Estadão – O trem que ligará os terminais do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, à CPTM deveria ter sido aberto à população em 18 de fevereiro de 2024, segundo o contrato. Desde dezembro em fase de testes, o novo modal transporta funcionários de Cumbica e das companhias aéreas, mas ainda não há data para a inauguração oficial.
Segundo o consórcio AeroGRU, encarregado da construção e da operação, a abertura ao público geral será nos primeiros meses de 2026. “Existe um rito e estamos na etapa final. Isso não deve passar de três a quatro meses”, afirmou ao Estadão Eduardo Chrysostomo, diretor de Operações do consórcio, no último dia 8.
“Assim que a data exata for definida, ela será comunicada oficialmente”, acrescenta o Aerogru.
As notícias estão em todo lugar. Reportagens e entrevistas exclusivas sobre o setor ferroviário, só na RF — desde 1940.
Por R$ 8,42/mês — parcele em 12x sem juros.
Mas o que falta para a operação completa? Em comunicações com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e em explicações para a reportagem, o consórcio atribui o atraso nessa fase final da implementação a problemas com uma fornecedora e à complexidade do processo de obtenção do certificado de segurança (leia mais abaixo). Destaca ainda o fato de o modelo ser diferente de outros já adotados no Brasil, o que exige um novo rito de testes e certificações.
O AeroGRU também aponta, em nota, que os testes mostram “plena capacidade técnica para a entrega e operação completa.” Desde 1º de outubro, houve mais de 15 mil simulações de desempenho e segurança, incluindo viagens sem passageiros.
A GRU Airport, concessionária que administra o aeroporto e contratou o AeroGRU, afirma acompanhar a implantação e prezar pela segurança. O Ministério de Portos e Aeroportos diz que a Anac é quem fiscaliza o contrato.
A agência, por sua vez, afirma que abriu, em maio de 2024, um processo para avaliar o atraso na entrega. “Esse processo, com direito ao contraditório e à ampla defesa, pode levar à aplicação de multa, cujo valor é definido conforme a duração total do atraso”, informa.
Desde 2012, a GRU Aiport tem manifestado a intenção de ter um sistema de transporte entre os terminais, hoje feito por ônibus gratuito. As obras, porém, só começaram dez anos depois. O custo total do aeromóvel é estimado em R$ 310 milhões, dividido entre o governo federal e a iniciativa privada.
Prazos descumpridos
Nos últimos dois anos, o prazo de inauguração vem sendo adiado sucessivas vezes. Mudou de fevereiro para outubro para 2024, depois para fevereiro do ano seguinte e, mais tarde, para agosto de 2025.
Em reunião com a Anac em 28 de novembro do ano passado, a AeroGRU estimava que, em 16 de janeiro deste ano, a população já poderia usar o trem, ainda que com limitações. Ou seja, a operação teria início ainda nas férias de verão, quando o aeroporto fica mais movimentado. A previsão, porém, não se concretizou outra vez.
Esse prazo foi informado pelo consórcio à agência federal de forma verbal, segundo documentos de relatório de reuniões entre a Anac e o consórcio Aerogru obtidos pelo Estadão.
Em 15 de dezembro, o consórcio afirmou que “o cronograma encontra-se em fase final de consolidação”. Além disso, atribuiu a demora a ajustes nos negócios com uma fornecedora de motores (Innomotics).
“Essas tratativas envolvem aspectos técnicos e comerciais indispensáveis para que o cronograma reflita, com segurança e aderência ao contrato, todas as interfaces necessárias, evitando reprogramações posteriores e assegurando que a versão apresentada esteja devidamente alinhada com as condições técnicas e operacionais envolvidas”, escreveu a Aerogru em documento anexado ao processo na Anac.
Em nota à reportagem, a Innomotics afirmou trabalhar para cumprir os prazos, de forma a garantir segurança e aderência ao contrato. “Dentre diversos fornecedores, o escopo da Innomotics se limita aos equipamentos elétricos e ao sistema de operação autônomo (sem piloto), este dependente de outros sistemas e recursos não pertencentes ao escopo da empresa.”
