Folha de S. Paulo – O sumiço —e posterior encontro— de uma ponte ferroviária histórica no interior de Minas Gerais, fabricada há mais de 140 anos na Europa, virou alvo de três investigações iniciadas nesta semana.
A ponte metálica, que estava desativada, faz parte do antigo trecho da Estrada de Ferro Oeste de Minas e desapareceu na região conhecida como rota 58, nas proximidades da rodovia BR-265, na zona rural de Prados, e foi localizada pela polícia em uma unidade do Ibiti Projeto, em Lima Duarte, a cerca de 180 quilômetros de distância. O empreendimento afirmou ter adquirido a estrutura de um comerciante de antiguidades e, segundo a polícia, o valor do negócio foi de R$ 700 mil.
O Ministério Público Estadual mineiro anunciou, nesta sexta-feira (12), a instauração de um inquérito civil para apurar a retirada e o paradeiro da ponte, importada da Inglaterra para a implantação do ramal ferroviário, inaugurado em 1881. Antes, a Polícia Civil de Minas já havia aberto uma investigação sobre o caso, assim como a PF (Polícia Federal).
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Com 20 metros de extensão e 5 metros de largura, a estrutura não tem mais utilização ferroviária há décadas, mas é considerada ponto turístico na cidade mineira de 9.000 habitantes e costumava ser usada por ciclistas que percorrem o trecho.
A Oeste de Minas foi uma companhia ferroviária com vida muito breve. Endividada, ela foi liquidada 19 anos depois da sua criação, em 1900, e adquirida pelo governo federal três anos depois.
Em 1931, foi arrendada pelo governo mineiro e passou a fazer parte da também extinta RMV (Rede Mineira de Viação), onde ficou até 1965, sendo substituída pela Viação Férrea Centro-Oeste.
A estação de Prados foi fechada após o fim da linha férrea em 1984, ano em que já estava sob comando da RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.) —que tinha assumido a gestão nove anos antes.
Conforme a Promotoria, o inquérito busca apurar eventuais danos ao patrimônio cultural, histórico e ambiental decorrentes da remoção da ponte.
Foram pedidas informações à polícia, sobre o andamento das investigações e a localização do bem, à prefeitura e à SPU (Secretaria do Patrimônio da União) em Minas Gerais, sobre a titularidade e o regime jurídico da estrutura.
Investigação policial preliminar indica que a ponte foi retirada do local na primeira semana deste mês. Quem a levou obstruiu a estrada rural com uma montanha de terra para que veículos não se aproximassem.
Marcas de uma retroescavadeira e de outras máquinas agrícolas que podem ter elo com a retirada da ponte foram encontradas no local.
A partir de pistas que surgiram, como uma foto que mostra um caminhão transportando a ponte, a estrutura foi encontrada pela polícia em uma unidade do Ibiti Projeto, em Lima Duarte, na Zona da Mata, às margens do Parque Estadual do Ibitipoca.
De acordo com a polícia, já foram prestados depoimentos e a estrutura histórica será levada de volta ao lugar de origem.
Em nota, o Ibiti Projeto informou que a ponte foi comprada de forma regular de um comerciante de antiguidades, inclusive com emissão de nota fiscal, e que o transporte ocorreu com as autorizações exigidas pelos órgãos competentes.
A direção do projeto disse ainda que foi surpreendida pela origem da passarela e procurou as autoridades para apresentar a documentação e colaborar com a investigação.
O Ministério Público informou que solicitou ao empreendimento a apresentação de documentos que comprovem a aquisição da estrutura, como contratos, notas fiscais, documentos de transporte e identificação dos envolvidos na retirada e no transporte da ponte ferroviária.
Ainda conforme a Promotoria, serão adotadas as medidas necessárias para a proteção do patrimônio, “incluindo a busca pela reparação integral dos danos identificados e a restituição da ponte ao seu local de origem, caso seja juridicamente e tecnicamente viável”.
Segundo a Prefeitura de Prados, a estrutura possui valor histórico para o município e, assim que o sumiço foi detectado, registrou um boletim de ocorrência.
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