Enquanto a paralisação nacional dos
caminhoneiros deixou clara a condição do país de refém das rodovias para escoar
a produção e garantir o deslocamento de pessoas, iniciativas para retomar o
transporte ferroviário de passageiros enfrentam todo tipo de entraves, que
fecham os sinais da malha ferroviária para a população. Os poucos projetos que
conseguem contornar os obstáculos só avançam devido à dedicação intensa de
apaixonados pelos trilhos, caso do Trem Turístico Rio-Minas, que na sexta-feira
fez sua segunda viagem de teste e no segundo semestre vai ligar as cidades de
Cataguases, na Zona da Mata, e Três Rios (RJ), com capacidade para 870 pessoas
em saídas aos fins de semana. Ao mesmo tempo, outra iniciativa que poderia
facilitar o deslocamento de turistas de Belo Horizonte até Inhotim, maior museu
de arte contemporânea a céu aberto do mundo, encontra como barreira a
circulação de carga pelos trilhos entre a capital e Brumadinho, na região
metropolitana.
Há 21 anos lutando para aproveitar
ferrovias ociosas para o transporte de passageiros, Paulo Henrique do
Nascimento, presidente da organização não governamental (ONG) Amigos do Trem,
está à frente do projeto que vai usar o antigo ramal ferroviário Leopoldina
para levar passageiros entre as cidades de Cataguases e Três Rios, com
baldeação em Além Paraíba. Os trilhos que serão usados foram desativados em
2015 e ficaram ociosos desde então. Em todo o país, segundo Paulo, há nada
menos que 15 mil quilômetros de ferrovias nas mesmas condições, que são ideais
para aproveitamento no transporte de pessoas. Política: Brasil precisa investir
R$ 600 bi para não ficar refém do transporte rodoviário
Mas não é nada fácil viabilizar
projetos para reativá-las. “É muito difícil mesmo, pela falta de recursos, de
parceiros, pela burocracia, mas não é impossível. É necessário muito esforço
pessoal. Dedico quase 24 horas da minha vida a esse projeto do trem Rio-Minas.
É um desgaste muito grande, mas é compensador, porque vai trazer benefícios
para a sociedade, vai gerar emprego, renda e por isso temos que lutar por esses
espaços”, afirma o presidente da ONG Amigos do Trem, que desde 2014 luta contra
um câncer pulmonar e mesmo assim segue coordenando todos os esforços para
viabilizar o sonho.
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Em 21 de maio, o Estado de Minas
acompanhou a primeira viagem de teste do trem Rio-Minas, entre Recreio e
Cataguases, trecho de 60 quilômetros ainda não aberto ao público geral. A
segunda ocorreu na sexta-feira, e já cobriu praticamente os 168 quilômetros do
trecho Cataguases/Três Rios. Na versão para passageiros, serão 15 vagões, com
capacidade para 870 pessoas, restaurante, lanchonete, um carro específico para
eventos e com acessibilidade garantida para deficientes. A velocidade deve
atingir 30km/h.
A circulação se dará sempre nos fins
de semana, com partidas de Cataguases (MG) e Três Rios (RJ), estação de
baldeação na mineira Além Paraíba e oito municípios no roteiro. De acordo com a
experiência de Paulo Henrique, a viabilidade desse tipo de projeto é maior em
lugares onde não há transporte de carga, pois o compartilhamento de pessoas e
produtos gera dificuldades técnicas. “Esse compartilhamento é complexo, pois as
condições técnicas ficam mais difíceis em ferrovias com grande movimento de
carga”, afirma.
Cargueiros predominam
A barreira imposta pela carga é
justamente o problema enfrentado atualmente pela organização da sociedade civil
de interesse público (Oscip) Apito, que tenta viabilizar projeto para implantar
um trem de passageiros entre BH e o Inhotim, museu de arte contemporânea que fica
em Brumadinho, na Grande BH. A MRS Logística, concessionária responsável pelo
trecho ferroviário que seria usado, sustenta que o movimento mundial é o de
separação entre carga e passageiros, e não de compartilhamento.
O engenheiro ferroviário Sérgio Motta
Mello, da Oscip Apito, participou de uma viagem pelo trecho em questão, com
pessoas ligadas a outras entidades que lutam pelo transporte de passageiros em
ferrovias e também acompanhado de um representante da própria MRS. A conclusão,
afirma, é de que a viagem é viável e pode acontecer sem grandes interferências
no transporte de carga.
Segundo ele, poucos ajustes são
necessários e o percurso leva em torno de uma hora e 20 minutos. “Essa viagem
nos mostrou que a linha não tem movimento capaz de criar empecilhos ao projeto.
É totalmente viável, e nós agora estamos aguardando uma carta de anuência da
MRS, que nos permitirá tirar o projeto do papel”, afirma Sérgio. O engenheiro
pontuou que serão necessários ajustes em um trecho de cerca de quatro
quilômetros entre o Bairro Gameleira, Oeste de BH, e a Região do Barreiro,
principalmente do ponto de vista de manutenção, mas nada que inviabilize a
proposta.
