Valor Econômico – A recente renovação do sistema de cotas de importação de produtos de aço pelo governo federal, prorrogado até maio de 2026, reacendeu o debate sobre os rumos da política comercial brasileira. De um lado, as siderúrgicas avaliam que as cotas são insuficientes para conter o avanço de importações a preços reduzidos, especialmente da China. De outro, consumidores de aço, como os setores de máquinas e equipamentos, construção, automotivo e de eletroeletrônicos, defendem o acesso a insumos mais baratos e são contra medidas que encareçam o material.
Em maio, o Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex), ligado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), renovou por 12 meses a vigência da alíquota de 25% sobre o aço importado da China que exceda a cota. Além disso, elevou de 19 para 23 o número de produtos alcançados pela medida.
Apesar de vista como um avanço técnico, a taxa é considerada insuficiente pelas siderúrgicas. No dia após o anúncio, os papéis de Usiminas, CSN e Gerdau tiveram forte queda. Além disso, haveria caminhos de desvio, já que o aço chinês entra pela Zona Franca de Manaus, que tem regime tributário especial, e por Santa Catarina, que o isenta de ICMS. Por isso, a indústria pede um modelo mais forte.
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Rodrigo Scolaro, economista da plataforma de inteligência GEP Brasil, avalia que este cenário contraditório deixa o governo em posição delicada, forçado a equilibrar interesses de setores com demandas opostas. Ao mesmo tempo em que o Brasil negocia com os EUA para ser excluído de tarifas de importação, evita adotar medidas mais rígidas contra a China, seu principal parceiro comercial. Scolaro afirma que esse ambiente de tensão exige cautela, para equilibrar as frentes diplomáticas e o estímulo ao consumo interno.
“Temos um mercado nacional que vem apresentando melhora de consumo, mas existe essa rivalidade. As grandes siderúrgicas tiveram melhora nas vendas por conta do consumo interno, puxado principalmente pela construção civil, que tem menos rivalidade estrangeira e menos interesse de empresas chinesas”, diz.
Essa falta de interesse chinês, no entanto, pode não durar para sempre, já lembrou Dionysio Klavdianos, presidente da Comissão de Materiais da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic). Há uma barreira de especificação técnica que pode ser vencida. Por ora, o aço importado pelo setor vem da Turquia e do Egito, e em pouca quantidade: as importações da Turquia representaram apenas 1% do material que chegou ao país nos cinco primeiros meses do ano, mostra relatório do Instituto Aço Brasil.
“Desde a pandemia, a construção descobriu que pode comprar aço de fora”, afirma Klavdianos. Isso tem ajudado a segurar o preço do material, na sua avaliação. “O custo do aço nacional tem caído, eles [siderúrgicas] não têm conseguido emplacar aumentos.”
A construção consome mais aços longos (vergalhão) e fio máquina, utilizado na malha que vai nas paredes de concreto usadas na habitação popular. É esse segmento que tem puxado os novos lançamentos de imóveis no país, que cresceram 22,5% nos últimos 12 meses até março, segundo a Cbic. É uma demanda já assegurada de aço para o futuro.
O ponto de atenção para a construção, lembra Klavdianos, é um pleito das siderúrgicas na Camex para elevar a taxa de importação do fio máquina, cuja entrada no país cresceu 47% até maio. O pedido ainda não foi julgado.
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) tem se manifestado contra o aumento das tarifas de importação, sob pena de prejudicar a competitividade dos produtos finais. A entidade afirma que boa parte das empresas não tem porte para comprar diretamente das usinas e se abastece nos distribuidores, onde os preços são mais elevados. “Os insumos, o aço, a borracha e os chips têm que chegar ao Brasil com o mesmo preço da China, que é competitiva, tem preços muito baixos”, afirma Marcos Perez, superintendente de mercado interno da Abimaq. “Se não protegermos a indústria [nacional] de máquinas, vai entrar a máquina importada completa.”
Ele destaca que o setor de bens de capital é altamente competitivo e estratégico para a economia nacional, especialmente por sua capacidade de exportar produtos de alto valor agregado. Equipamentos como implementos agrícolas e máquinas rodoviárias têm tecnologia embarcada e são destinados a mercados exigentes, como os Estados Unidos.
Já as siderúrgicas argumentam que a entrada maciça de produtos chineses com subsídios representa uma prática predatória e anticoncorrencial, que enfraquece a indústria nacional ao comprometer a sustentabilidade da cadeia produtiva, o que, na prática, afeta a geração de empregos, desestimula investimentos e ameaça a sobrevivência de setores industriais estratégicos.
O presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, alertou para o forte aumento das importações de aço, especialmente da China. “Nós estamos sendo inundados pelas importações chinesas”, disse.
Segundo o Aço Brasil, a previsão inicial era que 5,3 milhões de toneladas de aço laminado fossem importadas em 2025 – alta de 11,5% sobre 2024. No entanto, só nos cinco primeiros meses deste ano as importações já subiram 33,7%. Se o ritmo for mantido até dezembro, a estimativa é de 6,2 milhões de toneladas de aço entrando no país, o equivalente a 18% da produção nacional de aço bruto e 30% das vendas internas de laminados.
O executivo também rebateu a ideia de que o aço brasileiro é mais caro do que o praticado no mercado internacional.
O movimento de entrada de produtos chineses já se espraia para outros segmentos, como o automobilístico – um dos maiores consumidores de aço no país -, que agora também vê seu mercado ser atingido pela ascensão das montadoras asiáticas. Também preocupa a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) a imposição pelos Estados Unidos de tarifas de importação de aço e alumínio, que poderiam causar uma reconfiguração da produção das montadoras. Procurada, a entidade não se pronunciou até o fechamento desta edição.
Artur Bontempo, analista de minério de ferro e aço da consultoria WoodMackenzie, diz que o setor siderúrgico é intensivo em capital, com investimentos de longo prazo. Nesse contexto, as medidas americanas de controle das importações podem gerar impacto imediato sobre o fluxo de mercadorias e os preços do aço. “Com base nos nossos dados, a exportação de placas representou 21,5% do total produzido em 2024. Por isso, é importante manter os laços comerciais com esse valioso parceiro que são os Estados Unidos”, afirma.
Daí a importância do Brasil tentar reverter o tarifaço do presidente Donald Trump. Ao mesmo tempo, Scolaro lembra que endurecer demais a postura contra a China pode abrir precedentes para retaliações ou medidas de reciprocidade. “Com toda a discussão com os Estados Unidos, a China já demonstrou disposição para a reciprocidade, se necessário”, diz o economista.
Segundo Diego Giangreco, analista sênior da empresa de inteligência de mercado da CRU, o aço segue uma dinâmica de preços regionais, e a América Latina mantém tarifas relativamente baixas – antes da adoção do sistema de cotas, o imposto médio de importação era de 10,8%. “As cotas oferecem alguma proteção ao mercado doméstico, mas de forma parcial”, afirma.
Ele destaca que a China tem praticado preços altamente competitivos, com a bobina a quente sendo exportada a cerca de US$ 445 por tonelada, o que pressiona os mercados locais. “De um lado, está o produtor, que precisa de retorno sobre o capital investido; do outro, a indústria, que depende de insumos a preços acessíveis.”
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