresa de Pesquisa Energética, do setor de
energia) para Logística”, diz.
Na indústria, a grande revolução virá
pela digitalização – quarta revolução industrial (com internet das coisas,
impressão e conexões digitais). Um campo de negócio aonde a Siemens avança a
largos passos, em todos os cantos do mundo, diz Clark. Num primeiro momento,
mais presente na manufatura de bens de consumo: desde o automóvel a fogões,
geladeiras e outros bens eletrodomésticos. Até a indústria de alimentos.
O executivo aponta o caso da
fabricante de fogões e geladeiras Esmaltec, do Ceará, que passou a exportar 70%
da produção. A digitalização, diz, ajuda a reduzir custos em até a 40%, o
investimento tem retorno em dois anos e ganha-se competitividade para
exportar.”
O grupo Siemens definiu um modelo de
“frota de navios” em seus negócios. O navio-mãe – a corporação
propriamente dita, detentora de tecnologias – e várias embarcações navegando ao
seu lado. Aponta como exemplo a Siemens- Gamesa, fusão com a fabricante de
equipamentos eólicos, criando um dos maiores do mundo. Passou a ter uma
importante fatia do capital. Da mesma forma, a Siemens- Alstom, um dos maiores
de mobilidade, e Siemens-Healthineers, em saúde.
A subsidiária do grupo alemão no
Brasil foi fundada em 1905, embora tenha chegado há 150 anos. Opera 14
fábricas, incluindo a da Gamesa, em Camaçari (BA) e a de saúde, em Joinville.
Nove estão no polo industrial de Jundiaí (SP), onde se faz de disjuntores a
turbinas de geração de energia. As outras são Canoas (RS), Cabreúva (SP) e
Manaus. Emprega 5,8 mil funcionários.
Apesar de ociosidade em algumas
unidades, espera romper a linha de R$ 5 bilhões de faturamento no ano.
“Temos, hoje, uma sensação de melhora da economia.”
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