G1 – Construída em 1875, a Estação Ferroviária de Sorocaba (SP) testemunhou 150 dos 371 anos de vida da cidade – que serão completados no dia 15 de agosto. Sem função desde 2012, o primeiro prédio de alvenaria de tijolos da cidade e símbolo maior do passado ferroviário local “implora” por restauração desde 2005, quando foi cedido provisoriamente ao município com a finalidade de receber atividades culturais.
Os sinais da deterioração são visíveis em vários pontos do prédio, que nos últimos 20 anos recebeu reformas apenas na fachada. No hall de entrada, onde ficavam os guichês para compra de passagens, o estuque do forro está desabando por conta da infiltração. Um voo com drone revelou a falta de telhas no prédio e também na gare de embarque de passageiros.
No local, o g1 também constatou que não há vigilância; embora os portões do hall permaneçam trancados com cadeado, há pessoas morando em um anexo do antigo armazém. Situação de abandono que contrasta com a importância daquela edificação para a arquitetura e a memória local.
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“Até esse prédio ser edificado, Sorocaba construía basicamente em um único método, que era a taipa de pilão, um método de construção com terra. A vinda da ferrovia mudou esse sistema para um sistema construtivo de alvenaria de tijolos. Esse foi o primeiro prédio de alvenaria de tijolos da cidade, uma técnica que depois se tornaria bastante emblemática em função da nossa industrialização com as fábricas têxteis, que estão intimamente ligadas com a ferrovia”, detalha o arquiteto, urbanista e professor universitário Marco Massari.
Massari destaca que o prédio inicial da estação, aberto ao público em 10 de julho de 1875, data da primeira viagem oficial de um trem de passageiros entre São Paulo e Sorocaba, era mais simplório e está contido “dentro” do atual, que manteve os dois pavimentos e foi ampliado no comprimento. Ganhou uma fachada com elementos da arquitetura eclética na década de 1920, época de grande progresso da Estrada de Ferro Sorocabana (EFS).
“Com a ampliação, a estação ganha ornamentos e elementos clássicos. Por isso o nome eclético, que era o estilo que marcou bastante o escritório que desenvolveu esse projeto, de Ramos de Azevedo. A gente vai ver essa mudança de estilo também em outros prédios da cidade, como a Catedral, que era um prédio bem mais simples, com uma arquitetura colonial bem mais singela”, destaca.
Ressignificação de uso
O fim do transporte regular de passageiros nas ferrovias de São Paulo em meio à concessão do serviço de cargas à iniciativa privada, no final dos anos 1990, acabou com a função prática das estações ferroviárias do interior.
Em geral, os imóveis com importância histórico-cultural acabaram transferidos às prefeituras para restauração e aproveitamento como centros de cultura e memória ou transformação em postos de serviços públicos.
A estação de Sorocaba foi cedida ao município em 2005, após mobilização da sociedade para impedir que ela fosse colocada em leilão pela Rede Ferroviária Federal (RFFSA), sucessora da Ferrovia Paulista S.A. (Fepasa).
A então vereadora Tânia Baccelli era uma das líderes dos Amigos da Estação, grupo responsável pela realização de serestas e outros eventos que chamassem a atenção da cidade para a necessidade de cuidar do prédio.
“Me sinto muito mal por não termos conseguido criar um novo espaço de cultura popular vinculado às memórias históricas de nossa cidade”, lamenta hoje, quase duas décadas depois.
Entre 2008 e 2012, a estação sediou a Cantata de Natal, espetáculo cênico e musical que reunia milhares de espectadores na Avenida Afonso Vergueiro. Entretanto, como nunca houve nenhuma restauração mais abrangente do que a fachada do imóvel, ela não pôde mais ser realizada ali, porque o mezanino, já em más condições, foi interditado pelo Corpo de Bombeiros.
Divergências de responsabilidades
Atualmente, o prédio da estação, a gare para embarque de passageiros e os armazéns de cargas e bagagens pertencem à Secretaria de Patrimônio da União (SPU), que “herdou” a carteira de imóveis desnecessários à operação ferroviária de cargas no processo de extinção da RFFSA. O único imóvel em uso no complexo é o do armazém nº 2, que foi restaurado em 2011 para sediar o Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (Macs).
