Vale vê cenário incerto e mantém dividendo suspenso, mas descarta demissões

O cenário de recessão global será muito duro, mas a Vale tende a sofrer menos por estar em um segmento de commodities pouco afetado, ser um produtor de minério de baixo custo e contar com os sinais de retomada econômica da China, seu principal mercado. Apesar de ter caixa robusto, a mineradora sacou uma linha de crédito rotativo de US$ 5 bilhões e tirou do horizonte de curto prazo a retomada do pagamento de dividendos.

A política está suspensa. Hoje existe uma névoa enorme. Ninguém sabe se estamos diante de algo que vai durar três, seis ou 12 meses, diz Luciano Siani, diretor-executivo de finanças da mineradora. Ele e Luiz Eduardo Osorio, diretor-executivo de relações institucionais, comunicação e sustentabilidade da Vale conversaram exclusivamente com o Estadão/Broadcast a respeito do cenário e das ações da companhia diante da crise.

Internamente, a Vale adotou o trabalho remoto desde 16 de março para empregados com funções elegíveis a home office e afirma tentar manter somente os serviços essenciais, apesar de reclamações de alguns sindicatos. Osorio diz que demissões e medidas como a redução de salários e jornadas não estão no radar.

Marcada por uma crise de imagem após a tragédia de Brumadinho, a mineradora tem buscando assumir protagonismo em medidas de ajuda humanitária e a fornecedores para combater a pandemia no País. Na semana passada, como antecipou o Estadão/Broadcast, decidiu ampliar o pacote de apoio a pequenas e médias empresas de sua cadeia produtiva: até o fim de abril serão R$ 932 milhões em antecipação de pagamentos a cerca de 3 mil empresas.

A empresa também fretou 14 aviões para trazer 600 toneladas de insumos médicos, kits de testes de coronavírus e equipamentos de proteção individual (EPI) da China, que serão doados ao governo federal. À frente da gestão de crise, Osorio afirma que foi montada uma verdadeira operação de guerra. Diariamente às 21h, ele participa de uma teleconferência com dezenas de pessoas no Brasil e na China para discutir a evolução da pandemia e novas ações. Veja os principais trechos da entrevista.

Já é possível medir com mais precisão o impacto da pandemia sobre as operações da Vale?

Luciano Siani: O quadro está muito incerto ainda. O que pode vir a acontecer é um atraso na retomada das operações paradas. É preciso vir um auditor inspecionar a barragem, um consultor viajar para concluir um relatório, autorização da agência (Agência Nacional de Mineração). O mundo virtual não é perfeito para isso, então pode haver algum atraso. Isso é uma incerteza.

Há outras?

Siani: Já apontamos a operação de Brucutu (de extração de minério de ferro, em Minas Gerais). Se por acaso não conseguirmos as condições de segurança para retomar a operação até o fim do primeiro semestre, isso impactaria nossa produção. Outra questão é a do absenteísmo. Quando aparece alguém com sintoma (de coronavírus), é preciso isolá-lo. Temos segurança de que nossas operações estão com padrão classe mundial de segurança para os empregados, mas eles não ficam só nelas. Temos de aguardar a evolução da pandemia para ver se terá impacto na nossa condição de operar.

A Vale não aderiu ao movimento Não Demita, compromisso de grupos como BRF, Magazine Luiza, Pão de Açúcar e bancos. Há demissões no radar?

Luiz Eduardo Osorio: Não fomos convidados. No momento em que o Brasil passa por grande incerteza econômica, estamos mantendo nossa força de trabalho empregada e contribuindo com fornecedores e parceiros, antecipando pagamentos. Não tem (demissão no radar).

A Vale adotará medidas como reduzir jornada/salários e adiar recolhimento de FGTS?

Osorio: Não. Esse assunto também não está na mesa.

Por que a Vale decidiu sacar US$ 5 bilhões de crédito rotativo?

Siani: Centenas de empresas sacaram suas linhas de crédito rotativas no mundo todo. É absolutamente esperado que, num momento de tamanha incerteza, as companhias lancem mão de liquidez. Foi um seguro para com tranquilidade poder tomar as decisões e aguardar o que vem.

Havia uma expectativa de retomada do pagamento de dividendos pela Vale em 2020. A crise da Covid-19 elimina essa possibilidade?

Siani: Não é possível ver uma empresa que sacou uma linha de crédito rotativa como nós fizemos pagando dividendo. A primeira condição é uma retomada de normalidade para que se possa pagar o dinheiro adicional que pegou e aí então pensar em dividendo. No mundo atual, essa questão do dividendo não se apresenta. A política está suspensa. Hoje, existe uma névoa enorme. Ninguém sabe se estamos diante de algo que vai durar três, seis ou 12 meses. Se terá dois picos, reincidência. Então, o investidor entende que, nesse momento, o importante é preservar a saúde financeira da companhia.

