Estadão – Benjamin Steinbruch, dono da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), é conhecido no mundo empresarial como alguém que não gosta de vender nada do que tem. Muito pelo contrário: é um comprador nato. Tanto que, só para exemplificar os últimos cinco anos, ele realizou aquisições da ordem de R$ 10 bilhões. Desde 2021, comprou fábricas de cimento, ativos de energia e uma empresa de logística, a Tora.
Esse cenário se inverteu. Agora, pressionado por uma dívida gigante, Steinbruch colocou à venda as mesmas fábricas de cimento que adquiriu anos atrás e participações minoritárias nos negócios de infraestrutura que tem e avalia ainda trazer um sócio para a área de siderurgia.
O objetivo é arrecadar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões. Esses recursos serão usados para abater metade da dívida líquida que tinha em 30 de setembro, de R$ 37,5 bilhões, e que mostrava sinais de subir mais.
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Na tentativa de estancar o crescimento da dívida, e sob pressão de investidores, no início de 2025 a CSN vendeu quase 11% da sua joia da coroa, a produtora de minério de ferro CSN Mineração (CMIN), por R$ 4,4 bilhões, a um dos sócios. Não foi suficiente. Quase no apagar das luzes do ano, desfez-se de parcela expressiva de ações da companhia de ferrovias MRS Logística para a própria CMIN por R$ 3,35 bilhões.
A alavancagem financeira da CSN passou a subir, trimestre a trimestre, desde o início de 2024, chegando no fim de setembro passado a 3,14 vezes na relação dívida líquida sobre o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês).
A gota d’água da situação financeira veio em novembro, quando a agência de classificação de risco S&P Global Ratings rebaixou os ratings da companhia de ‘brAA+’ para ‘brAA’ e os colocou em observação (CreditWatch negativo) por alavancagem elevada. O rebaixamento atingiu também a mineradora CMIN.
Em seu relatório, a S&P afirmava que a solução para a crise da empresa só viria com mais venda de ativos e outras iniciativas. Dizia que Steinbruch teria de entregar bem mais do que vinha fazendo.
Nesta quinta-feira, 15, pela manhã, o alto escalão da CSN reuniu os analistas de investimento de bancos para informar seu plano de “atualização estratégica do grupo CSN”.
Em síntese, disse que tinha contratado assessores financeiros para vender o controle da CSN Cimentos, participações em duas holdings (uma no Nordeste e outra no Sudeste) reunindo empresas da área de infraestrutura, como ferrovias, terminais de minério e carvão, e de contêineres e três ferrovias.
Informou ainda que avalia encontrar um sócio estratégico para a divisão de aço do grupo, que traga tecnologia. Porém, a grande aposta para arrecadar a maior parte de até R$ 18 bilhões é na venda do controle da cimenteira, segunda maior fabricante do País, atrás da Votorantim Cimentos. Com capacidade instalada de 17 milhões de toneladas por ano, a empresa gerou Ebitda anualizado, até o fim de setembro, de R$ 1,3 bilhão.
A companhia vem operando no patamar de 13,5 milhões de toneladas de produção de cimento por ano, além de concreto e calcário agrícola. A cimenteira, destacou a CSN, pode destravar crescimento com três novos projetos e uma expansão, que podem adicionar no futuro 14 milhões de toneladas à capacidade atual. Por isso, espera-se dessa alienação obter um montante líquido de pelo menos R$ 10 bilhões, conforme pessoa do setor financeiro. A dívida da Cimentos é de R$ 3 bilhões.
Por se tratar de venda de controle, a expectativa é de que o negócio não seja tão complicado de fechar, principalmente se for um comprador estrangeiro. Uma companhia chinesa, por exemplo. A avaliação do órgão antitruste, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), seria mais rápida.
Segundo operadores do setor financeiro que acompanham o assunto de perto, a CSN conta com assessoria do Morgan Stanley para esse processo de venda. O banco trabalhou com a siderúrgica em 2024 no processo de venda do controle da InterCement pelo grupo Mover, negócio que acabou não se concretizando.
Marco Rabello, diretor executivo de Finanças e RI, disse durante a apresentação do plano estratégico que, com a desalavancagem financeira, a meta é dobrar o Ebitda da CSN em oito anos.
O objetivo, com as alienações de ativos, é atingir uma alavancagem sustentável em torno de 1 vez a relação dívida líquida/Ebitda no longo prazo. Para isso, conta-se com aceleração de projetos no negócio de mineração e em outras áreas, como a de infraestrutura.
“A mineradora, sétima maior exportadora de minério de ferro do mundo, será a principal avenida de crescimento do grupo”, afirmou Rabello. O foco da CSN será também nos ativos de infraestrutura e nos de energia, que têm margens de ganho de 50% e 30%.
Para o pacote de ativos de infraestrutura do bloco Sudeste (quatro ativos — participação na MRS, Tecar, Tecon e Tora), a previsão é vender 30% da holding. Porém, no cimento, a depender das propostas que serão negociadas a partir de agora, a CSN está disposta a ser minoritária, mas poderá vender 100% das ações e sair totalmente desse negócio.
Segundo o executivo, as operações para venda de cimento e das fatias em infraestrutura estão previstas para assinatura dos contratos com os investidores no terceiro ou no quarto trimestres, com dinheiro entrando no caixa até fim do ano ou no primeiro trimestre de 2027.
Na apresentação, os executivos da CSN informaram que já apareceram grupos interessados tanto na cimenteira quanto nos ativos de infraestrutura. Cimenteiras como Huaxin e Sinoma International, da China, seriam potenciais candidatas, apurou o Estadão com pessoas do setor. Para a infraestrutura, interlocutores citam o GIC, fundo soberano de Cingapura e o australiano Macquarie.
O mercado de capitais parece não ter se impressionado com o anúncio da CSN, embora tenha visto como uma iniciativa boa. Recebeu o plano com algum ceticismo — no início do dia, o papel chegou a operar em alta de mais de 2,7%, mas durante a teleconferência passou a cair e negociava em queda de 3,6% no fim da tarde, a R$ 9,90.
Os argumentos de Steinbruch
O presidente da CSN, Benjamin Steinbruch, afirmou que no momento a prioridade é reduzir a alavancagem do grupo. O empresário ressaltou que os motivos para essa decisão (de venda de ativos e reestruturação da dívida) são o contexto econômico brasileiro de juros altos, que qualificou como estratosféricos, e a entrada desenfreada de produtos estrangeiros no País, caso do aço, que afeta muito a CSN.
“O momento econômico é rentista e beneficia quem não se compromete com investimento, crescimento e emprego”, afirmou. Ele disse que a companhia insistiu, talvez, até mais do que deveria em sua estratégia e que agora deve se adequar.
“Apesar de termos certeza da melhora em 2026, esperar mais não faz sentido. Vamos resolver definitivamente a estrutura de capital do grupo CSN. Nunca nos comprometemos como agora, de forma transparente, objetiva e pragmática”, disse o empresário.
Em sua visão, ao longo dos anos, a companhia acumulou ativos sem ter empresas ruins em seu portfólio. Para ele, a venda do controle da CSN Cimentos, que anunciou que terá seu processo iniciado ainda este mês, resolveria sozinha o endividamento. “Veremos o que fazer com as sobras (do valor da transação)”, afirmou.
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