Folha de S. Paulo – Quase 20 anos após ser anunciada e com histórico de acidentes e desistências, a linha 6-laranja do metrô de São Paulo será inaugurada nesta quinta-feira (2), com um trecho de seis estações entre a Freguesia do Ó, na zona norte, a Perdizes, na zona oeste. A abertura ao público será na sexta (3).
Apontado como uma complexa obra de engenharia, até o fim do ano o ramal funcionará em horário reduzido, das 10h à 15h. Apenas uma entrada das estações estará aberta durante a operação assistida. Não será cobrada passagem aos usuários nessa fase de testes.
Quando inaugurada totalmente, a linha terá nove das dez estações mais profundas do metrô. A campeã será a Itaberada-Hospital Vila Penteado. Com 65,71 metros e equivalente a um prédio de até 24 andares, ela deve abrir as portas ainda em 2026.
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A Água Branca (47,8 metros), que terá conexão com a linha 7-rubi do trem metropolitano e é uma das estações que começam a funcionar nesta sexta-feira, se torna a atual estação mais profunda. Ela assume o posto da Santa Cruz, da linha 5-lilás, com 41,26 metros.
Ao todo, o ramal contará com 15 estações e vai ligar a Brasilândia, na zona norte, à Liberdade, na região central.
Orçada em R$ 19 bilhões, a linha 6-laranja é a primeira PPP (parceria público-privada) do metrô de São Paulo. A concessionária Linha Uni constrói e vai operar a linha, que tem a empreiteira espanhola Acciona à frente.
A primeira fase, com oito estações, estava prevista para abrir apenas em outubro. No entanto, a inauguração de seis delas foi antecipada para que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) possa participar da cerimônia —a legislação eleitoral veta a participação de candidatos (ele busca a reeleição) em eventos como esse a partir de sábado (4).
Ainda em 2026 devem ser abertas as estações Brasilândia e Itaberaba-Hospital Vila Penteado, ambas na Brasilândia. O resto da linha, entre as estações PUC-Cardoso de Almeida (zona oeste) e Liberdade (centro), está previsto para 2027.
A exceção é a estação 14 Bis-Saracura, na Bela Vista, região central, que ainda não tem previsão de ficar pronta. Devido a achados arqueológicos, as obras no local só foram liberadas recentemente pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
A proposta inicial era entregar toda a linha de uma vez em 2025. No início do ano passado, entretanto, o governador admitiu que não seria possível cumprir a meta.
Segunda estação da linha a partir da zona norte, a Maristela deve ficar para o próximo ano, pois as obras atrasaram devido a problemas nas escavações. E esse foi um dos desafios que precisaram ser superados desde o início efetivo da construção da linha em 2021.
“Essa linha sofreu alguns atrasos que envolveram, especialmente, geotecnia”, diz André Isper, presidente da Artesp (Agência de Transportes do Estado de São Paulo).
Em um relatório de maio de 2024, a Linha Uni apontou que a construção da linha poderia levar mais três anos para ficar pronta por causa de problemas geológicos.
No fim do ano passado, o governo paulista autorizou um aditivo de quase R$ 3,7 bilhões no contrato para acelerar a construção do ramal.
Segundo Lúcio Matteucci, diretor de projetos da linha, foram encontradas diferenças no subsolo com relação ao previsto nos estudos geológicos. Por isso, diz que foi preciso mudar a estratégia de escavação.
“Essa é a linha mais profunda da cidade de São Paulo. Então, é muito difícil um estudo geológico conseguir captar toda a variabilidade desse tipo de solo”, afirma.
Uma das explicações para a profundidade elevada é que a linha passa por baixo de outros dois ramais do metrô em operação.
A futura Higienópolis-Mackenzie terá, a cerca de 30 metros acima dela, a estação homônima da linha 4-amarela —o usuário poderá fazer a conexão entre os ramais.
A São Joaquim, atual ponto final da linha 6-laranja, fica a cerca de 40 metros da estação do mesmo nome da linha 1-azul, na Liberdade (centro).
“É preciso uma camada de solo entre uma linha e outra para se fazer o túnel dentro do nível de segurança”, afirma Jelson Siqueira, superintendente metroferroviário na Artesp.
