Falhas no linhão de transmissão de Belo
Monte provocaram um apagão em 13 Estados das regiões Norte e Nordeste do País
na tarde desta quarta-feira, 21. Também houve registro de falta de luz nas
regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Segundo o Operador Nacional do Sistema
(ONS), todos os Estados do Nordeste foram afetados e no Norte as exceções foram
Roraima, Acre e Rondônia, que não foram impactados com queda de luz.
Em entrevista no Rio de Janeiro, Luiz
Eduardo Barata, diretor-geral da ONS, afirmou que às 19h, 100% da energia
estava restabelecida no Norte. Por volta das 20h, o Nordeste já contava com 70%
de sua carga normalizada.
Segundo o governo, o motivo para o
apagão foi uma falha técnica ocorrida na linha de transmissão da concessionária
Belo Monte Transmissora de Energia (BMTE), no Estado do Pará. O motivo, apurou
o Estado, está relacionado a uma falha técnica em um disjuntor de uma das
estruturas de transmissão localizada na subestação Xingu, que recebe a energia
da hidrelétrica de Belo Monte, para que esta seja transmitida para a região
Sudeste do País.
As notícias estão em todo lugar. Reportagens e entrevistas exclusivas sobre o setor ferroviário, só na RF — desde 1940.
Por R$ 8,42/mês — parcele em 12x sem juros.
A queda ocorreu por conta de erro na
calibração do disjuntor, equipamento que faz o controle automático da energia
que passa pela linha. O componente estava calibrado para receber até 3.700
megawatts (MW) de potência, em vez de mais de 4 mil MW, como deveria. Nesta
quarta-feira, 21, quando a transmissão atingiu esse volume limite, o disjuntor
simplesmente caiu, paralisando todo o resto da rede.
De acordo com Luiz Eduardo Barata
Ferreira, a falha provocou a separação dos subsistemas Norte e Nordeste. No
Norte, que exporta energia para o Nordeste, o excesso de energia levou ao
desligamento das usinas de geração, o que atrasou ainda mais a recomposição na
região Nordeste, que hoje importa energia.
Agora, a linha de transmissão
Xingu-Estreito aguarda autorização para dobrar a carga de energia transportada,
informou o Operador Nacional do Sistema (ONS). Atualmente, esse sistema tem
autorização para operar de forma comercial com 2 mil MW de energia. No fim de semana,
porém, os testes para operação com 4 mil MW foram concluídos com sucesso.
“A fase de teste havia sido concluída e
íamos iniciar os procedimentos para começar a operação comercial (em carga
máxima da linha)”, disse Barata Ferreira.
Cronograma. A linha de 2,1 mil
quilômetros (km), operado pela concessionária Belo Monte Transmissora de
Energia (BMTE), controlada pela chinesa State Grid, entrou em operação em 13 de
dezembro do ano passado, antecipando o cronograma original em dois meses. Nas
últimas semanas, porém, apurou o Estado, a linha apresentou quedas e
comprometeu o abastecimento de toda a hidrelétrica em construção no rio Xingu,
no Pará.
A linha de transmissão, que custou cerca
de R$ 5 bilhões, tem início no município de Anapu, no Pará, a 17 quilômetros de
distância da usina, e corta 65 municípios de quatro Estados – Pará, Tocantins,
Goiás e Minas Gerais -, até chegar ao município de Estreito, na divisa de Minas
e São Paulo.
Os problemas têm ocorrido com alguma
frequência e já eram alvos de questionamentos pela Agência Nacional de Energia
Elétrica (Aneel). O efeito dominó na queda de energia ocorre porque a rede de
Belo Monte está conectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), o qual conecta
todos os Estados do País, com exceção de Roraima, o único que está fora dessa
rede.
A concessionária Norte Energia, dona da
hidrelétrica de Belo Monte, descumpriu 23 medidas técnicas de segurança que
tinham o propósito de evitar desligamentos de suas operações. O não atendimento
às exigências levou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a notificar
a concessionária há menos de um mês, no dia 23 de fevereiro, conforme apurou o
Estadão/Broadcast.
Em ofício enviado ao diretor-presidente
da Norte Energia, Paulo Roberto Ribeiro Pinto, a Aneel informava que, a partir
de dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), “identificou-se a
existência de 23 pendências com prazo vencido” em relação a recomendações
feitas à hidrelétrica. Essas pendências, destacou a Aneel, referiam-se a duas
medidas preventivas vencidas em 2018 e outras 21 em 2017. Todas as
recomendações estão relacionadas, informou a agência “a diversos
desligamentos associados ou não a perturbações sistêmicas”.
A agência deixou claro que “a não
implantação das ações acordadas em tempo combinado poderá ter como consequência
a reincidência de novos desligamentos associados às mesmas causas e com
transtornos durante as perturbações.”
