À Mesa com o Valor: Rubens Ometto: A trajetória do ‘garoto caipira’ que fundou o grupo Cosan e fez fortuna de R$ 1,6 bilhão

Ometto diz que vê oportunidades em segunda geração de etanol e biogás. A Raízen, joint venture com a Shell, está prestes a fazer IPO — Foto: Silvia Zamboni/Valor
Ometto diz que vê oportunidades em segunda geração de etanol e biogás. A Raízen, joint venture com a Shell, está prestes a fazer IPO — Foto: Silvia Zamboni/Valor

Valor Econômico – Acostumado à rotina de viagens internacionais e encontros de negócio, Rubens Ometto Silveira Mello, fundador e presidente do conselho do grupo Cosan, teve de dar a mão à palmatória nesta pandemia. “Eu era aquela pessoa que criticava muito o home office”, reconhece o empresário, que ficou isolado com sua família no início da crise sanitária e este ano, quando a segunda onda chegou com força.

Teve de se acostumar à nova realidade imposta pelo isolamento social desde o ano passado, intercalando as reuniões presenciais com as on-line. “A pandemia mostrou que é possível trabalhar a distância, desde que seja bem organizado. Acredito que as empresas poderão adotar um modelo mais híbrido daqui para frente.”

Para ele, contudo, o olho do dono é o que engorda o gado. Aos poucos, o dia a dia do empresário, que chega à Cosan por volta das 8h e fica até as 19h, está voltando à normalidade. “Uso máscara e mantenho a distância. Mas saio para trabalhar todos os dias”, conta Ometto, que já tomou a primeira dose da vacina Oxford-AstraZeneca.

Em recente viagem de negócios aos Estados Unidos, ficou impressionado com a retomada do país, que acelerou a campanha de vacinação e está oferecendo a imunização também aos turistas.

Para este “À Mesa com o Valor”, ele preferiu um almoço na sede de sua empresa, organizado pela chef de cozinha mineira Mazzô, em sua sala de reunião, com lugares marcados e distanciamento para cinco pessoas. “Sou um velhinho”, brinca Ometto, de 71 anos.

Dono de um conglomerado de empresas de infraestrutura, agronegócio e rede de combustíveis, o empresário fundou a Cosan nos anos 1980 com usinas de açúcar e etanol. A partir dos anos 2000, passou a diversificar seus negócios. O primeiro passo foi a compra dos ativos da Esso no país. Depois, firmou sociedade com a gigante Shell para a formação da Raízen, que se tornou uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.

O grupo, com faturamento de R$ 68,6 bilhões em 2020, que também atua em ferrovia e distribuição de gás, poderá protagonizar neste ano uma das maiores ofertas públicas de ações (IPO, na sigla em inglês), com a Raízen indo à bolsa. A expectativa é de levantar até R$ 13 bilhões – a companhia protocolou o pedido na semana passada.

A companhia de Ometto também está em negociações com a Petrobras para a compra da Gaspetro, empresa de gás canalizado com presença em todo o país, o que poderá colocar a Cosan em outro patamar, se o grupo fechar o negócio.

Dono de uma fortuna estimada em US$ 1,6 bilhão pela revista “Forbes”, Rubens Ometto tem bom trânsito tanto em Brasília como no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. O engenheiro formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) evita, contudo, entrar na discussão política – que tem colocado em lados opostos o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva – e reforça que o empresariado, de forma geral, é muito pragmático.

Nossa conversa é interrompida pela chef Mazzô, que entra na sala de reunião e pergunta se todos estão prontos para fazer o pedido. “O que você tem para a gente hoje, Mazzô?” No cardápio, os pratos principais são arroz de pato e tartar de peixe. “Pelo amor de Deus! Eu não como arroz de pato não!”, responde Ometto, olhando em volta para seus convidados e pedindo uma certa cumplicidade. Mazzô dá risada e pergunta se ele quer acrescentar berinjela na salada italiana, servida como opção de entrada, já sabendo de largada qual seria a resposta do empresário.

Logo em seguida, Ometto lembra que, quando uma atriz apresentou um evento organizado pela Raízen no exterior, não quis ser fotografada durante o almoço. “A preocupação da apresentadora era evitar que saísse uma foto dela com a sujeira nos dentes.” E, neste momento, pede para que a fotógrafa Sílvia Zamboni tenha o mesmo cuidado com ele. “Olha lá, hein!”