Outra explicação é o fato de passar sob o rio Tietê —ela atravessa a marginal Tietê.
O percurso será realizado com dois trens em sistema de ida e volta, com velocidade aproximada de 30 km/h (eles podem alcançar até quase 90 km/h). O trecho entre as seis estações deve ser percorrido em 19 minutos.
Os trens (serão 22) têm capacidade para 2.004 passageiros, segundo a concessionária. Sem divisórias entre os vagões e com assentos encostados nas laterais para aumentar o fluxo de pessoas, as composições podem transportar 28% a mais que os metrôs da linha 1-azul, a mais antiga da cidade.
Ao contrário dos trens tradicionais do metrô de São Paulo, as portas correm por fora dos vagões.
Mesmo com trens automáticos, durante a operação assistida, as composições serão operadas manualmente. Depois, a condução será autônoma.
ESTRUTURA
A linha 6-laranja apresenta números que impressionam. Por exemplo, somadas em todas as estações, serão 335 escadas rolantes. A Itaberaba, a mais profunda, terá 22 delas.
A linha tem duas das maiores cavernas metroviárias construídas no Brasil pelo método NATM, em que a rocha ou o solo são usados para sustentar a estrutura —são 300 m² e 600 m² de escavações cada.
Com 15,3 km de extensão, quando pronta a linha terá capacidade para transportar 633 mil pessoas por dia. De ponta a ponta, o percurso deverá ser feito em 23 minutos.
Anunciada em 2008 e prometida inicialmente para começar em 2010, a obra sofreu uma série de adiamentos e teve início efetivamente em 2015, com previsão de entrega cinco anos depois. Porém, a construção acabou paralisada logo em seguida e foi retomada em 2021 com a atual concessionária.
Houve ainda a interrupção inesperada de sete meses em parte dos trabalhos, quando uma cratera afundou o asfalto na marginal Tietê, em fevereiro de 2022.
O problema ocorreu devido ao rompimento de uma tubulação de esgoto, que também inundou uma das duas tuneladoras da obra responsáveis pela escavação.
Com a construção das 15 estações e dos túneis, a linha 6-laranja foi apontada como a maior do segmento na América Latina.
LINHA 6-LARANJA
Linha do tempo
- 2008Governo de São Paulo anuncia estudos para uma nova linha ligando a Brasilândia, na zona norte, ao centro da capital.
- 2010Início de obras, previsto para começar naquele ano, foi adiado.
- 2011Governo define modelo de PPP (parceria público-privada) para a linha
- 2013Assinatura do contrato com o consórcio Move São Paulo, formado por Odebrecht, UTC e Queiroz Galvão, com previsão de concluir a linha em 2020
- 2015Início oficial das obras, com projeção da linha da Brasilândia a São Joaquim (Liberdade)
- 2016Governo admite atraso por causa de problemas em financiamento e desapropriações.promessa de entrega passa para 2021
- 2018Consórcio é atingido pela Operação Lava Jato e enfrenta problemas
- 2019Governo busca novo parceiro privado para assumir a concessão e concluir a obra
- 2020Grupo espanhol Acciona assume o contrato e surge a concessionária Linha Uni, responsável pela futura operação
- 2021Retomados os trabalhos e início das escavações; com a construção da linha e 15 estações simultâneas, a obra é apontada como a maior do segmento na América Latina
- 2022 (1º de fevereiro)No principal acidente da obra, uma cratera é aberta na marginal Tietê, na região da futura estação Santa Marina, após rompimento de uma tubulação de esgoto Não houve vítimas, mas a escavação foi interrompida e passou por revisão técnica.
- 2022 (julho)Escavação é retomada
- 2023Escavações são barradas na estação 14 Bis por causa de achados arqueológicos
- 2023Solo cede com passagem do tatuzão na Freguesia do Ó
- 2024Cratera é aberta na Bela Vista com passagem do tatuzão
- 2025Terminam as escavações
- 2025Chegam os primeiros trens
- 2026Autorizada a retomada das obras da estação 14 Bis-Saracura
- 2026 (3 de julho)Inauguração das seis primeiras estações
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