Estados afetados. Por meio de nota, o
ONS, que é o órgão federal responsável por gerenciar a fiscalizar a entrega de
energia em todo o Brasil, informou que, às 15h48, “uma perturbação” no Sistema
Interligado Nacional (SIN), a rede nacional de distribuição de energia, causou
o desligamento de cerca de 18 mil megawatts (MW), majoritariamente localizados
nas regiões Norte e Nordeste. Esse volume correspondia a 22,5% da carga total
do sistema naquele momento.
Por causa dessa queda, um esquema
regional de alívio de carga entrou em operação, atingindo as regiões Sul,
Sudeste e Centro-Oeste, com corte automático de consumidores no montante de
4.200 MW. “Os sistemas Sul, Sudeste e Centro-Oeste ficaram desconectados do
Norte e Nordeste”, informou o Operador.
Segundo o ONS, às 16h15 já havia sido
realizada a recomposição de praticamente toda a carga no Sul, Sudeste e
Centro-Oeste. “As equipes do ONS estão neste momento dedicadas à recomposição
dos sistemas Norte e Nordeste, já em curso. As causas de desligamento estão
sendo investigadas”, declarou.
No Maranhão, todas as 217 cidades do
Estado registraram o apagão a partir das 15h45, segundo a Companhia Energética
do Maranhão (CEMAR). Em Manaus, no Amazonas, diversos bairros da cidade também
registraram problemas.
Na região metropolitana de Salvador, a
situação causou problemas no trânsito, já que todos os semáforos da cidade
apagaram e o metrô parou de funcionar. Informações preliminares distribuidora
Cosern dão conta de que houve queda de energia em todos os municípios do Rio
Grande do Norte. A concessionária informou que outros Estados também
registraram blecaute.
No Rio de Janeiro, os usuários relataram
falta de energia em suas redes sociais.
Em Palmas, no Tocantins, todos os
semáforos da cidade foram desligados após a queda de energia. Outras cidades do
Estado como Gurupi, Araguaína e Porto Nacional também registraram o problema da
falta de energia. A prefeitura da capital informou que deslocou agentes de
trânsito para facilitarem o deslocamento.
Improviso. A falha aconteceu justamente
no projeto que a BMTE assumiu da espanhola Abengoa, que faliu e não executou
nenhuma obra no local. Para evitar que Belo Monte atrasasse a entrega de sua
energia, a concessionária BMTE foi chamada para assumir as obras que a Abengoa
não fez, além de ter que acelerar seu calendário em dois meses antes do
previsto.
Por conta da situação, a BMTE fez ligações
provisórias no “barramento” da linha de transmissão na subestação Xingu,
dividindo sua conclusão em três etapas.
Por meio de nota, a empresa Norte
Energia, dona da usina, informou que “o apagão que atinge as regiões Norte e
Nordeste do país não foi originado pela Usina de Belo Monte” e que “a usina
também foi afetada pela falha ocorrida”.
No Rio Grande do Norte, pouco mais de
duas horas após o apagão que deixou os 167 municípios às escuras, a energia
elétrica voltou a ser restabelecida de forma gradativa. Os problemas, porém, já
eram muitos.
Nas ruas das maiores cidades, semáforos
apagados e poucos agentes de trânsito para desafogar o fluxo geraram um cenário
caótico. Nos cruzamentos mais movimentados da capital potiguar, alguns
motoristas desceram dos carros e passaram eles próprios a organizar o fluxo. Em
outros, policiais militares assumiram a tarefa. Uma colisão leve, entre um
carro e um ônibus, foi registrada na zona Leste da cidade. Não houve feridos.
Nas paradas de ônibus, milhares de trabalhadores
tentavam voltar pra casa antes do anoitecer. “Nosso horário de saída era
às 18h, mas fomos liberados às 16h50”, disse a atendente de loja Bianca
Evelyn, enquanto tentava pegar um ônibus para voltar para casa. A empresária
Thaísa Jucá, proprietária de uma doceria, resumiu a situação em uma palavra
“caos”. Apreensiva, ela tentava salvar a produção de bolos, tortas e
ovos de chocolate a serem entregues ao longo desta semana.
No Hospital Municipal de Natal e no
Hospital Estadual Dr. Ruy Pereira, ambos em Natal, as visitas aos pacientes
internados nas Unidades de Terapia Intensiva e Enfermarias foi suspensa. Os
geradores de energia elétrica das duas unidades foram acionados durante o
apagão. Estudantes de escolas públicas e privadas e das maiores universidades
acabaram sendo dispensados das aulas em decorrência do apagão.
