Valor Econômico – A ampliação dos investimentos chineses no Brasil, sobretudo em portos e ferrovias, pode ser uma oportunidade de combinar ganhos de competitividade com avanços na agenda ambiental. Em meio ao interesse crescente de empresas chinesas por oportunidades no país, o governo brasileiro afirma ter colocado o tema como prioridade e diz avançar em medidas para reforçar a segurança jurídica e viabilizar investimentos privados no setor. Esse foi o panorama apresentado no painel que examinou as oportunidades de negócios na área de logística no “Summit Valor Brazil-China 2026”.
Na visão de Leonardo Ribeiro, secretário de Transporte Ferroviário do Ministério dos Transportes, além do potencial de transformar a economia brasileira e a relação comercial com a China, as ferrovias são corredores verdes. “Nós exportamos minério, nós exportamos produtos agrícolas e não faz sentido a esses produtos serem transportados para os portos por meio de caminhões.”
Do lado chinês, os participantes reforçaram que a agenda ambiental já se tornou um pré-requisito dos investimentos em infraestrutura, inclusive no exterior. O vice-presidente executivo da Power China, Li Sisheng, afirmou que a atuação da companhia no Brasil tende a incorporar novas tecnologias e modelos de execução, combinando projetos de transporte com soluções energéticas e de menor impacto ambiental. “Tudo dentro de uma direção mais verde, de desenvolvimento mais verde.”
As notícias estão em todo lugar. Reportagens e entrevistas exclusivas sobre o setor ferroviário, só na RF — desde 1940.
Por R$ 8,42/mês — parcele em 12x sem juros.
A orientação é reforçada por mudanças regulatórias que entraram em vigor na China. De acordo com Zhang Jianyu, secretário-geral-adjunto e diretor-chefe de desenvolvimento da Aliança Internacional para o Desenvolvimento Verde do Cinturão e Rota, empresas chinesas passaram a ser obrigadas a cumprir metas mais rígidas de emissões e de divulgação de informações ambientais. Para empresas com ações em bolsa, as regras também se aplicam à atuação no exterior. “Se uma empresa chinesa não tiver bons resultados [em sustentabilidade] no mercado brasileiro, por exemplo, ela vai ter dificuldades de captação de capital aqui dentro da China.”
Segundo Zhang Jianyu, porém, as obrigações não devem ser vistas como uma barreira, e, sim, como uma oportunidade de investimento: “[A preocupação] com o verde não é mais um obstáculo, mas, sim, um combustível para a aceleração dos investimentos”.
No setor portuário, a avaliação de Ding Songbing, gerente-geral e chefe do departamento de estratégia e pesquisa do Shanghai International Port, é que eficiência operacional e sustentabilidade devem caminhar juntas. “A operação dos portos também precisa se adaptar a uma agenda mais verde, combinando automação, digitalização e adaptação a combustíveis mais limpos”, argumentou. Segundo o executivo, a experiência chinesa recente nessa área pode servir de exemplo para o Brasil. “Com automação e digitalização, aumentamos a eficiência do porto de Xangai em 30%, e esse conhecimento pode ser aplicado no Brasil.”
Ribeiro também salientou a importância do setor ferroviário para a cooperação econômica entre os dois países e disse que o governo quer expandir a participação das ferrovias de 20% para 35% na matriz de transportes nacional. Segundo ele, o ministério apresentou oito projetos na área aos chineses e o governo federal pretende lançar três editais no primeiro semestre: “Os projetos de ferrovias estão maduros, com estudos técnicos robustos já concluídos”.
O secretário afirmou que, com o Marco Legal das Ferrovias, hoje há leis, normas e padronizações de contratos que garantem a segurança jurídica dos investimentos no setor. Ele também acenou com a possibilidade de mais garantias do governo. “Nós também temos estratégias para conferir garantias para que esses projetos aconteçam dentro de uma matriz de risco em que o governo vai compartilhar com o setor privado eventuais situações extremas.”
A segurança jurídica é uma preocupação dos chineses. Na opinião de Li Sisheng, “a maior barreira no Brasil é o ambiente jurídico de impostos, que são muito diversificados”. Ele lembrou, porém, que a empresa tem projetos de investimento de US$ 4 bilhões no país, nas áreas de rodovias, ferrovias e energia. Atualmente, a participa de consórcios responsáveis por obras da expansão do metrô de São Paulo e da construção de uma usina fotovoltaica no Ceará. “Nossa empresa quer levar para o Brasil novos modelos, novas tecnologias e novas formas de execução não só para investimentos nessas áreas, mas também em outras áreas da infraestrutura.”
Seja o primeiro a comentar