Em relatório de 6 de janeiro, a Anac, responsável por fiscalizar a obra, apontou que, naquele momento, não havia “elementos suficientes que permitam considerar confiável qualquer prazo de conclusão, nem elementos concretos que indiquem capacidade técnica suficiente para a entrega”.
No dia 15, um trem precisou interromper a operação devido ao alto volume de chuvas em Guarulhos. Funcionários de Cumbica e das empresas áreas que estavam a bordo precisaram desembarcar sobre os trilhos.
Nesta fase de testes, o aeromóvel funciona das 17h30 à meia-noite, com apenas um trem e intervalos de 20 minutos. O percurso completo (da CPTM até o Terminal 3) leva cerca de 10 minutos.
A promessa é de que o trajeto leve apenas seis minutos quando o sistema estiver 100% em funcionamento, com dois trens simultâneos.
Por ora, o sistema funciona com apenas um veículo (o de cor verde). A previsão é começar a utilizar o segundo trem (laranja) só em abril, porque o equipamento ainda está em testes sem transporte de passageiros.
Ao Estadão, o diretor de Operações do consórcio AeroGRU, Eduardo Chrysostomo, disse no último dia 8 que a demora decorre do processo de certificação internacional de segurança. “Estamos aguardando a finalização dessa etapa para que ele possa, então, ter a data de inauguração definida. O processo é feito por duas empresas internacionais e independentes.”
Ele descreve o certificado Safety Integrity Level 4 (SIL-4) como o nível máximo mundial de segurança. Segundo ele, essa é uma exigência do contrato e uma garantia de que o transporte é seguro e tem mecanismos suficientes para evitar desastres.
Se houver risco de colisão, o veículo não depende de apenas um freio. Há diferentes sistemas de parada independentes, controlados por computadores distintos, com sensores que travam as rodas automaticamente em milissegundos. Isso ocorre para que, se houver falha em um dispositivo de proteção, outro garanta o funcionamento correto.
“É a mesma certificação de um submarino, um avião ou uma usina nuclear”, compara o diretor de Operações.
O trem do Aeroporto de Guarulhos utiliza a tecnologia Automated People Mover (APM). “É o primeiro people mover que vai ter a certificação SIL-4 no mundo”, afirma Diego Abs, gerente de tecnologia da Aerom, uma das empresas do consórcio AeroGRU. “Não havia experiência prévia que mostrasse o prazo que isso demandaria. Quando fizeram o contrato, não consideraram esse tempo.”
Especialistas apontam que a certificação SIL-4, de fato, é demorada. “Tudo precisa ser testado várias vezes, comprovado e revisado por equipes independentes”, diz o presidente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Metrô, Luis Kolle. “O processo exige qualidade e um controle tão rigoroso que poucas equipes no mundo conseguem manter. Por isso, é normal que tudo leve mais tempo.”
Kolle afirma que quase nenhum transporte no Brasil chega a esse padrão. O engenheiro indica que a certificação SIL-4 leva em torno de um a três anos, dependendo do quanto o projeto está pronto e da qualidade dos documentos apresentados.
O consórcio AeroGRU afirma que seguirá em operação parcial até cumprir todas as etapas finais de certificação — concluindo a entrega total ainda neste ano. “Reforçamos que não há pendências que comprometam a entrega do sistema.”
Espera de anos
“Entre anunciar a ideia e viabilizar o projeto existe um caminho longo, que depende de atos formais, análises de viabilidade e definições regulatórias”, afirma Ana Patrizia, diretora-presidente da Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANP Trilhos).
“O projeto ficou condicionado por vários anos às discussões entre a concessionária, o governo federal e os órgãos de controle sobre modelos de execução, fontes de financiamento e estrutura contratual. O Tribunal de Contas da União chegou a suspender uma versão da proposta, o que só permitiu o avanço efetivo anos depois”, continua Ana.
As obras do aeromóvel começaram em janeiro de 2022 e, desde maio de 2023, a Anac alerta para atrasos na construção.