Mais à vontade na sessão de fotos enquanto come, o empresário começa a falar sobre sua recém-lançada biografia, “O inconformista” (Portfolio Penguin, 184 páginas), que foi escrita por Ometto com o autor de telenovelas Aguinaldo Silva. O livro foi lançado em 15 de março, quando São Paulo estava com medidas mais restritivas por causa do recrudescimento da pandemia. Frustrado por não ter a famosa noite de autógrafos, Ometto diz que deverá lançar uma segunda edição da publicação, com uma versão “mais picante e detalhada” de sua vida.

Noveleiro de carteirinha, Ometto foi apresentado a Aguinaldo Silva por seu amigo Bob Coutinho (apresentador do extinto programa “Dose Dupla”). Ometto nasceu em Piracicaba (SP) e estudou na escola da usina Costa Pinto, de sua família, nos primeiros anos de sua alfabetização. Ele conta que decidiu escrever o livro para que a história de sua empresa e a trajetória de sua vida ficassem registradas. “Biografia normalmente é chata. Só é legal para quem escreve. Eu queria que fosse interessante para quem lesse e para que os mais jovens se interessassem pelos conceitos que tenho de administração de empresas e de vida”, diz.

Ometto conta que teve diversos encontros com Aguinaldo Silva. No dia em que foi apresentado ao escritor, ele pregou uma peça em seu amigo Bob. “Foi uma situação muita gozada porque eu chamava o Aguinaldo (Silva) de Reginaldo, sei lá o porquê. Bob ficava muito nervoso e pediu que eu não confundisse o nome dele quando fosse apresentado. Só que eu cheguei antes ao encontro e combinei com o próprio Aguinaldo que eu iria chamá-lo de Reginaldo, só para ver como o Bob iria reagir.”

O empresário gostou da experiência de passar a sua vida a limpo e diz que Aguinaldo Silva, famoso por várias telenovelas de sucesso, como “Senhora do Destino”, “Tieta” e “Império” – que está sendo reprisada pela Rede Globo -, deverá usar a base de sua história para escrever um novo folhetim.

A escolha do nome do livro, “O inconformista”, foi sugestão de Aguinaldo Silva. “Ele foi muito feliz (na escolha). Eu não tinha pensado sobre (isso). O meu amigo Bob tinha sugerido algo mais cafona: ‘A novela da minha vida’. Eu sou noveleiro, mas eu gostei de ‘O inconformista’”, conta o empresário, que se define como “um cara que sempre foi inconformado com as coisas do jeito que elas são”.

Para ilustrar, lembra durante a entrevista quando fez uma festa junina em sua fazenda, com a presença de Zezé Di Camargo e Luciano. “Antes da festa, um padre foi rezar uma missa. Então, ele começou a falar mal de casais que se separam. Só que eu era o único casado ali. Pensei comigo: não vai ficar ninguém na missa!”

Ometto diz que a Igreja Católica tem de modernizar seu discurso e as missas têm de cativar os fiéis. “Eu defendo que o padre tem de ser um bom comunicador e possa casar. Por que os cultos evangélicos estão atraindo mais gente? Porque é mais alegre. Na Igreja Católica, todo mundo é quadrado.”

Conhecido no mercado como um homem de negócios que sempre dá a última palavra, Ometto voltou à infância e revisitou suas vulnerabilidades ao contar a história de sua família, que chegou ao Brasil no século XIX e criou um império de açúcar e álcool. Um enredo de novela, que mostra um garoto “caipira” rico, que sai da cidade do interior para fazer a vida em São Paulo.

No capítulo que abre o livro, o empresário lembra das crises asmáticas que sofria em silêncio quando era criança e que poderiam ser a chave para todas as suas fobias futuras, como o medo de avião e a síndrome do pânico. Para ele, essas lembranças são como o seu “rosebud”, uma alusão a “Cidadão Kane”, o celebrado filme de Orson Welles de 1941.

Ele deixou a vida confortável de Piracicaba, onde a família Ometto Silveira Mello tinha prestígio e poder, para se preparar para o vestibular. Tinha planos de entrar na faculdade Mackenzie, mas foi aprovado na Poli-USP. Para Ometto, essa fase de superação foi importante para que ele se consolidasse na carreira e para provar aos seus primos, que moravam na capital paulista e faziam bullying com ele por ser do interior de São Paulo, que o caipira de Piracicaba iria mais longe. E foi.

