Extra online – Uma descoberta arqueológica sob o solo da Vila Militar, na Zona Oeste do Rio, pode mudar o que se sabe sobre a origem das ferrovias brasileiras e lançar nova luz sobre o papel da população africana escravizada na construção da infraestrutura do país.
Durante obras no 2º Regimento de Cavalaria, em Deodoro, operários encontraram trilhos enterrados em dois níveis diferentes. A camada mais profunda, segundo pesquisadores, seria anterior à própria Estrada de Ferro Mauá, inaugurada em 1854, considerada oficialmente a primeira ferrovia do Brasil.
O terreno pertence à antiga Fazenda Sapopemba, um engenho fundado no início do século XVII que foi um importante produtor de açúcar no Rio colonial. Hoje, a área está sob administração do Exército Brasileiro.
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De acordo com historiadores e arqueólogos, antes mesmo da chegada das locomotivas à região, o engenho já utilizava um sistema rudimentar de trilhos para transportar a produção agrícola. Os pequenos vagões eram movidos por tração animal e, principalmente, pelo trabalho de pessoas escravizadas.
Vestígios de uma história esquecida
Os arqueólogos identificaram duas fases distintas da ocupação do local. A mais recente está ligada à Fazenda Sapopemba após a chegada da Estrada de Ferro Dom Pedro II, em 1858, quando o engenho passou a contar com um ramal ferroviário próprio.
Já a camada inferior aponta para um período anterior às ferrovias brasileiras, sugerindo que sistemas sobre trilhos já eram utilizados para escoamento de cargas décadas antes da inauguração da linha de Mauá.
Para o escritor e historiador André Luis Mansur, o achado pode “reescrever a história das ferrovias no Brasil”, ao indicar que engenhos fluminenses já empregavam tecnologias semelhantes muito antes da implantação oficial do sistema ferroviário.
A contribuição africana
Além do valor para a história dos transportes, a descoberta reforça a importância da população africana escravizada na formação econômica e tecnológica do país.
O arqueólogo Rodrigo Nogueira Martins, presidente da Casa Cultura África Brasil, afirma que os vestígios representam uma rara evidência material da participação dos escravizados em sistemas logísticos complexos.
— Não estamos falando apenas de vigas de ferro e engenharia rudimentar. Estamos falando das pessoas que construíram e operaram esse sistema. A diáspora africana trouxe conhecimento técnico, formas de organização e capacidade de adaptação que foram fundamentais para o desenvolvimento do Brasil, mas continuam invisibilizadas pela história oficial — afirma.
Segundo ele, o achado ajuda a deslocar a narrativa sobre a escravidão para além do trabalho na lavoura.
— Essas pessoas também atuavam em atividades de engenharia, transporte e logística. Os trilhos mostram uma estrutura sofisticada para a época e revelam uma participação muito mais ampla do que normalmente aparece nos livros de história.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu a relevância da descoberta e determinou a realização de um projeto completo de salvamento arqueológico na área.
Até o momento, porém, os trabalhos de campo ainda não começaram, o que preocupa especialistas.
Para Rodrigo Martins, o atraso coloca em risco informações que ainda permanecem preservadas no subsolo.
— Cada dia sem pesquisa representa uma perda potencial para a memória brasileira. Ali podem existir vestígios do cotidiano, da cultura e das formas de resistência da população africana que viveu naquele engenho.
O arqueólogo lembra que outros patrimônios ligados à história da população negra só foram preservados após intensa mobilização, como o Cemitério dos Pretos Novos, na região portuária do Rio.
Patrimônio ainda escondido
Os especialistas acreditam que novas escavações poderão revelar muito mais do que estruturas ferroviárias.
Objetos de uso cotidiano, vestígios de práticas culturais e religiosas e evidências da convivência entre africanos escravizados e povos indígenas podem estar preservados sob o terreno da antiga Fazenda Sapopemba.
Para eles, a pesquisa representa uma oportunidade de ampliar o conhecimento sobre um período decisivo da história do Rio e contribuir para a valorização da memória afro-brasileira.
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