Valor Econômico – Lançado na COP, um inventário inédito de emissões revelou que o setor de transportes no Brasil foi responsável por lançar à atmosfera 189,84 milhões de toneladas de carbono em 2023. Desse total, o modal rodoviário aparece como o maior poluente, devido ao uso de combustíveis fósseis como gasolina e diesel, respondendo por 92,9% das emissões totais. Com isso, a dependência desses combustíveis segue sendo o calcanhar de Aquiles do setor.
O modal rodoviário concentra 65% da movimentação de cargas e mais de 90% da de passageiros, o que dificulta a busca por soluções. Nessa categoria rodoviária, os veículos leves — automóveis, motocicletas e comerciais leves — foram os maiores emissores em 2023, com 48,25%. Em seguida, os pesados, como caminhões, com 34,03% ônibus e micro-ônibus, com 10,61%.
O Inventário de Emissões de Gases do Efeito Estufa do Setor de Transporte, elaborado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) em parceria com a Ambipar, também mostrou que as principais categorias emissoras foram caminhões e automóveis. Em 2023, os Estados que mais concentraram emissões foram São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina, que somam mais de 55% do total nacional. As principais rodovias do país cortam as regiões Sudeste e Sul, e o transporte de cargas contribui para o índice mais elevado nessas localidades, constatou o estudo.
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O esforço de descarbonização do setor depende do avanço na produção de biocombustíveis, que ainda cresce em ritmo desigual. Em 2023, as emissões do chamado carbono biogênico somaram 55,9 milhões de toneladas. Essa “versão” do gás faz parte do ciclo natural de curto prazo do carbono e, por isso, é considerada neutra em impacto líquido sobre os gases de efeito estufa (GEE).
O setor elétrico, por sua vez, tem participação marginal: as emissões associadas à frota eletrificada foram de apenas 318 mil toneladas de carbono.
Apesar de algumas contradições, os dados devem ajudar o Brasil a definir propostas de descarbonização de curto e longo prazos. Isso porque, pela primeira vez em uma Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, o setor de transportes terá papel ativo na agenda de debates da COP — um marco que deve diferenciar a edição brasileira em relação às anteriores, ressalta o presidente da CNT, Vander Costa.
“A novidade desta COP é que, pela primeira vez, uma coalizão internacional de entidades de transporte conseguiu espaço para debater o tema e vai sair com uma equipe de pesquisadores para trocar experiências de boas práticas no próximo ano. É uma semente que precisava ser plantada e, por ser no Brasil, o país ficará visado a desenvolver soluções robustas”, afirma ao Valor.
O esforço, segundo ele, foi alinhar o inventário ao Plano Clima e à nova NDC do Brasil, embora ainda sejam necessárias mudanças regionais significativas. “O objetivo é mostrar a realidade do Brasil para poder traçar políticas que efetivamente reduzam as emissões de gases”, agrega Costa.
A meta é atualizar o inventário a cada dois ou três anos, de modo a orientar as políticas de descarbonização do transporte. Outros segmentos também foram mapeados, como o transporte aéreo, que respondeu por 4,89% das emissões totais em 2023. Esse valor contabilizou apenas os voos domésticos. Costa observa que, embora o volume total de emissões da aviação seja pequeno no Brasil, o índice por passageiro ainda é elevado.
Na percepção global, acrescenta, o setor aéreo é o que mais preocupa, pela escassez de biocombustíveis frente à forte dependência do querosene.
O modal ferroviário emitiu 1,8% do volume de carbono total, podendo se tornar a alternativa mais vantajosa pela eficiência energética. Já o aquaviário — que inclui cabotagem marítima e fluvial — responde por apenas 0,41% das emissões de gases nocivos ao meio ambiente, opção de menor impacto ambiental do setor.
Recomendações
Até 2035, o Brasil assumiu o compromisso de reduzir entre 59% e 67% de suas emissões líquidas de gases de efeito estufa. Para isso, será necessário agir com rapidez, principalmente, para conter as emissões das rodovias e dos veículos leves, reforça Costa.
As medidas devem focar na queda dos índices em áreas urbanas, com adoção de combustíveis limpos e emissão zero no escapamento para cortar 25% das emissões até 2030, segundo o inventário. Políticas de incentivo ao transporte coletivo serão imprescindíveis, como a tarifa zero, frisa Costa.
Além disso, o presidente da CNT propõe a substituição acelerada de veículos antigos movidos a combustão e a adoção de um IPVA progressivo, para reduzir as emissões da frota leve.
No transporte de cargas, ele aponta o modal aquaviário como uma alternativa ambientalmente mais eficiente. “Incentivar o transporte de média e longa distância por ferrovia e por água trará benefícios diretos para o meio ambiente”, explica.
Como ações de curto prazo, Costa menciona o treinamento de motoristas e o uso de simuladores de direção, que podem reduzir entre 10% e 15% o consumo de combustível no transporte de cargas.
Para ele, a realidade da transição energética é feita de contradições, já que “não dá para trocar toda a frota do Brasil de uma hora para outra”, e o combustível fóssil ainda continuará presente. Costa defende que a transição energética precisa considerar toda a cadeia. “Não adianta colocar veículo elétrico e carregar com energia a diesel. Isso não é transição elétrica”, argumenta.
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