Valor Econômico – O setor ferroviário poderá receber R$ 140 bilhões em investimentos se for concretizado o plano do governo federal de leiloar oito projetos. São cerca de 9 mil quilômetros (km), considerando o Corredor Minas-Rio, a Malha Oeste (de Mato Grosso a São Paulo), a Ferrogrão, o Anel Ferroviário do Sudeste (EF-118), a Malha Sul (três trechos na região Sul) e o Corredor Leste-Oeste (Fico-Fiol).
No entanto, o cronograma, que previa os oito leilões neste ano, deve sofrer atrasos devido a questões técnicas, financeiras, jurídicas e ambientais. A perspectiva inicial era fazer o primeiro leilão, do Corredor Minas-Rio, em abril — ele agora está previsto para agosto —, e os três últimos, da Malha Sul, em dezembro. O governo vem conversando com investidores nacionais e internacionais e, segundo o Ministério dos Transportes (MT), a EF-118 é o projeto mais avançado.
O projeto, atualmente em análise pelo Tribunal de Contas da União (TCU), segue com perspectiva de ser leiloado no primeiro semestre, segundo o ministério. A linha tem cerca de 571 km entre Santa Leopoldina (ES) e Nova Iguaçu (RJ), com conexão ao porto fluminense do Açu.
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Outro projeto que também está previsto para a primeira metade do ano é o Corredor Minas-Rio, com 738 km, ligando Arcos (MG) ao Porto de Angra dos Reis (RJ). No mercado, comenta-se que é mais provável que o leilão aconteça no início do segundo semestre.
“Os demais projetos seguem em diferentes fases de estruturação, com esforços concentrados para cumprimento do cronograma”, informa o MT. “Devem ser licitados ao longo do segundo semestre de 2026”, acrescenta o órgão.
Um aliado importante para o sucesso dos leilões é o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que pretende oferecer financiamento com prazos e carência ampliados para o setor. A instituição também vem desenvolvendo operações como a emissão e a subscrição de debêntures.
“Atualmente, o banco não tem mais subsídio na taxa e opera muito mais em parceria com o mercado de capitais e bancos privados”, destaca Luciana Costa, diretora de infraestrutura, transição energética e mudanças climáticas do banco.
Empresas como Eldorado e Rumo Logística ilustram a iniciativa. No ano passado, a primeira obteve R$ 1,05 bilhão — R$ 1 bilhão em subscrição dos papéis e R$ 50 milhões em financiamento. Os recursos irão para a linha férrea de 86,7 km no Mato Grosso do Sul, ligando a fábrica de celulose da Eldorado em Três Lagoas (MS) ao terminal da companhia em Aparecida do Taboado (MS), onde se conectará à malha da Rumo. Já a Rumo teve R$ 2 bilhões em subscrições de debêntures pelo BNDES para concluir a primeira etapa da Ferrovia do Mato Grosso (FMT).
Para Gustavo Telles, head de novos negócios da consultoria BIP, seria “otimista demais” imaginar que os oito leilões aconteçam neste ano, uma vez que há uma série de etapas institucionais a serem vencidas para viabilizar projetos que exigem elevados volumes de capital. “As garantias do governo são essenciais para que os investidores se interessem”, diz Telles. Da lista de oito projetos, ele aponta o da Ferrogrão (EF-170) — linha de 933 km ligando Sinop (MT) ao porto de Mirituba (PA) — como mais urgente. “A cada safra, vemos grandes ineficiências logísticas, com caminhões esperando dias para embarcar em portos saturados como Santos”, observa Telles.
No entanto, a Ferrogrão, cujo leilão está marcado inicialmente para setembro, sofreu um revés. Em 17 de março, o Tribunal de Contas da União (TCU) — onde a autorização para a concessão tramita desde 2020 — manteve o projeto suspenso devido a problemas financeiros de modelagem. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também pediu revisão dos estudos ambientais. Segundo o MT, “há tratativas” para resolver a questão.
