Valor Econômico – A criação de um Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis no Brasil é uma oportunidade estratégica para alinhar a política energética do país à economia do século XXI. Com decisões baseadas em evidências, transparência e visão de longo prazo é possível realizar uma transição justa e planejada, aproveitando vocações nacionais, vantagens competitivas em combustíveis renováveis, gerando empregos e abrindo caminho para o crescimento sustentável, nos seus três pilares (social, ambiental e econômico), além de cumprir compromissos climáticos.
A urgência desse debate se intensifica diante da crise global do petróleo, marcada por volatilidade de preços, tensões geopolíticas e incertezas sobre oferta e demanda. Esse cenário reforça os riscos de dependência de combustíveis fósseis e evidencia a necessidade de países como o Brasil focarem em transição energética. Ao investir em fontes renováveis e em um Mapa do Caminho claro, o país pode reduzir sua exposição a choques externos, fortalecer sua segurança energética e aproveitar oportunidades econômicas em um mundo que caminha, embora de forma desigual, para a descarbonização.
Apesar disso, a elaboração do Mapa do Caminho brasileiro está estagnada há meses. Em dezembro de 2025, após a COP30, cujo documento final não mencionou transição energética, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que as diretrizes de um Mapa do Caminho nacional fossem elaboradas em 60 dias pelos ministérios de Minas e Energia (MME), Casa Civil, Fazenda e Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O prazo terminou em 6 de fevereiro, mas o documento ainda não foi concluído, tampouco há definição de uma nova data para entrega do mapa.
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O MME tem argumentado que o Plano Nacional de Transição Energética (Plante), em elaboração desde 2024 e que propõe medidas de mitigação de impactos e diversificação energética, é suficiente para o objetivo. No entanto, o Plante não prevê a eliminação gradual dos combustíveis fósseis nem se compromete a interromper perfurações exploratórias na Foz do Amazonas.
Essa lacuna mostra que o desafio vai além de simplesmente ampliar a participação de renováveis na matriz energética brasileira. É preciso definir um objetivo inegociável: acabar com os combustíveis fósseis. O Mapa do Caminho precisa ter um ponto de chegada claro, e esse ponto é a eliminação total. O foco do Brasil deve ser a transição completa para um futuro sem fósseis.
No plano internacional, a presidência brasileira da COP30 avança e abriu consulta pública para apoiar a construção do roteiro global, que recebeu contribuições até 31 de março. Em uma iniciativa paralela e complementar, a Colômbia e a Holanda organizaram a 1ª Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, que será realizada na cidade de Santa Marta, no caribe colombiano, entre 24 e 29 de abril.
Até o momento, 45 países já confirmaram a participação na cúpula de Santa Marta, onde, em vez de negociações, o foco será a implementação. O objetivo é produzir orientações práticas que possam acelerar uma transição para o fim dos combustíveis fósseis, oferecendo uma contribuição decisiva para o processo de construção tanto do roteiro internacional quanto do nacional.
O motivo pelo qual esses roteiros são importantes para o Brasil e para o mundo agora são os seguintes: primeiro, porque ele pode detalhar melhor as particularidades do país, oferecendo diretrizes claras para que cada setor organize seus investimentos na transição energética. Um cronograma definido facilita a adaptação de todos: ao estabelecer, por exemplo, metas para o aumento do percentual de biocombustíveis no setor de transportes, as empresas conseguem se planejar sem comprometer a competitividade.
Ao mesmo tempo em que estabelece a meta de zerar as emissões de combustíveis fósseis, o Mapa do Caminho nacional pode impulsionar vocações estratégicas, como a vantagem competitiva do país em energias renováveis. O Brasil possui um dos maiores potenciais solares do mundo, amplo espaço para expansão da energia eólica e diversas opções de biomassa renovável – do etanol ao bioquerosene de macaúba para a aviação.
Essa mudança rumo à sustentabilidade, associada à nova política de industrialização do país, criaria mais empregos e maior geração de renda do que o setor de combustíveis fósseis, cujas vagas são concentradas e dependem de cadeias externas. Um estudo coordenado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e pelo CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), apresentado na reunião do G20 em 2024, indica que cada mil toneladas de gasolina e óleo diesel produzem 10,3 empregos, enquanto a mesma quantidade de etanol e biodiesel gera 60,1 – ou seja, quase seis vezes mais. A renda média mensal por tonelada também é mais alta: R$ 199,50 para biocombustíveis, contra R$ 49,60 para fósseis.
