Em dez anos, a cidade de Sobral se modernizou, mas o transporte ferroviário ficou preso ao passado, defasado quanto às tecnologias de segurança. A precariedade da sinalização e as más condições de visualização da linha férrea facilitam a ocorrência de acidentes. Somente o velho apito do trem tenta garantir a segurança de pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas. Mesmo assim, somente neste ano, a cidade já contabiliza um número trágico: 9 mortos e 31 feridos em colisão de veículos com trem.
Agora, com o considerável aumento no fluxo ferroviário, moradores e usuários do trânsito na Avenida Pericentral reclamam do perigo constante de acidentes nos cruzamentos da cidade. A poluição sonora também é um agravante que incomoda crianças, adultos e idosos. “Os trens passam quatro a seis vezes por dia. É um absurdo isso se pensarmos que há pouco tempo passava apenas um trem, dia sim, dia não. Agora, além de incomodar muito a gente que mora aqui, por causa do barulho, é um perigo diário para quem passa por esse cruzamento, já que a sinalização é precária. Não tem cancela automática”, queixa-se Paulo Roberto Gabriel, morador da Avenida Pericentral, um dos que listam uma série de.reclamações em relação à rotina dos trens dentro da cidade.
O medo de acidentes já se destaca na rotina das pessoas que moram e trabalham nas proximidades da linha férrea. Para Cordeiro Lopes de Souza, morador de uma casa no cruzamento da avenida Pericentral com a Rua Coronel Diogo Gomes há 10 anos, o trem é um inimigo que praticamente mora ao lado. “Eu presenciei no mês de julho um acidente com uma senhora, uma professora, que dirigia um Fiat e estava acompanhada de sua filha mais nova. A motorista foi pega de surpresa quando passavam dois trens separados, o segundo arrastou seu carro. Foi um susto grande, graças a Deus não houve morte. Eu a trouxe aqui pra casa para que ela pudesse se sentar e se acalmar, levou uma pancada forte na cabeça”, conta Cordeiro Lopes, jogador de futebol. “Desde então, eu me sinto mal de saúde cada vez que passa o trem ao lado da minha casa, eu sinto a casa tremer”.
Para Maria Ângela Farias, funcionária da Prefeitura de Sobral, “todo esse medo está levando a população a questionar as péssimas condições do serviço prestado pela Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN)”. “Não existem barreiras ou qualquer outro sistema de segurança e o Pare, Olhe, Escute não é mais suficiente!”, desabafa a servidora pública, que transita diariamente pelo cruzamento da Pericentral com a Viriato de Medeiros.
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A costureira Lúcia Cisne tem casa própria há 30 anos à margem da linha férrea. “Antes do acidente terrível com o ônibus escolar que ia para o Jaibaras, teve um acidente de trem com um ônibus que levava os funcionários da Grendene. Felizmente não houve morte, mas a coisa poderia ter sido grave”, lembra.
Apesar do número de mortos e feridos do acidente envolvendo o ônibus escolar e do outro que feriu a professora, nenhuma providência foi tomada pela Companhia Ferroviária do Nordeste para garantir a segurança dentro da cidade. Nada foi alterado nos cruzamentos. Nenhuma tecnologia de sinalização foi adotada em favor dos que transitam diariamente pelos cruzamentos da linha férrea.
A CFN informa que ainda não há projeto de instalação de cancelas eletrônicas, sinais sonoros ou qualquer outra tecnologia de reforço à sinalização em Sobral. A adoção de semáforos em sincronia com a passagem dos trens nem mesmo é considerada um item a ser planejado pela Companhia ou pela Coordenadoria de Trânsito de Sobral.
Everardo Soares, Coordenador de Trânsito da Prefeitura de Sobral, explica que a responsabilidade com a sinalização é da Companhia Ferroviária. “A Prefeitura auxilia no que pode, temos feito muito aqui na cidade”. Everardo Soares argumenta que uma boa medida seria a sincronização do trem com os semáforos, tecnologia já existente em Curitiba e que poderia ser adotada em Sobral.
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