Enquanto os leilões, vistos como fundamentais para ampliar a participação do modal ferroviário no transporte de cargas — hoje de 21% do total, focado em commodities minerais e agrícolas —, não acontecem, o setor privado projeta cerca de R$ 55 bilhões em investimentos, no período 2025-2027.
“Atualmente há três projetos greenfield (que começam do zero) de grande porte em execução”, lembra Davi Barreto, diretor-presidente da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF).
Entre eles estão a já citada Ferrovia do Mato Grosso, a Transnordestina (TLSA), da CSN — que também conta com recursos do BNDES —, e o primeiro trecho, de 383 km, da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico), construído pela Vale como contrapartida pela renovação antecipada da concessão da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM).
A Fico, que ligará a produção de grãos à Ferrovia Norte-Sul e daí até os portos, não será operada pela mineradora, e sim concedida. Está planejada para ter três trechos, somando 1.534 km. A Fico e a Fiol (Ferrovia Oeste-Leste, entre Bahia e Tocantins), que formam o corredor Leste-Oeste, têm previsão de serem leiloadas em agosto, pelo calendário inicial.
Um dos projetos mencionados por Barreto, a ferrovia Transnordestina terá 1,2 mil km em suas fases 1 e 2 e exigirá R$ 15 bilhões de investimentos. A fase 1, com 1.053 km, já está 81% concluída.
“Falta finalizar até a chegada no porto do Pecém”, diz Tufi Daher, diretor de infraestrutura e logística da CSN, controladora da Transnordestina. “A previsão de término e o início de operação comercial da fase 1 será no último trimestre de 2027”, acrescenta.
Já há operação em fase de testes entre Bela Vista do Piauí e Iguatu (CE), transportando grãos e outros itens do agro, em volumes pequenos. Segundo o executivo, a fase 2 começará ainda em 2026, com previsão de término no segundo semestre de 2028.
A capacidade da ferrovia, quando concluída, será de 30 milhões de toneladas anuais. Daher afirma que a empresa não participará do leilão de ferrovias, uma vez que a prioridade é finalizar o projeto nordestino e colocá-lo em operação.
Já a Rumo toca seu principal projeto, que é a primeira fase da Ferrovia de Mato Grosso, com 85% de execução em fevereiro passado. São 162 km de Rondonópolis ao novo terminal de cargas da BR-070, previstos para serem entregues neste ano. A linha terá, no total, cerca de 740 km e ligará Rondonópolis a Lucas do Rio Verde e ainda um ramal para Cuiabá, interligando todo o trajeto ao porto de Santos. A ferrovia vai operar no modelo de autorização ferroviária, pelo qual o ente privado constrói e opera a linha.
De acordo com Natália Marcassa, vice-presidente de regulatório, institucional e comunicação da Rumo, a retomada de uma agenda estruturada de concessões ferroviárias é positiva. “No entanto, é importante que esse movimento venha acompanhado de condições macroeconômicas, estabilidade regulatória, segurança jurídica e modernização da agenda setorial para encorajar os investimentos”, avalia.
A VLI, que opera a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) e o tramo norte da Ferrovia Norte-Sul, se prepara para investir, na primeira, R$ 1,2 bilhão em 2026. A ferrovia, que liga o Centro-Oeste, Minas Gerais e Nordeste a portos do Sudeste, estava, no fim de março, em fase final de negociação para prorrogar sua concessão.
Uma vez fechado o acordo com o governo federal, outros R$ 30 bilhões irão para modernização e aquisição de vagões e locomotivas. De acordo com Fábio Marchiori, CEO da VLI, a empresa avalia continuamente oportunidades. “Considerando que o transporte da cadeia produtiva de grãos possui uma relevância muito grande para nosso portfólio, avançarmos nossos trilhos pelo Mato Grosso pode ser uma das alternativas oferecidas com os projetos anunciados.”
Leandro Patah, coordenador do Centro de Excelência em Logística e Supply Chain da Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta a modelagem econômico-financeira como a maior dificuldade para os oito leilões se realizarem. “Não apenas por complexidade técnica. O ponto central é o risco de demanda, já que ferrovias exigem investimentos iniciais muito elevados e retornos distribuídos ao longo de várias décadas.”
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