Um cenário de abandono e problemas. É nisso que se transformou a ferrovia em São Carlos. Os trilhos estão em péssimas condições, falta de segurança, a sinalização é precária e os vagões abandonados se transformaram em refúgio de moradores de rua, de consumidores de drogas e ponto de prostituição. Equipe da EPTV também flagrou a prática de surf ferroviário no local.
As dezenas de vagões estão abandonadas há mais de vinte anos na estação de São Carlos. Não têm mais condições de voltar a circular e se transformaram em casa alternativa. João de Oliveira e o filho de 15 anos é ocupante de um dos vagões. Mora no local há oito meses, desde que perdeu o emprego e ficou sem ter como pagar aluguel. O filho está fora da escola e fica cuidando da casa, enquanto ele trabalha com serviços gerais.
Os moradores falam que de tudo pode ser visto nos vagões, como encontros amorosos de prostitutas, crianças cheirando cola e pessoas consumindo drogas. A população vizinha vive com medo. O tenente-coronel João Donizete Scozzafave, comandante da Polícia Militar, disse que a áera é particular e apolícia não pode fazer muito.
Os nove quilômetros de linha férrea que cortam a cidade apresentam muitos perigos. A sinalização é precária e em muitos trechos não há nada que impeça a passagem de pedestres. Em alguns pontos, os trilhos passam a três metros da parede das casas. A falta de segurança continua ao longo da linha, com trilhos danificados.
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O especialista em transporte da USP, José Felex, não precisou andar muito para encontrar outros problemas. No Jardim São Carlos, dormentes podres e trilhos desgastados. Em muitos pontos faltam parafusos. Um abaixo-assinado pedindo que os trilhos sejam levados para longe cidade já recolheu duas mil assinaturas.
Na Justiça
O Ministério Público de São Carlos iniciou em 2001 uma investigação sobre a situação da malha ferroviária. Documentos fornecidos pela própria Ferroban mostraram que 83% dos 3.512 vagões estavam circulando em condições precárias de segurança. Essas e outras irregularidades acabaram se transformando numa ação. Por envolver interesses da União, o processo corre na Justiça Federal.
No começo deste ano, a Justiça concedeu uma liminar que obriga a empresa a substituir todos os dormentes e trilhos impróprios. Precisa ainda restringir o acesso de pessoas à ferrovia, fechar as passagens clandestinas e adotar medidas para proteger residências próximas à linha, no caso de descarrilamento. O prazo de três meses começou a ser contado em janeiro deste ano.
Enquanto as adaptações não forem concluídas, a Justiça estipulou a velocidade máxima de 35 km/h no trecho urbano da linha. Caso este limite não seja respeitado, a multa é de R$ 50 mil. O objetivo é reverter o número de acidentes. Dados da brasilferrovias indicam que eles vêm aumentando. Passaram de 242 em 2003 para 318 em 2004. A maioria causada por problemas nos vagões(108), seguido das falhas nos trilhos (56). Os acidentes, provocaram 42 com vítimas.
Outro lado
A Brasil Ferrovias informou que a extensão da linha férrea torna inviável a fiscalização do surf em trens. Sobre a liminar da Justiça, afirmou que desde o começo do ano até agora substituiu mais de 4,7 mil dormentes. A previsão é que sejam trocados mais três mil até o fim deste ano. Sobre os vagões abandonados, não existe um prazo para que eles sejam retirados do local. A assessoria informou ainda que a distância entre a linha e as casas está dentro do espaço permitido por lei.
Já a prefeitura, responsável pela manutenção da sinalização, informou que melhorias nas placas estão incluídas no cronograma de obras e devem ser realizadas até o fim do ano.
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