O Globo – Comprar carro não está fazendo com que o brasileiro chegue mais rápido ao trabalho. Mesmo com um número recorde da frota — ou talvez por isso mesmo —, a proporção de pessoas que demoram mais de uma hora no deslocamento para o emprego segue praticamente a mesma entre 2010 e 2022, segundo dados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, 243 mil pessoas levam mais de duas horas para essa tarefa somente nas cidades de Rio e São Paulo — quatro horas ida e volta no trânsito.
Especialistas apontam que isso se dá justamente porque o principal meio de transporte do brasileiro segue sendo viário e, na maior parcela, individual. E a pandemia agravou a opção unitária de transporte. O Censo 2022 mostra que 32% dos brasileiros usam carro para chegar ao trabalho, 21%, ônibus, e 16%, moto. Outros 18% vão a pé. Transportes de alta capacidade, como trem e metrô, levam apenas 1,6% da população nesse trajeto.
— O crescimento da frota sobre uma infraestrutura inalterada, que não acompanha a modernização, ampliação e aumento de eficiência, tende inevitavelmente a aumentar o tráfego — afirma o professor de Engenharia Mecânica André Mendes, especialista no tema do Centro Universitário FEI. — De forma contraintuitiva, a melhoria da infraestrutura voltada só aos carros pode estimular o uso do transporte individual, muitas vezes num ritmo superior ao da própria expansão da malha viária. Isso acontece porque os carros são ineficientes em termos de pessoas transportadas por espaço ocupado e peso do veículo, o que gera gargalos em grandes centros.
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Dados do Ministério do Transporte mostram que o Brasil nunca teve tantos carros. Em dez anos, entre 2016 e 2025, o número de automóveis passou de 51 milhões para 64 milhões, um crescimento de 25%.
Enquanto isso, o tempo médio para chegar ao trabalho segue estabilizado. De acordo com o Censo 2010, 11,5% dos brasileiros levavam pelo menos uma hora entre a casa e o emprego. Já em 2022, quando o país tinha 23 milhões de carros a mais do que o levantamento anterior, esse patamar chegou a 12,3%.
Entre a população negra, a proporção de pessoas que ficam pelo menos uma hora em deslocamento para chegar ao trabalho sobe para 16,4%, contra 10,3% entre os brancos. A renda também impacta o tempo médio no trânsito. Apenas 8,8% de quem recebe mais de cinco salários mínimos passa por isso. Já entre quem recebe até um salário mínimo esse patamar é de 13,4%.
Com mais automóveis, as maiores metrópoles do país — Rio e São Paulo — são as que mais tiram tempo da vida de seus moradores. Na capital fluminense, por exemplo, 29,8% das pessoas levam pelo menos uma hora para chegar ao trabalho. Entre os paulistanos, esse patamar é de 27,9%. Nos dois casos, é mais que o dobro da média nacional.
Paradoxalmente, as duas cidades possuem as maiores redes de metrô do país. Ainda assim, as pessoas se locomovem para o trabalho essencialmente por meio viário. No Rio, por exemplo, 24% vão de carro, e 34%, de ônibus. Em São Paulo, essas proporções são de 29% para os automóveis e 36% nos coletivos. Já o trem e o metrô atendem apenas 8% e 11%, respectivamente, dos trabalhadores em cada cidade.
Enquanto isso, São Paulo tem batido recordes de trânsito. Dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) do município mostram que em todos os dias úteis de 2026 os congestionamentos na capital paulista foram maiores do que os registrados no mesmo período no ano passado. Já a Região Metropolitana do Rio tem quatro dos cinco municípios com mais de cem mil habitantes em que há proporcionalmente mais gente que leva mais de duas horas no deslocamento diário — todas (Queimados, Nova Iguaçu, Belford Roxo e Magé) com mais de 10% das pessoas perdendo quatro horas entre ida e volta por dia no trajeto.
Há atualmente no Ministério das Cidades um estudo em curso, feito em parceria com o BNDES, para ampliar a rede de transporte público de média e alta capacidades (TPC-MAC) — que inclui trens, metrôs, BRT, VLT, monotrilhos e corredores exclusivos de ônibus em regiões metropolitanas. Atualmente, são 2.007 quilômetros com capacidade de transportar 15 milhões de pessoas entre aquilo que já existe e o que está em fase de implementação.
No entanto, o país precisa dobrar essa rede-base de acordo com esse levantamento, chamado Estudo Nacional de Mobilidade Urbana. Nele, os pesquisadores mapearam 194 projetos de ampliação de transportes públicos necessários para essas regiões que, somados ao que o país já tem implementado, chegariam a 4.453 quilômetros de modais de média e alta capacidades, com capacidade de atender 38 milhões de pessoas. O plano prevê investimentos de R$ 500 bilhões até 2054 — 30 anos após o levantamento ser iniciado.
— A implementação de todos os projetos previstos no Estudo Nacional de Mobilidade Urbana poderá resultar na redução estimada de 250 mortes em acidentes de trânsito anualmente até 2054 nas 21 regiões metropolitanas analisadas. Podemos destacar ainda a estimativa de reduzir em 12% o tempo gasto com deslocamentos; a redução de mais de três milhões de toneladas de CO2 emitidas por ano; a queda no custo da mobilidade urbana em mais de 10%; e o aumento de mais de 30% do acesso da população a oportunidades de trabalho, lazer e educação, proporcionadas pelo melhor transporte público — afirma Nelson Barbosa, diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES.
Entre os objetivos do estudo está dobrar a rede de metrôs do país. Para isso, há previsão de tirar do papel projetos como a ligação da Praça Quinze, no centro do Rio, com Niterói e São Gonçalo, passando sob a Baía de Guanabara. Também está mapeada a ampliação desse modal em São Paulo, Belo Horizonte, Distrito Federal, Fortaleza e Salvador, além da construção em Curitiba — uma promessa esquecida que foi feita para a Copa do Mundo de 2014.
No entanto, a principal aposta de ampliação está no sistema BRT. O plano prevê triplicar os corredores desse modal por um preço abaixo do custo da implementação de um metrô. Há previsão de BRT em todas as regiões metropolitanas analisadas, com a ampliação onde já existe e a implantação Florianópolis, Grande Vitória, João Pessoa, Manaus, Porto Alegre e São Luís.
Tema sensível à população e de forte apelo político, o transporte público é alvo de uma série de iniciativas promovidas por prefeituras, concessionárias e empresas em geral. A inteligência artificial tem dado um salto na otimização do trânsito, alterando o tempo dos semáforos de acordo com o movimento de veículos, e na racionalização do intervalo de trens e metrôs conforme o fluxo de passageiros (ver matéria na página ao lado). Eletrificar a frota virou cartilha da gestão pública e de aplicativos de transporte. Medidas com impacto no curto prazo para o usuário e no longo para o planeta.
Fonte: https://oglobo.globo.com/brasil/especial/transtorno-diario-mas-reversivel.ghtml
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