O cenário aponta para recessão global. A Vale já começou a pensar na retomada?

Siani: Para nós, o impacto da recessão global num primeiro momento vai ser fora da China, porque lá já estão retomando. A siderurgia já está operando (naquele país) a praticamente 90% da capacidade. A tendência é que o mercado chinês retome a demanda de forma saudável. Como ele é 70% do mercado transoceânico de minério de ferro, a gente já garante aí alguma demanda. No resto do mundo houve várias reduções de capacidade na siderurgia. O cenário vai ser muito duro. Naturalmente, isso vai ter impacto no balanço de oferta e demanda de minério. A Vale precisa se preparar para ser eficiente. Como somos produtores de baixo custo, a tendência é que o impacto seja maior em outros.

Então a perspectiva de retomada na China é um alento para a Vale…

Siani: Diria que não tem como escapar (da crise), porque fora da China a demanda está caindo muito. Mas se você considerar o rol de impactos em outras indústrias, a Vale está no segmento menos afetado. O preço do minério foi um dos que se seguraram melhor dentre todas as commodities, desde o início da pandemia. O mercado futuro está apontando para uma queda suave (na cotação, para perto de US$ 75 em seis meses), como estava desde sempre. Esse é o cenário hoje, mas essa curva pode piorar.

A Comissão de Valores Mobiliários recomenda às empresas que reportem impactos do coronavírus. A Vale vai reapresentar guidances (projeções) ou fazer baixas contábeis?

Siani: Se eu tivesse essa informação, divulgaria hoje. Estamos seguindo as recomendações da CVM. Divulgamos, por exemplo, a estimativa de impacto na produção de cobre pelo (maior tempo de) fechamento da mina de Voisey’s Bay, que foi de 2 mil toneladas para 6 mil toneladas.

A exemplo de outras empresas, a Vale vai cortar a remuneração de executivos?

Siani: Nesse ambiente, a companhia não consegue entregar suas metas financeiras. A remuneração das ações cai. Qualquer sistema de remuneração captura imediatamente uma crise como essa, reduzindo a remuneração dos executivos. O da Vale não vai ser diferente.

No fim de março, a mineração passou a ser considerada atividade essencial pelo Ministério de Minas e Energia (MME), mas há relatos de trabalhadores insatisfeitos com as condições nas operações da Vale…

Osorio: A portaria do MME classificou a mineração como atividade econômica essencial porque além de produzir minério de ferro, que é um dos principais produtos da pauta de exportação do País, a Vale produz energia que abastece centenas de cidades, transporta grãos e combustíveis por suas ferrovias. A gente é uma indústria de base e tem impacto em cadeia. Não podemos parar e tomamos as medidas de segurança e os protocolos de saúde estabelecidos por autoridades dos países nos quais a gente opera.

O plano de descomissionamento de barragens pode ser afetado pela crise?

Osorio: O plano anunciado está sendo cumprindo e não há nenhuma alteração. Em segurança de barragens e descomissionamento (o investimento) está mantido. O objetivo é que, nos próximos três anos, todas a estruturas a montante estejam descaracterizadas ou com o fator de segurança adequado, sem oferecer risco às comunidades e municípios localizados abaixo das estruturas e ao meio ambiente.

A Vale tomou medidas de ajuda humanitária, como a compra de 5 milhões de kits de testes para o coronavírus. É uma oportunidade de recuperar sua imagem após Brumadinho e Mariana?

Osorio: O principal interesse da Vale é ajudar o Brasil a enfrentar essa pandemia. A Vale vem aprendendo diariamente com a tragédia de Brumadinho, mudou sua governança, está reparando aquilo que pode ser reparado e buscando estabelecer um novo pacto com a sociedade. A gente já vinha falando desse novo pacto, mas com o gesto está exercitando esse novo pacto. Montamos uma operação de guerra para ajudar o País contra o coronavírus. A Vale ofereceu suporte ao governo federal e mobilizou toda sua estrutura logística e a parceria de cinco décadas com a China para viabilizar a doação humanitária.

A Vale está ajudando fornecedores com a antecipação de quase R$ 1 bilhão em pagamentos. As medidas tomadas pelo governo para ajudar as pequenas e médias empresas são suficientes?

Siani: Todos os governos, em todo o mundo, estão fazendo injeções maciças de recursos para suportar as parcelas mais frágeis da economia. O que o governo brasileiro está fazendo está seguindo a melhor prática mundial.

É um momento em que é preciso elevar gasto público?

Siani: É. Não tem jeito.

Fonte: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,vale-ve-cenario-incerto-e-mantem-dividendo-suspenso-mas-descarta-demissoes,70003271264

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