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Fortaleza quer ser símbolo em transporte

Valor Econômico – Corredores de ônibus, malha cicloviária integrada a terminais urbanos, ajustes nos limites de velocidade e passe livre estudantil são algumas das políticas que vêm sendo implementadas em Fortaleza, cidade que quer ser símbolo da mobilidade sustentável. O pontapé das ações foi a aprovação, em 2023, da Política Municipal de Mobilidade Urbana Sustentável (Lei Nº 47/2023) e a entrada, em 2024, da capital cearense no C40, rede global de quase cem megacidades comprometidas com ações de combate a mudanças climáticas.

Fortaleza já vinha adotando medidas para reduzir as vítimas do trânsito. A diminuição dos limites de velocidades para 50 km/h em mais de 60 vias resultou na queda de 55% no número de mortes de pedestres em acidentes entre 2004 e 2023. Entre ciclistas, a queda foi ainda mais expressiva: 80%.

Além de novas infraestruturas – a cidade ganhou 508 km de malha cicloviária, alta de 650% sobre 2013 -, o que mudou foi o olhar do poder público para a integração entre mobilidade, saúde pública e agenda climática. “Passamos a olhar a mobilidade para além da agência de trânsito, o que requer planejamento, orçamento e integração entre as diferentes secretarias”, explica Victor Macedo, coordenador de mobilidade urbana de Fortaleza.

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Influenciados pela consultoria do C40, novos conceitos passaram a ser integrados à gestão municipal, como as zonas de baixa emissão (ZBE), áreas com limites para veículos mais poluentes. Desde 2024, há restrição de circulação de caminhões das 6h às 20h em uma quadrilátero formado por grandes avenidas no centro da capital cearense. Os impactos da medida para a qualidade do ar têm sido monitorados pela prefeitura em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC). “Antes, sequer havia a coleta dos indicadores da qualidade do ar. Hoje sabemos que promover bicicleta e transporte público é uma forma de fazer mobilidade sob a ótica da saúde e das mudanças climáticas”, diz o coordenador.

Incorporar o conceito da mobilidade sustentável ao dia a dia do planejamento urbano não é a bala de prata contra congestionamentos, aumento das distâncias entre casa e trabalho e queda nos número de usuários do transporte público e seu déficit de financiamento. Mas, na avaliação de especialistas, o tema fornece pontos importantes ao promover inclusão social, reduzir mortes no trânsito e melhorar a eficiência energética.

Para Sérgio Avelleda, coordenador do Observatório Nacional de Mobilidade Sustentável do Insper, um dos grandes problemas tem sido o incentivo ao uso do transporte individual motorizado. Nos últimos anos, isso tem sido corroborado pelos aplicativos de transporte, que democratizaram o acesso a viagens de carro e motocicleta.

“A indústria automobilística vende a ilusão da liberdade e traz perspectiva do status e diferenciação social. A isso, se soma a falta de investimento e temos uma crise de atratividade do transporte público”, diz Avelleda, que foi secretário de transportes e mobilidade de São Paulo e hoje assessora projetos em todo o país.

Segundo o consultor, há bons exemplos de cidades investindo em sistemas de BRT (transporte rápido por ônibus) e eletrificação das frotas de ônibus, mas as iniciativas ainda precisam ter continuidade entre uma gestão e outra. “As ações para tirar espaço dos carros ainda são muito tímidas, mas aí é que está a chave da transformação”, afirma. “Quando o ônibus for mais eficiente que o carro, andar mais rápido, for limpo e regular, teremos mais gente se sentindo atraída por esse transporte”, diz.

A adoção de ônibus elétricos nas frotas municipais tem despontado como uma tendência promissora, estimulada por políticas de redução de gases de efeito estufa, novos mecanismos de financiamento, como o Fundo Clima, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de organismos multilaterais, e da entrada de novos fabricantes no mercado brasileiro. De origem chinesa, a TEVX aposta nesse mercado, fornecendo mobilidade elétrica para capitais, como Aracaju, Belém e São Paulo, e cidades de médio porte, como Cascavel (PR) e Hortolândia (SP).

O contrato com a Prefeitura de Aracaju colocou em circulação 15 ônibus, que operam em 13 linhas, além da infraestrutura de recarga. São também 15 ônibus da empresa operando em Cascavel, município paranaense com uma população de cerca de 350 mil habitantes. O projeto recebeu R$ 70 milhões do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).

Apesar dos exemplos, o Brasil ainda está atrás na corrida pela eletromobilidade urbana na América Latina. Hoje há cerca de 1,3 mil ônibus urbanos 100% elétricos circulando nas cidades brasileiras, contra 4 mil no Chile e 3 mil na Colômbia, mas o país tem potencial para ser líder, na visão de Cadu Souza, CEO da TEVX. “Aos poucos, estamos desmistificando a ideia de que a infraestrutura de recarga não será suficiente, pois ela está sendo implementada pari passu com a chegada dos veículos”, diz.

Fonte: https://valor.globo.com/publicacoes/especiais/mobilidade-urbana/noticia/2026/03/27/fortaleza-quer-ser-simbolo-em-transporte.ghtml

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