Antes de seguir os passos da família e começar a consolidar os negócios de açúcar e álcool da Cosan (junção dos nomes das usinas Costa Pinto e Santa Bárbara), trabalhou no Unibanco e depois foi um dos braços direitos de José Ermírio de Moraes Filho, do grupo Votorantim.

A família do empresário também foi sócia da Táxi Aéreo Marília, que deu origem à TAM. Ele relata uma passagem marcante da história da companhia aérea. “Meu tio [Orlando Ometto] pediu para que eu fizesse um pente-fino na companhia e disse que não dava para ficar mais com [o comandante] Rolim Amaro [morto em um acidente em 2001] na empresa. Depois de um tempo avaliando os negócios da empresa, acabei constatando que o problema não estava com o Rolim, mas sim com o meu tio”, conta e dá risada.

Ainda nos anos 1970, quando estava no grupo Votorantim e ajudava a família a conduzir os seus negócios, Ometto teve uma breve passagem como produtor de cinema. Dois longas, dirigidos por Jean Garrett e estrelados por David Cardoso, conhecido como rei da pornochanchada, contaram com a assessoria financeira do empresário. Um dos filmes foi gravado na casa do sogro de Ometto.

Essas passagens são narradas no livro com um certo saudosismo do empresário, quando ainda tinha 20 e poucos anos, mas que foram momentos bem marcantes. Ao perder o pai muito cedo e voltar para tomar conta dos negócios da família, o empresário construiu o seu conglomerado e teve de ter sangue frio para enfrentar dois litígios familiares.

O primeiro foi com seu tio Orlando e seus primos por causa da divisão das usinas da família – as unidades Costa Pinto e Santa Bárbara, do ramo do clã de Rubens de um lado, e Usina da Barra, de outro, em um processo que foi encerrado em 1993, depois de cinco anos de litígio. A segunda disputa – mais delicada – foi detalhada no capítulo do livro “A guerra dos Ometto” e durou dois anos. O empresário foi processado pela própria mãe, que contou com o apoio de seus irmãos. A matriarca da família entrou com uma ação contra o filho para que ele deixasse o comando das usinas da família. Em ambas as batalhas, Rubens Ometto diz ter saído fortalecido. Acabou assumindo os negócios que pertenciam aos primos e irmãos e ampliou o seu império.

A fama de durão que construiu ao longo de sua carreira logo se desfaz quando ele fala de sua família. Casado com Mônica e pai de Isabel e Gabriela, Ometto conta com orgulho que adora passar o seu tempo com os netos: Pedro Rubens e João Rubens, filhos de Isabel, e Maria Eduarda, Gustavo (o Guga) e Fred (Frederico), filhos da caçula Gabriela.

“As pessoas costumam brincar comigo perguntando se eu não tinha forçado a barra porque minha filha colocou Rubens [nos nomes compostos de Pedro e João]. Eu respondo que não. Por mim, seria Rubens Rubens, duplo mesmo”, revelando ali um ponta de vaidade naquele almoço que já tinha se alongado por mais de uma hora.

Com o neto Pedro Rubens, costuma dividir uma de suas paixões, que é jogar golfe. Férias mesmo, para se dedicar ao ócio, ele confessa que não tira porque não gosta. Sua mulher, Mônica, costuma acompanhá-lo em viagens a trabalho, momentos que ele aproveita para relaxar, principalmente em Miami e Nova York, onde tem imóveis. Quando fica em Manhattan, prefere o sossego à bateria de programações culturais intensas da Big Apple. “Fico muito aflito. Não gosto de passar mais do que dez dias longe da minha turma”, referindo-se à Cosan.

E o rumo da conversa volta para os planos futuros de sua companhia. Ometto diz que suas empresas de energia têm projetos voltados para a linha ESG, sigla em inglês que define os critérios ambiental, social e de governança, e que a Raízen está com tudo preparado para o IPO. “Vejo oportunidade em segunda geração [de etanol] e biogás.”

A expectativa do empresário é que a economia volte a crescer nos próximos meses, mas ele pondera que isso depende do avanço da campanha de vacinação. “Temos projetos enormes para serem desenvolvidos e estamos deixando tudo pronto”, diz.

O grupo pretende também recorrer mais para frente ao mercado de capitais para levantar recursos para sua divisão de gás, a Compass, e tem planos de adquirir a refinaria Alberto Pasqualini (Refap), que pertence à Petrobras. Esse movimento, contudo, depende da estatal, que trocou de gestor e desde abril está sob o comando do general de reserva Joaquim Silva e Luna.

