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Transnordestina: agora vai

No meio do caminho, tinha um buraco. Nele ficaram, despedaçadas, 27 toneladas de placas de gesso que seriam transportadas da cidade de Araripina, no interior de Pernambuco, pela rodovia BR-407. O caminhão que levava a encomenda ao porto de Suape tombou e impediu que a carga fosse entregue no prazo ao cliente europeu. Essa história se repete, diariamente, com produtores de grãos, frutas, carnes, algodão e minérios do interior do Nordeste. “Isso não aconteceria se o transporte fosse ferroviário”, afirma o empresário Josias Filho, que preside o sindicato dos fabricantes de gesso. Há 15 anos ele espera uma obra que no mês que vem, finalmente, sairá do papel: a ferrovia Transnordestina. O negócio foi fechado há 15 dias numa reunião entre o empresário Benjamin Steinbruch e o ministro Pedro Brito, da Integração Nacional. Steinbruch decidiu elevar de R$ 500 milhões para R$ 1 bilhão a participação da Companhia Ferroviária Nacional na empreitada. Era o que faltava para destravar as negociações e agilizar a liberação dos recursos que permitirão sua realização.


Idealizada há mais de 100 anos, a estrada de ferro que cruza o sertão chegou a ganhar alguns trilhos em 1990, mas teve suas obras paralisadas dois anos depois por falta de verbas. O empreendimento virou plataforma de governo do PT em 2002, mas só agora, no fim do mandato, voltou à pauta de prioridades. “A Transnordestina saiu do papel porque é economicamente viável”, disse à DINHEIRO o diretor presidente da CFN, Jayme Nicolato. A obra cortará o Nordeste pelo interior, fazendo um Y que ligará o sul do Piauí aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE), além de unir três pontos considerados “mortos” do sistema ferroviário da região: Missão Velha, no Ceará, e as cidades de Salgueiro e Petrolina, ambas em Pernambuco. Ela vai facilitar o acesso ao sistema hidroviário do rio São Francisco e ao ferroviário já existente. Suape ganhará um terminal de grãos exclusivo. “Espera-se uma revolução nessa fronteira agrícola”, disse à DINHEIRO o ministro Pedro Brito. “Essas regiões têm potencial para produzir cerca de 55 milhões de toneladas de soja por ano, muito mais que os atuais 5 milhões.” No Sul do Piauí, de onde sairá o primeiro trecho, a produção de grãos cresce 17% ao ano. Em Araripina, a obra facilitará a conexão do pólo gesseiro do Araripe aos portos de Suape e Pecém. A expectativa dos produtores de gesso é elevar em 30 vezes as exportações até 2010. A obra vai estimular ainda o mercado de biodiesel e a mineração de fosfato no Ceará.








Nova fronteira: A ferrovia vai facilitar o transporte de grãos, gesso e minérios para os portos de Suape e Pecém


Para os críticos, a nova Transnordestina está saindo do papel porque o presidente Lula, às vésperas da campanha de reeleição, não tinha uma grande obra para apresentar aos eleitores. O projeto de transposição do São Francisco naufragou, a hidrelétrica de Belo Monte não obteve licença ambiental e as rodovias continuam em estado precário. Avaliada em R$ 4,5 bilhões, a ferrovia vai criar 620 mil empregos em 10 anos. “Eleitoreira ou não, a obra vai transformar a logística de transporte do Nordeste”, comemora Josias Filho, do Sindigesso. O presidente Lula sabe disso. Na semana passada, em viagem ao Tocantins, elogiou a importância de uma outra grande obra ferroviária, a Norte-Sul, e fez um mea-culpa em relação aos ataques feitos por ele ao projeto, em 1987, quando o presidente ainda era José Sarney. “A gente dizia que a Ferrovia Norte-Sul ligava o nada ao nada”, disse. E emendou: “Hoje, vamos retomar a ferrovia porque ela é importante para o processo de integração das riquezas deste País.” Lula aprendeu. (Elaine Cotta e Adriana Nicacio)

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Fonte: Istoé Dinheiro

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