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‘Seremos mais valiosos do que hoje’, diz Pimenta

Valor Econômico – Destravar valor, manter a harmonia nas relações institucionais com as diferentes esferas de governo e seguir em direção à descarbonização da cadeia mineral. Esses são três dos principais pontos que o presidente da Vale, Gustavo Pimenta, enumera como marcas de sua gestão, que completa um ano nesta quarta-feira (1º).

As relações institucionais foram uma das prioridades de Pimenta nos 12 primeiros meses do executivo no comando da mineradora. Nesse período, ele buscou melhorar o diálogo com o governo Luiz Inácio Lula da Silva e com os Estados onde opera em uma relação que enfrentava dificuldades no passado recente. Mas a maior afinidade com o Planalto não encerrou desafios ainda presentes, como as negociações sobre as ferrovias da companhia e a publicação de um decreto sobre mineração em áreas de cavernas que o setor espera há tempos e ainda não saiu.

Ao Valor, Pimenta detalha os avanços no minério de ferro e cobre e projeta cenário de ganhos para os acionistas: “Tenho certeza que vamos destravar muito valor em relação ao que temos hoje.”

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No período como CEO, Pimenta reformulou as vice-presidências e levou novos nomes para a empresa, em um “time” que é elogiado pelo mercado. Houve, porém, a demissão recente da vice-presidente de pessoas, Cátia Porto, que ficou somente nove meses no cargo e saiu, segundo apurou o Valor, por denúncias de assédio moral. Pimenta não fala sobre o assunto e diz que está “muito feliz” com o time que tem hoje.

A assessoria de Porto nega a demissão por assédio: “As especulações divulgadas sobre os motivos de sua saída não correspondem à realidade. Cátia sempre conduziu sua carreira com respeito, profissionalismo e em conformidade com o código de conduta das empresas por onde passou, sem jamais ter sofrido qualquer questionamento de atuação executiva.”

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Valor: Passado o primeiro ano, quais são as metas para o futuro?

Gustavo Pimenta: Lançamos em dezembro o Vale 2030 [plano estratégico] com grandes elementos. O primeiro é a construção do que chamamos de portfólio superior. Temos oportunidade de crescimento no minério de ferro. No ano passado, fizemos 328 milhões de toneladas e indicamos chegar a 360 milhões de toneladas no fim da década, mas com um mix de produtos mais favorável. Temos ainda o projeto +20 [expansão do S11D, em Carajás] e Capanema [em Minas Gerais]. Queremos destravar nosso potencial minerário.

Valor: O que significa destravar?

Pimenta: A Vale tem uma vantagem em relação a competidores. Fomos desenhados para operar com uma capacidade maior, com logística que inclui porto e ferrovia. Conseguimos desenvolver projetos com intensidade de capital de 25% a 30% [a menos] em relação ao gasto de um competidor. Vamos avançar no portfólio de produtos de minério de ferro até 360 milhões de toneladas e reduzir o custo C1 [da mina ao porto]. A Vale será a plataforma de minério de ferro mais competitiva da indústria. Outro elemento é o crescimento do cobre, metal no qual o Brasil tem ficado para trás. Hoje fazemos 350 mil toneladas, mas, diferente de nossos competidores, temos potencial minerário para crescer no cobre. Já anunciamos o objetivo de dobrar a capacidade nesse produto. Tenho certeza que vamos destravar valor em relação ao que temos hoje. Outro elemento da agenda para 2030 é o reposicionamento em relação à sociedade e aos parceiros. Aqui falamos de relações com comunidades e com os stakeholders [públicos de interesse], para termos essa licença para operar e seguir crescendo.

Valor: Como a Vale vai se posicionar entre as grandes mineradoras?

Pimenta: Nossa visão é de valor de mercado da companhia e de crescimento para os próximos anos. Nos últimos 12 meses ou ao longo de 2025, o nosso retorno total ao acionista [valorização das ações somada a dividendos] é o melhor da indústria. Estamos recuperando valor. Se chegarmos a ser uma companhia com 360 milhões de toneladas e custo C1 abaixo dos US$ 20 [por tonelada], seremos mais valiosos do que hoje. Essa é uma jornada de destravamento de valor. Acho que temos um potencial de crescimento grande. Este ano, se tudo do mundo [em volumes de produção].

Valor: Analistas têm falado sobre a falta de demanda das siderúrgicas para produtos de maior prêmio. Qual é a visão da Vale?

Pimenta: A Vale sempre foi uma companhia de soluções em minério de ferro. A maior parte dos operadores de minério de ferro vende a commodity e envia para o cliente. Nós desenvolvemos uma cadeia sofisticada de oferta de produtos com concentração e blendagem [misturas]. Ninguém tem isso. A Vale tem 20 pontos de blendagem no mundo. Percebemos que o grupo de produtos que estávamos ofertando para os clientes não era o de maior valor para nós, basicamente pela composição química do nosso produto em comparação ao australiano. Assim, redesenhamos o portfólio para maximizar o valor e ofertar produtos que pagam melhor. Criamos vários produtos novos que estão com excelente aceitação no mercado.

Valor: E como fica a estratégia de descarbonização?