Paramos mais um pouco a conversa para a escolha da sobremesa. O empresário logo a seguir pede licença para deixar a sala. Dez minutos depois, retorna sorridente. Conta que foi dar uma espiada no que seus executivos estavam fazendo.

Voltamos a falar do livro, e pergunto se passar a vida a limpo foi como fazer análise. “Eu tive síndrome do pânico quando era jovem e me mandaram fazer psicanálise. Meu pai me mandava para os psicanalistas. Era um horror. Mas acredito na análise”, conta. Acrescenta um momento anedótico de sua vida, quando ele e suas filhas resolveram fazer terapia em família. “Em determinado momento de uma das sessões, minha filha me dedurou. Foi um vexame”, diz, soltando uma gargalhada.

Com a cabeça de engenheiro, ele diz que teve muita sorte no combate à síndrome do pânico. “O segredo do antidepressivo é acertar o remédio e a dose”, afirma, reconhecendo que é bem metódico, mas sem ser doentio. E que não é uma pessoa de manter grandes rituais. Mesmo com a disciplina de esportes – ele pratica tênis de duas a três vezes por semana e também joga golfe. “Mas, se não der, não deu.”

Pergunto se ele realmente planeja publicar a segunda edição de seu livro. Ele diz que pretende incluir eventos importantes do mundo dos negócios, que ficaram de fora da primeira edição. É o caso da compra do grupo de açúcar e álcool Biosev (companhia que originalmente representava o grupo Vale do Rosário), concluída no início deste ano. A Cosan já havia tentado comprar a Vale do Rosário quase 15 anos atrás, mas a investida foi malsucedida à época.

O fracasso dessa operação rendeu páginas no livro de Ometto. Ele conta que o revés foi decisivo para o ponto de virada da Cosan, que decidiu entrar em novos negócios, deixando de ser um grupo sucroalcooleiro. “Tem muita coisa que ainda vai acontecer neste ano que será colocada na segunda edição.”

Fechar negócios não é a parte mais difícil para o empresário. Neste ano, a companhia também concluiu a tão esperada reestruturação societária, um movimento aguardado pelo mercado financeiro desde 2007, quando a Cosan abriu o capital na Bolsa de Nova York. Os passos dados pelo empresário naquele ano foram criticados pelos financistas e acionistas minoritários porque Rubens Ometto garantiu superpoderes de voto que não permitiriam que sua empresa fosse alvo de uma oferta hostil. Ao abrir o capital da Cosan Limited fora do país, foi massacrado pelo mercado, que via na operação uma complexa relação entre as diversas companhias do grupo e alegavam falta de transparência. “Prometi ao mercado que iria fazer a simplificação societária e cumpri. Foi no tempo que tinha de ser.”

Aos 71 anos, ele está longe de se aposentar. Com o celular ligado 24 horas por dia, Ometto costuma fazer ligações para seus executivos no fim de semana. “É quando eles estão mais descansados ” Para trabalhar com ele, é preciso que o executivo tenha o que ele chama de vaidade “boa” – além de estar disponível quando ele precisar. “Aqui tudo é consenso. Sou muito bonzinho. Mas tem aquela famosa frase: seja razoável, concorde comigo”, brinca.

Competitivo nos negócios, o empresário também tem sangue nos olhos fora do mundo corporativo. No livro, narra o episódio em que ele e seu irmão Celso venceram o ex-piloto de Fórmula 1 Emerson Fittipaldi nas pistas. Ele guarda a edição da revista “Autoesporte” até hoje.

Com “O inconformista”, tem a intenção de perpetuar sua história e a da Cosan. O empresário diz não colocar pressão para que suas duas filhas e seus netos o sucedam. Ele tem criado as bases para que os executivos de suas companhias os assessorem no futuro, que para ele ainda está muito distante.

“Eu sou muito pragmático em relação a isso.” E aproveita a deixa para encerrar a entrevista. “Tá ok, minha filha?”, levantando-se da mesa e colocando um ponto final na conversa.

Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2021/06/11/a-mesa-com-o-valor-rubens-ometto-a-trajetoria-do-garoto-caipira-que-fundou-o-grupo-cosan-e-fez-fortuna-de-r-16-bilhao.ghtml

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