Poucos trechos para o turismo
Para o conselheiro da ONG Transporte e
Ecologia em Movimento (Trem) Nelson Dantas, com as concessões da malha
ferroviária à iniciativa privada, o que restou em termos de transporte de
passageiros foram pequenos trechos para trens turísticos. Mesmo assim, com
projetos de capacidade bem menor do que o transporte regular de pessoas, Dantas
avalia que iniciativas como a do trem BH/Inhotim são válidas. “Vai resgatar um
transporte que é muito importante e tem condição de potencializar o turismo na
Grande BH”, afirma. Mas a resistência das empresas transportadoras, segundo
Dantas, é grande não só nesse trecho específico, como em todo o Brasil.
Em nota, a MRS informou que não atua
diretamente com os interessados pelo projeto de um trem de passageiros em sua
malha ferroviária, mas com a Agência Nacional de Transportes Terrrestres
(ANTT), responsável por autorizar a implantação. Ainda segundo a empresa, no
caso do trem BH/Inhotim, a ANTT vai avaliar se o serviço se sustenta, dos
pontos de vista operacional, econômico e de segurança. “Ao longo desse
processo, que não é rápido, pela seriedade que é o transporte de pessoas, a
ANTT pode (e provavelmente irá) nos consultar e pedir dados e informações para
subsidiar sua decisão”, informou a MRS.
Também em nota, a ANTT informou que o
contrato de concessão da MRS não envolve transporte de passageiros, apenas de
carga, mas que a empresa deve assegurar a passagem de até dois pares de trens
de passageiros, por dia, em trechos com densidade de tráfego específica, mas
não esclareceu qual é o volume de tráfego da ferrovia operada pela MRS no
trecho em que há interesse em implantar o trem de passageiros. A ANTT informou,
por fim, que qualquer empresa que quiser solicitar transporte ferroviário de
passageiros com finalidade turística, histórico-cultural e comemorativa deve
fazer a solicitação à agência.
De BH ao Inhotim em vagões do Vera
Cruz
O projeto para ligar Belo Horizonte ao
Museu Inhotim, em Brumadinho, por trilhos prevê a implantação de dois trens de
passageiros saindo no início da manhã da Estação Central de BH, cada um com 10
vagões, e retorno no fim da tarde, com capacidade para levar 1.480 pessoas por
dia. O custo da passagem giraria em torno de R$ 115, já incluindo a entrada de
R$ 44 no Inhotim e também a possibilidade de visita no Museu de Artes e
Ofícios, que custa R$ 3. Além disso, o engenheiro ferroviário Sérgio Motta
Mello, que está à frente do projeto pela organização da sociedade civil de
interesse público (Oscip) Apito, diz que o serviço de bordo oferecerá petiscos,
água e café aos passageiros.
Para garantir o projeto são
necessários investimentos para construir um terminal no estacionamento do
Inhotim, a recuperação dos 20 vagões, além de adequações no terminal da Estação
Central, que será usado para a partida dos trens. Esse terminal, segundo
Sérgio, pertence à Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) e fica ao lado
das plataformas de embarque e desembarque da Vale. Ainda de acordo com Sérgio,
a CBTU já concordou em ceder o terminal ao projeto, porém isso só vai ocorrer
se e quando a MRS der anuência para a operação.
O engenheiro ferroviário afirma que já
há uma parceria com investidores para viabilizar todos os custos do projeto.
Atualmente, dos 20 vagões necessários, 12 estão disponíveis, mas como foram
bastante depredados, precisam passar por recuperação. Eles chegaram a ser
usados como composições do antigo Vera Cruz, primeiro trem de luxo que rodou em
Minas Gerais e que conectou a capital mineira ao Rio de Janeiro a partir de
década de 1950. Para chegar até Inhotim, o trem passará pela Região do Barreiro
e pelas cidades de Ibirité, Sarzedo e Mário Campos, antes de chegar ao
município de Brumadinho.
Segundo o diretor-executivo do
Inhotim, Antônio Grassi, o projeto ainda está em fase de análise. Mas ele
avalia que a implantação do transporte ferroviário de passageiros entre BH e o
museu representaria um grande ganho para o instituto, que recebe 350 mil
pessoas por ano de diversos estados e países, e para a população mineira em
geral. “Um projeto inovador como esse dará ainda mais visibilidade ao Inhotim,
facilitando o deslocamento do público, aumentando o número de visitas e
impulsionando o turismo na região. Além disso, colocará o Inhotim na rota de
instituições culturais, artísticas e parques internacionais que oferecem a
estrutura ferroviária como opção de acesso”, afirma.
Saídas custariam R$ 600 bi e 15 anos
Em reportagem publicada em sua edição
de ontem, o Estado de Minas mostrou, com base em cálculos de especialistas, que
o Brasil precisará investir R$ 600 bilhões, sobretudo em ferrovias, se quiser
se livrar da dependência quase total do transporte rodoviário. Diante do
movimento dos caminhoneiros, que em 10 dias deixou o país à beira do colapso,
ficou evidente a necessidade de buscar diversificação da matriz de deslocamento
de pessoas e cargas, mas esse processo, além de caro, seria demorado: a
estimativa é de que consumiria pelo menos uma década e meia.
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