Pimenta: Estive no Japão na semana passada e os clientes seguem na rota da descarbonização. Na Europa existem 55 milhões de toneladas de capacidade de produção [de aço] em fornos elétricos. Há mais 31 milhões de toneladas em construção com novos fornos elétricos. Os clientes estão caminhando para a rota elétrica, que é uma descarbonização. Isso vai demandar produtos de maior teor [de ferro]. Margens mais apertadas na siderúrgica fazem com que o ritmo da descarbonização seja mais lento. A direção da bala não mudou, continuamos confiantes no caminho da descarbonização. A vantagem da Vale é que temos a capacidade de ofertar vários produtos. Temos um leque que nossos competidores não têm. Se o mercado quer produto de alta sílica [contaminante], ofertamos. Se não está pagando por esse produto, concentramos e vendemos um produto sem a sílica. Nossa gestão está mais ativa e gerando valor.

Valor: Como está a aceitação do briquete pelos clientes?

Pimenta: Hoje tem um volume de fornos elétricos, mas isso vai crescendo. Todos esses projetos vão precisar do HBI [briquete, aglomerado de alto valor agregado que reduz as emissões das siderúrgicas], vão precisar desse produto, que a gente pode gerar no Oriente Médio ou em algum outro mercado. Mas os clientes vão naturalmente demandar esse tipo de produto, eles não vão conseguir rodar 100% na sucata. É um produto que, quando a gente olha as plantas em construção, ele vai ser demandado. Estamos avançando no desenvolvimento desse projeto [briquete] e escalando as plantas para que possamos operar em escala industrial. A gente está, nesse momento, fazendo o teste dos clientes e o ‘feedback’ tem sido muito positivo. É um produto de fato de menor pegada de carbono, então percebemos que tem algo com muito potencial na mão. O que precisamos agora é escalar e, obviamente, precisamos do ‘off-take’ [demanda dos clientes]. A gente vem trabalhando firme nisso.

Valor: Há um reconhecimento do mercado de que o senhor é dedicado à relação institucional. Há avanços na relação com o governo. Quais são os riscos que permanecem em relação ao decreto de exploração de cavidades e às conversas sobre as concessões ferroviárias?

Pimenta: Nos dedicamos bastante nessas relações [com o governo] para construir agendas comuns. A Vale é um grande investidor no Brasil e a nossa pauta é boa para o país. Tenho certeza que qualquer Estado, qualquer governador, qualquer presidente se conecta muito naturalmente com essas pautas, porque nós investimos muito fortemente no país. Essa foi certamente uma agenda à qual dedicamos bastante tempo, não só na escala federal, que é a que talvez tenha mais visibilidade, mas também na estadual e na municipal. Acho que avançamos muito. Lançamos o Novo Carajás [programa que prevê investimentos de R$ 70 bilhões entre 2025 e 2030 na região] no começo do ano, com a presença do presidente [Luiz Inácio Lula da Silva], nove ministros de Estado e o Helder Barbalho [governador do Pará]. Lançamos recentemente o projeto Capanema [de minério de ferro], com a presença do governador [Romeu] Zema [de Minas Gerais]. Em todos [os eventos] e outros fóruns, o que temos ouvido sobre a companhia é uma mensagem de harmonia entre o que estamos fazendo e o que o Estado gostaria de fazer. A palavra harmonia reflete bem o momento em que estamos com as diversas esferas [de governo]. Obviamente que uma empresa do nosso tamanho sempre vai ter um ou outro tema em debate, não podemos imaginar que vai ser diferente.

Valor: E a questão das ferrovias?

Pimenta: No caso das ferrovias, não alcançamos um acordo. É um tema confidencial, aqui não vou abrir o detalhe do porquê, mas a gente segue totalmente disponível a convergir e a concluir esse tema também. Então eu sigo otimista porque vejo essas relações hoje de uma forma positiva e a gente vem avançando nesse trabalho.

Valor: A demora na edição do decreto sobre a exploração das cavidades e a falta de acordo das ferrovias ser relaciona à pressão política em torno do investimento na Bamin e na Fiol [projeto de minério de ferro na Bahia, que inclui a Ferrovia de Integração Oeste-Leste]?

Pimenta: O que é relativo à negociação particular, eu prefiro não comentar e nem posso comentar. Mas vejo o avanço em várias pautas relevantes para a companhia, acabamos de ter a licença de operação do +20 aprovada, tivemos Bacaba [projeto de cobre em Carajás] e inauguramos o segundo forno em Onça Puma [produção de níquel em Carajás]. O fato de estarmos retomando produção e crescimento em vários mercados mostra uma harmonia nessas relações. É natural que tenha algum debate, mas estou confiante de que vamos conseguir convergir.

Valor: A questão das ferrovias pode terminar em judicialização?

Pimenta: Entendo que vamos caminhar para uma resolução disso. Não vejo razão para que a gente não consiga caminhar para uma solução consensual.

Valor: Qual é a marca da sua gestão na Vale?

Pimenta: Olhando para o futuro, certamente é o destravamento de valor da companhia. O potencial que eu vejo de destravamento de valor a partir do momento que a gente avança nesse projeto de 2030, de crescimento do portfólio. Hoje não se fala mais sobre a capacidade da Vale entregar, não entregar, acho que esse assunto é um assunto superado. Hoje a gente tem o melhor nível operacional e segurança, então isso é certamente algo de que eu me orgulho muito. Temos um enorme potencial de crescer no cobre e de voltar a liderança do minério de ferro.

Valor: A demissão da Cátia Porto causou surpresa. Qual a razão da saída dela?

Pimenta: Não falamos sobre a razão pela qual um executivo sai. O que eu posso te dizer é que eu estou muito feliz com o time que está aqui comigo hoje.

Fonte: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/10/01/seremos-mais-valiosos-do-que-hoje-diz-pimenta.ghtml

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