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Fundos estruturados salvam o ano do setor, que capta R$ 88 bi

Valor Econômico – Os fundos de investimentos encerraram 2025 com captação líquida de R$ 88,4 bilhões, um decréscimo de quase 40% em relação aos R$ 145,5 bilhões de 2024. Foi o rol de estruturados que salvou o ano, porque nos portfólios líquidos os resgates foram de R$ 38,4 bilhões, em mais um período de sangria para multimercados, com saídas de R$ 58,9 bilhões, e para carteiras de ações (-R$ 54,5 bilhões), apesar do bom desempenho da bolsa e de ativos de risco.

A previdência, que costuma ter nos últimos meses de cada exercício aportes extraordinários, desta vez não escapou e registrou perdas líquidas de R$ 32,2 bilhões. A renda fixa equilibrou um pouco a conta, com ingresso de R$ 84,3 bilhões. Os ETFs (fundos de índices negociados em bolsa) também atraíram dinheiro novo, com R$ 22,9 bilhões.

No universo dos estruturados, houve captação líquida de R$ 57,6 bilhões para os fundos de recebíveis (FIDC) e de R$ 60,1 bilhões nos que compram participações em empresas (FIP, os “private equity” e “venture capital”). Os portfólios dedicados ao agronegócio atraíram R$ 9,1 bilhões.

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O patrimônio da indústria chegou a R$ 10,7 trilhões ao fim de dezembro, um incremento de 14,6% no ano, pouco acima do CDI médio no período, de 14,3%. Os dados são do último relatório diário da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) de 2025.

Quando se olha o recorte das diversas categorias de fundos, foi a renda fixa duração livre a campeã de captação no ano, atraindo R$ 160,0 bilhões. Já os de duração baixa, indexados e simples perderam no conjunto R$ 109,8 bilhões, denotando necessidade de liquidez dos investidores.

Dois fenômenos ganharam força ao longo de 2025: uma captação expressiva para as carteiras que carregam debêntures de infraestrutura, diante da ameaça de taxação dos títulos com isenção fiscal, além de um fluxo para os fundos de crédito estruturado, por causa de spreads mais apertados nas carteiras de menor risco, descreve Daniel Pettine, gestor de soluções de investimentos da Bradesco Asset Management.

“Houve uma corrida grande na segunda metade do ano, pois havia dúvida se [os isentos] seriam tributados a partir de 2026”, diz. “E os FIDCs, com as últimas mudanças regulatórias, se habilitaram para não incidência do ‘come-cotas’ [imposto semestral que passou a incidir em fundos fechados de gestão patrimonial]. Em contrapartida, quem deu ‘funding’ a isso foram principalmente os multimercados [que sofreram resgates].”

De uma amostra de cerca de 200 fundos de crédito que a equipe de alocação da Bradesco Asset acompanha, sendo quase 50 de infraestrutura, o patrimônio cresceu 50% em 2025, a R$ 200 bilhões. “Foi de longe o segmento que mais cresceu”, diz Pettine. Já nas carteiras de ações ativas monitoradas, houve uma saída equivalente a quase 20% do estoque, enquanto nos multimercados a drenagem foi de 30%. “Foram os maiores perdedores do ano e, do ponto de vista de rentabilidade, ficaram devendo, principalmente os multimercados macro.”

Pelo consolidado da Anbima, os fundos macro, que têm as estratégias montadas a partir da leitura do ambiente macroeconômico, tiveram, em média, ganhos de 13,6%, abaixo do CDI, enquanto os multimercados livre ganharam alguns pontos acima, com valorização de 15,3%. Nessa caixa estão uma parte dos portfólios com viés macro. Já os “long short” neutro e direcional, que fazem arbitragem de ações, tiveram altas de 21,9% e 21,5%, respectivamente, na média.

Os fundos de ações índice ativo ganharam 35,7% em média, e os setoriais tiveram valorização de 69,3%. Na renda fixa, o melhor desempenho foi das carteiras de renda fixa de curto prazo com crédito grau de investimento, com 14,3%, empatando com o CDI.