Na produção de eletricidade, o Brasil conta com uma das matrizes mais limpas do mundo, mas isso não significa que o problema está resolvido. O Mapa do Caminho deve apontar alternativas para substituir termelétricas fósseis, que poluem mais e encarecem o preço da energia para o consumidor final. Nos últimos dez anos, avanços em tecnologias de armazenamento de energia renovável em baterias tornaram economicamente desnecessária a geração com combustíveis fósseis.
Um combustível eficiente, que remunera mais o trabalhador, polui menos e favorece o acesso à energia das populações vulnerabilizadas é o que precisamos para um desenvolvimento verdadeiramente sustentável com justiça social.
No setor de transportes, a eletrificação avança lentamente, impulsionada por investimentos da China, enquanto o Brasil registra crescimento em automóveis e ônibus elétricos, embora com custo inicial mais alto que os movidos a gasolina e diesel. Empresas também investem em caminhões a biometano e biodiesel, criando novos modelos de negócios.
Embora os combustíveis renováveis sejam, geralmente, mais caros, projeta-se que em 10 a 15 anos eles se tornarão competitivos, à medida que investimentos e avanços tecnológicos se disseminam. Por outro lado, as soluções renováveis já fazem sentido quando levamos em conta os custos indiretos dos combustíveis fósseis na saúde e nos impactos negativos das mudanças climáticas.
Mas o argumento mais forte hoje não é o preço futuro: é a instabilidade geopolítica. Muitos combustíveis fósseis estão no centro das principais crises internacionais, causando volatilidade nos preços e riscos de fornecimento para o Brasil e para o mundo – mesmo que nossa produção interna seja alta. Tanto que essa insegurança tem acelerado a transição energética em outros países.
O impacto disso é imediato. No dia 6 de abril, o governo federal anunciou um pacote de R$ 31 bilhões para tentar frear a alta dos combustíveis, motivada pela guerra no Oriente Médio – uma crise em outro continente, mas que repercute diretamente no bolso dos brasileiros. Se o país tivesse investido mais cedo em renováveis, grande parte desse esforço financeiro poderia ter sido evitado.
Para viabilizar essa transição, o primeiro passo é interromper a exploração de petróleo em novas áreas e estabelecer cronogramas para reduzir investimentos em reservas existentes, incluindo o pré-sal, dado que as reservas atuais são suficientes até a conclusão da transição.
A falta de ambição e visão de longo prazo do MME é evidente: o ministério defende uma queda gradual do percentual de combustíveis fósseis, ignorando que combater as mudanças climáticas exige redução absoluta da produção e do consumo.
Essa perspectiva foi reforçada pelo próprio presidente, que solicitou a criação de um fundo de transição energética com recursos do petróleo. O problema é acreditar que novos recursos do petróleo seriam indispensáveis para a transição: o Brasil já produz o suficiente e não faz sentido explorar novos poços, que demorariam mais de uma década para gerar renda, para financiar uma transição parcial e tardia.
Os recursos para a transição já existem. O que falta é uma política clara, com prazos definidos, permitindo à iniciativa privada planejar a produção de energia renovável e atender à demanda. Não é necessário criar fundos ligados a novas explorações: a receita atual do petróleo é suficiente.
O Brasil já possui indústria de energia renovável consolidada, conhecimento técnico, mão de obra especializada e vasto potencial, incluindo oportunidades futuras como hidrogênio verde. Em contrapartida, seu petróleo não é mais barato nem menos poluente que o do Oriente Médio, oferecendo pouca vantagem competitiva global.
Elaborar um Mapa do Caminho nacional possibilitaria ao país assumir a liderança no processo global, influenciando a construção do roteiro internacional. A atuação do governo federal é central, ampliando competitividade e credibilidade do Brasil.
O Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis não é apenas uma pauta climática: é uma decisão econômica estratégica. Um Mapa do Caminho justo e inclusivo, organizando a transição energética no país, reduziria riscos no curto prazo, ampliaria oportunidades de crescimento sustentável no longo prazo e representaria a escolha econômica mais racional para o Brasil.
Mauricio Voivodic é diretor executivo do WWF-Brasil.
Ricardo Fujii é especialista em conservação do WWF-Brasil.
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