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A bicicleta como aliada do transporte público sobre trilhos

Sérgio Avelleda
é sócio-fundador da Urucuia: Mobilidade Urbana e coordenador do Núcleo de Mobilidade Urbana do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper

No dia 19 de agosto celebramos o Dia Nacional do Ciclista, data que vai muito além de uma homenagem: é um convite à reflexão sobre o papel da bicicleta na mobilidade urbana e sua integração com os sistemas de transporte público.

Em um cenário em que as cidades brasileiras enfrentam congestionamentos crônicos, emissões crescentes e pressões por mais sustentabilidade, a bicicleta se mostra não apenas como meio de transporte eficiente e saudável, mas como elo fundamental de conexão com o transporte de massa, especialmente os trilhos.

Costumo dizer que é muito improvável encontrarmos alguém que consiga pedalar desde o Grajaú, localizado na Zona Sul paulistana, até a Avenida Paulista, por exemplo. Esse trajeto pode levar mais de duas horas de bicicleta. Contudo, é bastante provável que alguém que more até 10 quilômetros do Terminal Grajaú aceite pedalar até a estação e lá integre a bicicleta aos trens. Mas para que isso aconteça, o ciclista precisa se sentir protegido e acolhido.

A bicicleta possui uma vantagem inegável: ela multiplica o alcance dos sistemas de alta capacidade, como metrôs e trens metropolitanos. Muitas vezes, a distância entre a residência e a estação não é suficientemente curta para ser percorrida a pé, mas é perfeitamente viável de bicicleta.

Quando a infraestrutura adequada existe — ciclovias seguras, bicicletários protegidos, integração tarifária — o ciclista se transforma em passageiro fiel do transporte sobre trilhos.

Nesse sentido, a bicicleta deixa de ser vista apenas como veículo individual e passa a ocupar papel estratégico na cadeia da mobilidade urbana, funcionando como alimentadora do transporte de massa. Essa sinergia aumenta a eficiência do sistema, amplia o raio de influência das estações e contribui para reduzir a dependência do automóvel.

A experiência internacional demonstra que, quando se oferece ao cidadão uma rede de ciclovias conectada e infraestrutura de apoio — como estacionamentos seguros e a possibilidade de levar a bicicleta no trem —, a adesão cresce exponencialmente. Cidades como Paris, Berlim e Bogotá já comprovaram esse efeito.

No Brasil, ainda temos um longo caminho a percorrer, mas conquistas importantes foram obtidas. Quando lideramos decisões estratégicas na gestão do governador José Serra, autorizamos o ingresso da bicicleta nos trens da CPTM e do Metrô de São Paulo, permitindo que milhares de ciclistas passassem a combinar os dois modos de transporte.

Essa medida, à época inovadora, representou não apenas uma mudança regulatória, mas um marco simbólico de reconhecimento da bicicleta como parte legítima do sistema de mobilidade.

Outro passo relevante foi a condução da construção da ciclovia do Rio Pinheiros, que transformou um espaço antes restrito e degradado em um dos mais importantes eixos cicloviários da capital paulista.

Ao conectar bairros, aproximar a população do transporte sobre trilhos e criar uma rota segura ao longo da margem do rio, a ciclovia consolidou-se como exemplo de como planejamento e decisão política podem mudar o cotidiano urbano.

Descobrimos uma enorme demanda reprimida de usuários que desejavam trazer suas “magrelas” para os trens metropolitanos e de metrô. O lazer e as viagens cotidianas podem ser mais eficientes com a integração trem-bicicleta.

Eu me lembro que construímos, quando eu era presidente da CPTM, um bicicletário na Estação Vila Olímpia, da Linha 9. Semanas depois da inauguração, eu fui lá verificar o uso do equipamento e encontrei um senhor estacionando sua bicicleta ali.

E perguntei a ele como ele usava a bicicleta. A resposta me surpreendeu: o usuário me explicou que aquela era a sua segunda bicicleta. A primeira ele usava para ir da sua casa à Estação Jardim Helena, na Linha 12. Lá, a estação já tinha sido inaugurada com bicicletário.

De lá ele embarcava no trem em direção à Vila Olímpia, onde trabalhava como vigilante em um prédio comercial. Agora, com o novo bicicletário, também conseguia chegar ao trabalho pedalando. Um excelente exemplo do potencial positivo da integração.

O fortalecimento da bicicleta como alimentadora do transporte público é também um instrumento de equidade social. Muitas famílias não têm condições de manter um automóvel, mas podem utilizar a bicicleta como meio de acesso ao trem ou ao metrô.

Essa combinação reduz o tempo de deslocamento, amplia oportunidades e melhora a qualidade de vida. Além disso, a integração bicicleta–trilhos traz ganhos ambientais inquestionáveis.

Menos carros nas ruas significam menos poluição, menos emissões de gases de efeito estufa e menos acidentes. As cidades tornam-se mais humanas, silenciosas e resilientes.

Para que essa integração aconteça, os operadores metroferroviários precisam entender que o investimento em bicicletários, paraciclos seguros e vestiários não pode ser visto como gasto operacional.

É preciso enxergar como investimento na ampliação da base de usuários e no impacto positivo dos sistemas sobre trilhos. Além disso, é papel dos operadores e do poder concedente a articulação com as cidades para a implantação de uma malha cicloviária que integre e conecte as estações metroferroviárias e terminais de ônibus.

No Dia Nacional do Ciclista, é fundamental reafirmar que a bicicleta não é inimiga, mas parceira do transporte público de massa.

A sua presença fortalece os trilhos, amplia a base de usuários e contribui para um modelo de mobilidade mais sustentável e democrático.

A experiência que vivemos em São Paulo ao permitir bicicletas nos trens e ao implantar a ciclovia do Rio Pinheiros é prova de que, com vontade política, é possível transformar a mobilidade urbana.

Cabe agora às cidades brasileiras consolidar essa integração, oferecendo infraestrutura de qualidade e políticas de incentivo.

Assim, poderemos ver a bicicleta não apenas como símbolo de lazer, mas como engrenagem vital de um sistema de mobilidade moderno, inclusivo e conectado com o futuro.

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