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Má qualidade do transporte público aumenta a preferência da população por carro

Há forte
apoio popular para melhorar as condições de mobilidade urbana por meio do
transporte público, mas a péssima visão que as pessoas têm das concessionárias
de ônibus, trens e metrô, a insegurança e a falta de conforto ainda fazem as
pessoas apontarem o carro como meio de locomoção ideal no Brasil. É o que
mostram os dados de uma pesquisa inédita encomendada pelo Instituto Clima e
Sociedade (ICS) em parceria com o Instituto Escolhas.

Na avaliação
do coordenador de transportes do ICS, Walter Figueiredo Di Simoni, o usuário do
transporte público hoje tem um cotidiano de péssimos exemplos, e isso pode
colaborar para a preferência pelo automóvel ou motocicletas, apesar desses
meios de transportes contribuírem mais para o aumento da poluição e para os
engarrafamentos.

— A pesquisa
mostra uma leitura realista do transporte público no Brasil. Quando olhamos a
avaliação negativa das operadoras de ônibus, isso mostra a realidade. A
pesquisa mostra a necessidade de melhorar a qualidade do transporte público,
mas mostra também que há o desejo de que o transporte público seja o principal
meio de locomoção das pessoas — disse Figueiredo ao GLOBO, que teve acesso aos
dados com exclusividade.

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Segundo a
pesquisa, realizada pela Ideia Big Data em outubro do ano passado, 57% dos
entrevistados consideram a atuação das empresas permissionárias de ônibus
negativa ou muito negativa. Outros 39% têm uma visão positiva ou muito positiva
das concessionárias de transporte público. No Centro-Oeste, a péssima avaliação
das empresas de ônibus chega a 67%.

Para o
coordenador do Centro Interdisciplinar de Estudos em Transportes (Ceftru) da
Universidade de Brasília, professor Pastor Willy Gonzales Taco, a avaliação
negativa tem a ver com a má qualidade dos serviços oferecidos pelas empresas,
mas também com o esforço de marketing das montadoras de veículos que usam a
mídia permanentemente para mostrar as vantagens dos seus carros.

— Você não
vê propaganda da empresa de ônibus, mas de carro há muita publicidade sempre
exaltando a beleza, o luxo e as vantagens — argumentou.

Também por
isso, a pesquisa mostra que a avaliação positiva das montadoras chega a 72%. Só
20% das pessoas têm uma visão negativa da indústria de veículos.

Dos 3 mil
entrevistados, 51% disseram que pretendem comprar um carro nos próximos três
anos. Nesse grupo, a maior parte tem entre 16 e 34 anos (51%), têm curso
superior completo ou incompleto (71%) e pertencem às classes B e C.

Entre os 49%
que não pretendem comprar um carro nos próximos três anos, o principal motivo é
a falta de dinheiro (49%). Outros 25% alegam convicções pessoais para rejeitar
a compra de um veículo próprio.

— Existe uma
visão do carro como objeto de desejo. O carro ainda simboliza muita coisa, ele
é símbolo de sucesso e de que a pessoa cresceu na vida. Mas a percepção do
carro como meio de transporte ideal cai quando a renda aumenta — aponta Di
Simoni.

Segundo ele,
uma hipótese para esse resultado é de que, depois de se tornar motorista, a
pessoa se decepciona por já não ver tantas vantagens.

Enquanto o
carro é apontando como meio de transporte ideal por 32% para quem tem renda
familiar de até dois salários mínimos, esse percentual cai para 25% entre
aqueles têm renda familiar de sete salários mínimos ou mais.

A pesquisa
mostra ainda o Uber ganhando espaço entre os usuários do transporte público.
49% das pessoas que passaram a usar o aplicativo para se locomover disseram que
antes usavam ônibus, metrô ou trem para ir ao trabalho ou estudar. Deixaram o
táxi para usar Uber 37%.

Para o
professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e especialista em
transportes, Alexandre Rojas, esses aplicativos têm atrativos que o ônibus, o
metrô e o trem não podem oferecer.

— Aqui no
Rio, a questão da segurança no transporte é um ponto negativo adicional. Então,
as pessoas preferem pegar uma carona compartilhada pelo Uber do que andar de
ônibus. Elas chegam mais rápido às vezes, com maior conforto e pode custar um
pouco mais caro apenas — explica Rojas.

Ele e Taco
dizem que as empresas de transporte público precisam melhorar a qualidade e se
adaptar às novas necessidades dos usuários para não perderem clientes.

O professor
da UnB conta que em Brasília já está em uso um aplicativo que conecta o usuário
a um ônibus que faz trajetos que não são atendidos pelas empresas
concessionárias das linhas tradicionais. Na avaliação dele, essas
permissionárias precisam atender esse público para não ficar para trás, nem que
cobrem uma tarifa um pouco maior nesses casos.

Rojas e Di
Simoni também cobram mais fiscalização sobre os contratos das concessionárias
para que haja mais transparência no cálculo das tarifas e todas as exigências
do poder público sejam atendidas. Eles reconhecem que se o atual cenário for
mantido as pessoas continuarão apontando o carro como melhor meio de
transporte.


Leia Mais: A conta da
Linha 4

Fonte:

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