A Prefeitura de Sorocaba informou que a cessão do local terminou em 2020 e que, com isso, “as manutenções do local são de responsabilidade da União [Secretaria de Patrimônio da União em São Paulo (SPU)]. A pasta e o Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico (CMDP) estão cobrando, novamente, as devidas manutenções necessárias ao Governo Federal.”
Informou também que a Guarda Civil Municipal mantém equipes atuando 24 horas no local para garantir a segurança do patrimônio e da população.
Anteriormente, a administração municipal informou que, quando a cessão foi finalizada, solicitou a doação permanente, com o objetivo de “realizar parcerias público-privadas e viabilizar a restauração da Estação Ferroviária e dos prédios anexos”.
Já a superintendência da Secretaria de Patrimônio da União em São Paulo (SPU) disse que o imóvel permanece cedido ao município e ele “atualmente é responsável por sua gestão”.
“Em 2009, foi firmado entre a Prefeitura e a SPU um termo de guarda provisória, posteriormente substituído, em 2010, por contrato de cessão com prazo de cinco anos. A averbação da matrícula dos imóveis no Cartório de Registro de Imóveis — etapa indispensável para efetivar a transferência ao Município — não foi concluída em gestões anteriores”, esclarece a SPU.
“O procedimento de cessão foi retomado pela Prefeitura e pela SPU, com a finalidade de destinar o imóvel conforme as diretrizes do Programa Imóvel da Gente, voltado à utilização de bens da União para políticas públicas, entre elas a recuperação do complexo ferroviário de Sorocaba, prioridade do governo federal”, continua a nota.
Porém, enquanto isso não ocorre, o arquiteto Marco Massari defende obras emergenciais que, pelo menos, paralisem a deterioração contínua de suas condições.
“O prédio da estação precisa passar por intervenção o mais rápido possível, porque ele corre, sim, risco de colapso de partes dele. A gente vê o estuque soltando, parte do forro caindo, parte do telhado aparente e sem telhas em alguns locais. Então, ele, sim, está correndo bastante risco, tanto é que ele está fechado há bastante tempo, não permitindo o nosso acesso. Seria muito interessante vermos medidas serem tomadas nesse âmbito, de pelo menos estancar essa degradação”, alerta.
Nova chance como estação de passageiros
Anunciado recentemente pelo Governo do Estado de São Paulo, o projeto do Trem Intercidades – Eixo Oeste, que visa implantar uma linha de trem rápido entre Sorocaba e São Paulo, pode oferecer uma nova chance de o imóvel histórico voltar a ser uma estação ferroviária ativa.
O anteprojeto apresentado em consulta pública afirma prever “a integração plena da estação histórica existente ao novo sistema, com requalificação e reuso das estruturas originais como parte funcional e simbólica do terminal de passageiros”, ao mesmo tempo em que “alia preservação patrimonial, requalificação urbana e exigências operacionais modernas”.
Pela proposta, o edifício histórico da antiga estação da Estrada de Ferro Sorocabana (EFS) será mantido e incorporado ao novo terminal como espaço de controle de acesso e distribuição dos fluxos de passageiros. O hall de entrada será reutilizado como espaço de recepção principal, mantendo sua volumetria original e sua conexão direta com as plataformas.
“É a oportunidade de ouro que esse prédio vai ter de não só ser recuperado, mas também o prédio das oficinas e demais elementos que constituem esse complexo ferroviário. Uma oportunidade de ouro para Sorocaba voltar a ter o trem, voltar a ter conexão com São Paulo. Isso vai beneficiar muito a mobilidade urbana, vai beneficiar muito as pessoas, e aqui vai voltar a ser um local que as pessoas vão poder frequentar”, defende Massari.
VÁ ALÉM DA MANCHETE
O setor ferroviário é complexo e as notícias do dia a dia são apenas a ponta do iceberg. Para entender o cenário completo, é preciso de contexto e a visão de quem cobre o setor desde 1940.
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Penso que o Sindicatodos ferroviários tem condiçoes de pressionar as autoridades e concessionárias para que façam a restauração. Não adianta ficarem só rebendo dinheiro dos aposentados e não fazer nada. Esse sindicato é uma vergonha.