A GRU Airport, concessionária que gere o aeroporto, é a responsável por responder à Anac sobre o serviço de transporte e a toda a infraestrutura aeroportuária. Em novembro de 2024, a concessionária informou que o aeromóvel estaria pronto até agosto de 2025. Naquela época, a agência reguladora já apontava que a certificação era um dos pontos críticos.
Em outubro, a agência emitiu um aviso de condição irregular contra a GRU Airport por deixar de atender às exigências e recomendações da agência nos prazos estipulados, reiteradamente. A autarquia ainda apontou que “os problemas enfrentados são de magnitude maior que aqueles informados pela concessionária”.
À Anac, a GRU Airport relatou, naquela época, problemas para conseguir informações do consórcio contratado.
O AeroGRU, responsável pelas obras, declarou, em nota, que “todas as etapas vêm sendo executadas de forma coordenada e transparente entre todas as partes”.
Veja linha cronológica:
- 2012 — GRU Airport assume concessão do Aeroporto de Guarulhos e anuncia intenção de implantar um sistema de transporte sobre trilhos entre os três terminais de embarque.
- 17 de julho de 2019 —Governo federal formaliza à Anac , junto com a GRU Airport, o pedido de liberação para construção do aeromóvel.
- 8 de setembro de 2021 — GRU Airport assina contrato com o governo federal para construir um trem ligando os três terminais do aeroporto à CPTM. Para isso, a concessionária contrata o consórcio AeroGRU.
- 18 de maio de 2023 — Em visita técnica, Anac observa atrasos na implantação do aeromóvel.
- 26 de outubro de 2023 — Anac alerta que AeroGRU não deve concluir o aeromóvel a tempo.
- 18 de fevereiro de 2024 — Prazo contratual para entrega do aeromóvel acaba, sem conclusão de obra. GRU Airport informa que AeroGRU prevê terminar a obra até outubro de 2024.
- 27 setembro de 2024 — GRU Airport informa que não vai conseguir entregar projeto e pede adiamento para fevereiro de 2025.
- Janeiro de 2025 — GRU Airport pede novo adiamento e informa que AeroGRU pretende concluir projeto até 31 de agosto de 2025.
- 29 de agosto de 2025 — GRU Airport diz ser necessário novo “ajuste no cronograma”.
- 1º de setembro de 2025 — Anac afirma que “não há elementos técnicos que garantam prazo de entrega ou mesmo que o sistema é possível de ser entregue na forma como originalmente contratado.”
- 1º de outubro de 2025 — AeroGRU começa a testar aeromóvel sem passageiros.
- 28 de novembro de 2025 — Reunião presencial entre Anac, GRU Airport e AeroGRU, em que são informados verbalmente prazos de entrega.
- 3 de dezembro de 2025 — Aeromóvel começa a operar parcialmente em caráter de testes, restrito a trabalhadores do aeroporto e de companhias aéreas, mediante apresentação de crachá. Prazo informado em 28 de novembro pela AeroGRU para esta etapa é cumprido.
- 16 de janeiro de 2026 — Prazo informado verbalmente pela AeroGRU à Anac para a abertura do aeromóvel ao público geral não foi cumprido
- Até 31 de março de 2026 — Prazo informado pela AeroGRU ao Estadão para a abertura do aeromóvel ao público geral, ainda que em operação parcial.
- 16 de abril de 2026 — Prazo informado verbalmente pela AeroGRU à Anac para início da operação do 2º veículo (de cor laranja).
- 25 de junho de 2026 — Previsão informada verbalmente pela AeroGRU à Anac para início da operação das 5h à meia-noite.
- 10 de agosto de 2026 — Prazo informado verbalmente pela AeroGRU à Anac para entrega completa do aeromóvel com certificação e operação plena.
VÁ ALÉM DA MANCHETE
O setor ferroviário é complexo e as notícias do dia a dia são apenas a ponta do iceberg. Para entender o cenário completo, é preciso de contexto e a visão de quem cobre o setor desde 1940.
A cada edição, a Revista Ferroviária traz reportagens aprofundadas, estudos de mercado e entrevistas exclusivas sobre os temas que realmente importam: de novos VLTs e projetos privados a desafios de manutenção, o futuro da tecnologia e muito mais.
Seja o primeiro a comentar