Valor Econômico – Considerado um dos principais instrumentos nacionais para financiar iniciativas de enfrentamento às mudanças climáticas, o Fundo Clima ganhou escala desde que foi reativado, em 2023, mas ainda destina poucos recursos para projetos que envolvem inovação, segundo estudo do Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
O artigo, que analisou operações de crédito do Fundo Clima realizadas entre 2013 e 2024, também indica que os projetos priorizaram transição energética e indústria verde e apresentam pouca diversidade regional, concentrando-se no Sudeste.
Criado em 2009, o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima, nome oficial do instrumento, é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O mecanismo dispõe de recursos não reembolsáveis, geridos pela pasta, e empréstimos a taxas reduzidas geridos pelo banco de fomento.
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A pesquisa se debruçou sobre os créditos concedidos pelo BNDES na modalidade não automática, em que os financiamentos são analisados individualmente e aprovados pelo banco público. Essas operações representaram o maior volume de recursos reembolsáveis do Fundo Clima, segundo a pesquisa, sendo responsáveis por 83,6% do volume contratado em 2024.
De 2013 a 2024, o estudo mapeou 133 operações contratadas via Fundo Clima. Destas, apenas 14 envolveram inovação, o que representou 10,5% do total. Os projetos somaram R$ 990,4 milhões, ou apenas 11,1% dos R$ 8,9 bilhões em crédito distribuído via Fundo Clima no período.
Autora do estudo, a analista de planejamento e orçamento do Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade do Ipea, Priscila Koeller, diz que a inovação é um elemento fundamental para enfrentar as mudanças climáticas.
“É um fator preocupante ter um número pequeno de projetos que envolvem inovação financiados no âmbito do Fundo Clima. A gente espera que haja, no horizonte, um volume maior de recursos e projetos com inovação”, afirma.
O BNDES argumenta que o Fundo Clima não é exclusivo para apoio à inovação e afirma dispor de outros instrumentos para esse fim.
A diretora-executiva da Plataforma CIPÓ, Maiara Folly, avalia que os resultados refletem o quadro geral de investimentos em modernização no Brasil, área em que os aportes têm crescido mas ainda aquém da capacidade econômica do país.
Um exemplo é o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que, apesar de ter atingido níveis inéditos em 2025, ainda fica atrás quando comparado aos investimentos de China, Estados Unidos, Coreia do Sul e outros países que são referências no desenvolvimento de tecnologias. “A atuação do Brasil na agenda climática reflete esse padrão de investimentos em inovação aquém da capacidade econômica”, diz Folly.
A executiva ressalta que o pilar da inovação foi incluído recentemente no Plano Anual de Aplicação de Recursos (PAAR), elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente para apoiar o planejamento de ações com recursos do Fundo Clima. “O eixo de inovações verdes entra em 2024, o que mostra um reconhecimento para a estratégia de ação climática do país, mas ainda precisa ser desenvolvido.” A especialista acrescenta que a área envolve altos riscos de investimentos, o que torna ainda mais importante a liderança do setor público.
Koeller, responsável pelo artigo, ressalta que, a despeito das poucas operações, foi possível observar uma mudança no perfil de projetos financiados desde 2023. Ao analisar a evolução das operações contratadas de forma direta e indireta por todos os instrumentos operados pelo BNDES (linhas de financiamento, programas e fundos, entre outros), o Fundo Clima apresentou crescimento em valores.
O estudo identificou 48 projetos contratados pelo Fundo Clima em 2024, que somaram R$ 6,7 bilhões. As operações representaram 7,69% do valor contratado por todos os instrumentos operados pelo BNDES. Em 2020, foram identificados apenas dois contratos, que representaram 0,11% do valor total.
Naquele ano, o Fundo Clima atingiu o ápice do esvaziamento observado no governo do então presidente Jair Bolsonaro (PL). O mecanismo foi reestruturado após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e recebeu aporte de R$ 10 bilhões a partir da emissão de títulos verdes pelo governo brasileiro no exterior.
“Atuação na agenda climática reflete o padrão de investimentos em inovação”
— Maiara Folly
Desde então, o valor médio das operações mapeadas cresceu. Em 2024, foram contratados dois projetos de inovação no valor total de R$ 700 milhões. As operações envolvem a implantação de uma unidade industrial de etanol celulósico de segunda geração e o desenvolvimento de veículos elétricos de pouso e decolagem verticais.
O montante foi quase três vezes maior que a soma para inovação dos anos anteriores (2013 a 2023). “A discussão que se coloca é o que vale mais a pena: financiar projetos de menor porte e um número maior de projetos, ou projetos que envolvem um volume maior de recursos?”, questiona a pesquisadora do Ipea.
Para ela, parece ter havido uma opção por financiar projetos de maior porte e que teriam maior impacto no enfrentamento às mudanças climáticas.
A estratégia, porém, vai na contramão de uma avaliação conduzida em 2016 com apoio da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), envolvendo o Ipea e a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ).
O documento recomendou reduzir o piso dos contratos, na época de R$ 1 milhão, para permitir que uma variedade maior de proponentes e projetos menores pudessem acessar os recursos. Atualmente, os valores mínimo e máximo para contratação de projetos de forma direta pelo Fundo Clima são, respectivamente, de R$ 20 milhões e de R$ 500 milhões.
Esse cenário pode ter favorecido a predominância de contratos de inovação na região Sudeste, especialmente em São Paulo. Segundo a pesquisa, as empresas paulistas absorveram 72% dos projetos firmados entre 2013 e 2024. A concentração financeira foi ainda mais expressiva: 91,2% do montante total foi destinado ao Estado.
“Essa concentração reflete também os padrões de investimento em inovação no Brasil, que têm uma concentração não só no Estado de São Paulo, mas no Sudeste de maneira geral”, observa Folly, da plataforma CIPÓ. “No entanto, é importante que a gente tenha um olhar para ver se o fundo está tendo uma atuação regional equilibrada”, reforça.
A análise de áreas elegíveis ao financiamento aponta uma distribuição relativamente proporcional em termos do número de projetos com inovação contratados. Mas o recorte por valores indica um reordenamento do Fundo Clima, com a priorização de empreendimentos nas áreas de transição energética e indústria verde. Essas atividades representaram, respectivamente, 47,2% e 18,9% do montante total aplicado.
“O grande desafio é como fazer com que esses projetos financiados tenham, de fato, um impacto na mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, diz Koeller.
O BNDES informou, em nota, que o Fundo Clima visa assegurar recursos para ações voltadas à mitigação e adaptação das mudanças climáticas, e não é exclusivo para apoio à inovação. O banco esclareceu que conta com o programa BNDES Mais Inovação, que oferece taxas mais atrativas aos projetos. Ele destacou que o Fundo Clima passou por uma “robusta expansão” nos últimos anos, com aprovações que ultrapassaram R$ 25 bilhões. Os desembolsos atingiram R$ 8 bilhões no ano passado.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima afirmou que os valores do Fundo Clima na modalidade reembolsável apresentaram aumento significativo. A média anual, que era de cerca de R$ 300 milhões, subiu para R$ 10,4 bilhões em 2025. Segundo a pasta, o orçamento para financiamentos em 2026 é de R$ 27 bilhões. O ministério destacou que cabe ao BNDES definir os critérios de avaliação das propostas, inclusive os valores máximo e mínimo das operações diretas e indiretas.
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