Fabricantes estão com 80% das linhas paradas

Com cerca de 80% das linhas de produção paradas desde o fim de março por conta da pandemia da covid-19, os fabricantes de implementos rodoviários estão prevendo uma queda substancial na entrega de produtos neste mês. A maior empresa do setor, a Randon, está com a fábrica em Caxias do Sul totalmente parada. Os funcionários da produção estão em férias coletivas. Outras fabricantes de peso, como Librelato, Facchini e Noma, também reduziram a produção e trabalham com o mínimo de funcionários. A maior parte das entregas previstas para abril são de equipamentos em estoque ou encomendas prontas. A média diária de entregas no começo deste mês está em torno de 150 a 160 unidades. No período pré-crise era de 250 a 260 implementos por dia.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários (Anfir) tem 138 associados, entre grandes, médias e pequenas fabricantes, em 17 Estados. O faturamento do setor em 2019 superou os R$ 5 bilhões. A dispersão geográfica e a diferença de porte das empresas não permite definir uma conduta única para o setor neste momento. Segundo o presidente da Anfir, Norberto Fabris, os fabricantes têm de atender exigências estaduais e municipais que são muito diferentes. “O que é quase unanimidade no setor é que as áreas administrativas estão trabalhando em home office. Mas a produção depende da realidade de onde está instalada a fábrica.” Os serviços de pós-venda e fornecimento de peças está normal.

A previsão inicial da entidade era crescer 10% neste ano em volume. O setor passou por mais de 3 anos de crise que derrubou a produção em 66%, no caso dos pesados. A fabricação de reboques e semirreboques foi de 76 mil unidades em 2013 para 22 mil anualmente no pior momento entre 2014 e 2017. A recuperação nesse segmento começou em meados de 2017, continuou em 2018 e 2019. E a expectativa em 2020 era passar os números pré-crise e voltar a falar em crescimento real. Em 2019 foram montados 63 mil implementos pesados.

“Na crise houve redução no número de empresas, que entraram em recuperação judicial. O número de empregos foi de cerca de 50 mil para 32 mil pessoas. Todo o setor teve de investir em tecnologia e hoje está em outro patamar de produção. Podemos produzir o mesmo volume anterior com menos pessoas”, afirmou Fabris. A capacidade de produção de pesados está em 80 mil unidades anuais.

No segmento de leves a recuperação foi bem mais lenta. Historicamente, o setor produzia três implementos leves para dois pesados. Mas no ano passado foram montados apenas 58 mil unidades leves, abaixo do total de pesados. Enquanto o segmento de pesados foi beneficiado pelo desempenho do agronegócio, os fabricantes de leves precisam que o consumo nos grandes centros urbanos puxem a retomada das encomendas. “E isso não aconteceu com a mesma velocidade”, afirmou Fabris.

E nesse momento o segmento de leves deve ser o mais atingido. A restrição de circulação nas principais metrópoles vai reduzir o uso dos caminhões leves destinados à distribuição de mercadorias nas cidades. E é justamente nesse segmento que estão os fabricantes de menor porte do setor. Fabris admite que existe risco para o trabalhador, dependendo de quanto dure essa crise. O setor emprega, atualmente, perto de 45 mil pessoas.

“O que já está plantado [pelo agronegócio] vai ter de ser colhido e transportado. Então o segmento de pesados tem mais continuidade. Já o transporte dentro das cidades está reduzido ao mínimo possível. A linha leve, que já vivia uma recuperação mais lenta, como vai ficar agora?”, questiona Fabris.

A Anfir conseguiu junto ao Denatran a suspensão da Autorização Especial para Transporte de Cargas. Isso permite que o transportador use o implemento sem os documentos definitivos fornecidos pelos Detrans, que estão fechados por conta do coronavírus. Sem essa suspensão, o implemento não poderia circular até o retorno dos Detrans.

O setor tinha acumulado alta de emplacamentos de 4,12% no bimestre janeiro/fevereiro, mas o desempenho de março virou o sinal e o acumulado no trimestre é de menos 0,77%. A queda foi mais forte na linha de pesados. Os números de abril devem derrubar ainda mais o indicador. Apesar do setor ter formado uma boa carteira de pedidos, a expansão de 10% para o ano passou a ser praticamente impossível de ser atingida.

“Nossa projeção foi feita dentro de uma expectativa de crescimento do país. Sem uma anomalia dessa magnitude. Agora, qualquer projeção é um chute. Tudo vai depender do tempo que a crise perdurar. Se tudo correr bem, acredito que vamos perder 60 dias de produção. Mas e a volta, como vai ser? Com vai estar nossa cadeia de fornecedores?” destaca Fabris, lembrando que muitos fornecedores são médios e pequenos e vão ter dificuldades financeiras para sobreviver nos próximos dois meses.

A boa notícia é que a Randon planeja retomar até 25% da produção em Caxias do Sul nesta semana.

Fonte: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2020/04/13/fabricantes-estao-com-80-das-linhas-paradas.ghtml

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