Em Pernambuco, trens e metrô de Recife
tiveram a operação paralisada, instituições de ensino cancelaram as aulas no
turno da noite e muitos estabelecimentos comerciais fecharam as portas antes
das 17h. Longos engarrafamentos foram registrados em todas as áreas da capital,
já que, em muitos bairros, todos os semáforos estavam sem funcionar. Nos pontos
de ônibus muita gente esperou por mais de duas horas para conseguir embarcar em
coletivos superlotados.
Em algumas clínicas e hospitais os
atendimentos eletivos foram suspensos. Foi o que aconteceu com a dona de casa
Maria Rita Xavier, 45, que estava com uma série de exames agendados em uma
unidade privada de saúde na área central do Recife. “Cheguei cedo e estava
aguardando ser chamada e aí tudo ficou escuro. Vai ser um transtorno grande ter
que remarcar tudo de novo”, comentou.
A estudante Bárbara Castro, 23, também
teve problemas provocados pelo apagão. “Eu estava no meio de uma prova
eletrônica para uma seleção de emprego quando faltou energia. A empresa na qual
estou buscando a vaga é de fora do País e não sei se eles vão considerar o
problema para remarcar outra prova”, comentou.
Na Paraíba, o apagão afetou a
distribuição de água, segundo informou a Companhia de Água e Esgotos do Estado
(Cagepa). Em nota, a empresa informou que todas as estações de distribuição de
água pararam o fornecimento a partir das 16 h devido à falta de energia. A
Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de João Pessoa informou que
agentes de trânsito auxiliaram nos principais cruzamentos da cidade e também
alertou que não poderia realizar qualquer outra ação para evitar o caos no
trânsito.
No Ceará, a cidade de Fortaleza teve
dois apagões. O primeiro durou pouco mais de duas horas. De acordo com nota
emitida pela Operadora Nacional do Sistema (ONS), o problema foi causado por
“perda de carga”. A queda de energia aconteceu por volta das 15h50 e foi
reestabelecida pouco depois das 18 horas. Quarenta minutos depois, houve outra
queda de energia e a cidade voltou a ficar às escuras até as 19h50.
Um total de 670 semáforos foram
atingidos, causando uma confusão no trânsito em toda cidade. O caos só não foi
maior porque, de acordo com a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania
(AMC), mesmo após a queda de energia, 180 semáforos continuaram funcionando
graças ao sistema de nobreak, mecanismo que assegura pleno funcionamento do
sistema por até 3 horas.
Numa faculdade particular localizada na
Aldeota, área nobre da cidade, as aulas da tarde foram interrompidas e os
alunos aconselhados a irem para suas casas. Um seminário sobre reforma
trabalhista ficou pela metade. Arthur Mota, do curso de Direito, se sentiu
prejudicado uma vez que havia deixado de resolver problemas de sua empresa para
acompanhar o seminário.
O aeroporto internacional Pinto Martins
ficou sem energia por dez minutos. Também foram registramos problemas com sinal
telefônico das operadoras de telefonia móvel. Na Visconde do Rio Branco,
moradores do condomínio Ana Virgínia, ficaram sem energia e sem o serviço de
internet.
Na Bahia, o metrô de Salvador parou de
funcionar às 15h54. Os passageiros receberam orientação para deixar os vagões e
buscarem ônibus para continuar suas viagens. Quem estava nas estações
aguardando pelos trens recebeu um vale para utilizar o modal gratuitamente em
outra ocasião. A CCR informou por meio de sua assessoria que todas as estações
do metrô de Salvador foram fechadas e a circulação dos trens chegou a ser
suspensa. Pacientes do Hospital da Bahia relataram que apenas a Unidade de
Terapia Intensiva (UTI) funcionou no momento do apagão.
Segundo a Transalvador, todos os
semáforos da cidade foram desligados. Carros subiram calçadas em sentido
contrário e houve engarrafamentos imensos. Um acidente foi registrado por volta
das 17h20 na Avenida Contorno, e um motociclista ficou ferido.
Em Minas Gerais, a falta de energia foi sentida
em 31 cidades, por cerca de 15 minutos. Segundo a Cemig (Companhia Energética
de Minas Gerais), o corte no fornecimento atingiu diferentes regiões do estado.
O problema no sistema aconteceu devido à perda de carga que gerou interrupção
da rede elétrica. Além de consumidores residenciais e comerciantes, empresas
também teriam sido afetadas, caso da Fábrica da Fiat, localizada em Betim,
região metropolitana de Belo Horizonte.
Já em cidades como Uberlândia (MG) o
comércio foi quem mais sentiu o apagão. Na rua Odilon Castanheira, no bairro
Santa luzia, o Espetinho’s Cabral, surpreendeu os clientes com o anúncio de que
estaria fechado nesta quarta-feira, 21. Segundo o proprietário, o motivo foi
“a falta de energia no bairro”.
Leia Mais: CCR Metrô faz intervenções no
trânsito da Avenida Paralela
Seja o primeiro a comentar