A perspectiva de redução da taxa básica de juros, dos 15% ao ano atuais, pode ser insuficiente para tirar o investidor das classes mais conservadoras, observa Pettine, porque a Selic permanecerá elevada, caindo de 1 a 2 pontos percentuais até dezembro.

“Vai ser claramente um ano de muita volatilidade e incerteza”, diz, referindo-se à sucessão presidencial que vai esquentar a partir do segundo semestre, das dúvidas sobre o equilíbrio das contas públicas a depender de quem assuma o Planalto, além de um componente global com o comportamento imprevisível do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na sua política internacional. Quando se combina tudo isso com um cenário de juro muito alto, “ainda deixa a renda fixa muito atrativa”.

Apesar de os níveis de spread [no crédito] e de carrego estarem apertados, ele imagina que a tendência é o investidor se mover com cautela até ter mais clareza. “A menos que tenhamos notícias muito diferentes, ainda vamos ver pouco fluxo para os multimercados, principalmente, e para os fundos de ‘equity’ [ações]”, diz Pettine.

A recomendação é, contudo, estar nas classes mais arriscadas porque quando o rali vem, sem tal exposição, o investidor fica para trás. “É importante aproveitar os benefícios [dos isentos], mas não perder de vista a diversificação a custas de deixar escapar boas oportunidades.”

Ele acrescenta que, na alocação que faz em outros fundos, a Bradesco Asset aumentou marginalmente o risco. “Não ficar investido é uma escolha que pode cobrar o seu preço no momento de ajuste das placas tectônicas. Os ralis em bolsa são muito rápidos, e só quem estiver posicionado vai pegar.”

Nos últimos anos houve sobrealocação em renda fixa no Brasil e, se houver alguma revisão da política econômica para uma maior disciplina de gastos, os resultados das carteiras vão ser menos vistosos para quem não se mexer, segundo Rogério Freitas, chefe de investimentos do ASA. “Uma política fiscal que leve à mudança do juro real vai desequilibrar muito os portfólios. Se o investidor realocar em multimercados e fundos de ações, vai ter um fluxo relevante para a bolsa e uma grande mudança no asset allocation.”

Com muitos ativos de dívida corporativa negociados com taxas abaixo do título soberano, “há, naturalmente, uma distorção que em algum momento será corrigida”, observa Otávio Vieira, chefe de crédito privado da gestora de patrimônio Est. Essa compressão de prêmios é que levou o investidor para os FIDCs, que ainda entregam algo entre 3% e 4% acima do CDI.

“Com o come-cotas [em multimercados fechados], houve uma criação natural de FIDCs. As tesourarias de grandes bancos passaram a comprar cotas porque consomem menos Basileia [o capital regulatório em relação aos ativos]”, diz Vieira.

O gestor não vê grandes problemas na amplificação dessas carteiras no mercado, que em dezembro atingiram R$ 733,9 bilhões, alta de 15,9%. Vieira acha que vai demorar para os multimercados atraírem a atenção do investidor. “Está todo mundo cansado, a classe não vale o que cobra, de 2 com 20 [de taxa de administração e performance], não entrega e os resultados oscilam muito.”

Marco Bismarchi. gestor de portfólios da TAG Investimentos, diz gostar do segmento de alternativos e que ao longo de 2025 fez muita alocação em fundos de situações especiais, em ativos judiciais e de reestruturação de dívida. A gestora de fortunas colocou de pé o terceiro FIP que compra cotas de carteiras dedicadas a tecnologia no mercado internacional. O plano é captar algo entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões num portfólio de dez anos, que mescla companhias em estágio inicial com aquelas já na fase pré-IPO. “Essa história inteligência artificial está só no começo e vai ser transformadora para os produtos das empresas quanto mais aplicabilidade a tecnologia tenha nos próximos anos.”

Fonte: https://valor.globo.com/financas/noticia/2026/01/08/fundos-estruturados-salvam-o-ano-do-setor-que-capta-r-88-bi.ghtml

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