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Ativos mudam de mãos e redesenham grandes grupos

Valor Econômico – Grandes grupos econômicos estão intensificando a venda de ativos pressionados, em boa parte, pelo aumento do endividamento diante do cenário de juros altos. O mesmo movimento é observado também em conglomerados que estão saindo de negócios por decisão estratégica, para investir em outras áreas, mas sem a pressão da alavancagem.

A Raízen, joint venture entre Shell e Cosan, está em processo avançado para vender sua refinaria na Argentina, segundo fontes ouvidas pelo Valor. A Cosan, do empresário Rubens Ometto Silveira Mello, começou uma intensa venda de negócios, inclusive estratégicos, desde 2024. Ontem, o grupo informou que avalia uma oferta pública inicial de ações (IPO,na sigla em inglês) para braço de energia e gás, a Compass.

Na Raízen, um pacote de empresas do setor de energia, incluindo usinas de açúcar e etanol, foi negociado ao longo do ano passado. O endividamento da companhia está em R$ 55,4 bilhões. O grupo de Ometto recebeu aporte de capital do BTG e do grupo Perfin no ano passado, mas a Raízen também vai precisar de uma injeção de recursos.

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O grupo Cosan e Compass não quiseram comentar o assunto.

Também com alto endividamento, o conglomerado de Benjamin Steinbruch está conversando com bancos para fazer desinvestimentos de até R$ 18 bilhões na CSN. O grupo está movimentando os bancos de investimento para venda de parte de seus negócios.

Ainda não há mandatos formais, mas Bradesco BBI e Citi devem ficar responsáveis pela venda de uma fatia de 20% a 30% do negócio de infraestrutura, que reunirá ferrovias, portos e terminais em uma holding independente.

O Morgan Stanley é o assessor mais próximo da operação de cimentos, que pode ser uma venda integral. Tanto em cimentos quanto em infraestrutura, a ambição é assinar um acordo de venda no terceiro trimestre. O negócio de cimentos atraiu interessados brasileiros e estrangeiros e a fatia em infraestrutura, grupos internacionais, segundo uma fonte.

Embora Steinbruch negue publicamente a possibilidade de venda majoritária, ao menos três bancos avançam na disputa pelo mandato de siderurgia. Em nota, o empresário afirmou que está “em fase de avaliação da melhor estratégia”. A CSN quer crédito na contrapartida, para refinanciamento e caixa de subsidiárias. A Faria Lima é cética quanto aos desinvestimentos de Steinbruch, conhecido por não se desfazer de negócios.

“O movimento de venda de portfólio não inclui somente os grandes grupos. Médias companhias já estão fazendo isso há algum tempo”, disse ao Valor Daniel Wainstein, sócio da Seneca Evercore. “Muitas vezes, manter uma divisão que dá prejuízo requer investimento e as empresas acabam aumentando o endividamento.”

O caminho natural para empresas é alongar a dívida e trocar endividamento de curto por longo prazo. “Mas há companhias que chegam a um limite e precisam olhar o negócio de uma forma mais pragmática”, diz Wainstein.

Para Anderson Brito, chefe do global banking da UBS BB no Brasil, há movimentos diferentes de vendas de ativos no mercado. Além dos grupos que buscam reduzir o endividamento, “há outra turma, que busca otimização de portfólio”, e outros casos de grupos que estão fazendo o “spin-off” de negócios para gerar valor para operações.

Em janeiro, o grupo Votorantim vendeu a gigante de alumínio CBA para a chinesa Chinalco e a Rio Tinto. Embora capitalizado, o grupo está reavaliando portfólio e buscando outros setores mais resilientes, caso do farmacêutico, com uma fatia na Hypera.

Poucos dias depois de anunciar o acordo envolvendo a CBA, a Votorantim S.A. se comprometeu a colocar até R$ 1 bilhão em um aumento capital da Hypera, que pode chegar a R$ 1,5 bilhão, e resultará no aumento de sua participação, hoje de 11%, para algo entre 14% e 17%. A companhia já faz parte do bloco de controle da farmacêutica.

Procurada, a Votorantim reiterou que a “transação está em linha com a estratégia da VSA focada em gestão ativa do portfólio e geração de valor”.

No fim do ano passado, a Motiva (ex- CCR) se desfez de um pacote de 20 aeroportos para focar em rodovias. O grupo mexicano Asur desembolsou R$ 11,5 bilhões para ficar com os ativos. Parte dos recursos foi destinada para reduzir a alavancagem do grupo de infraestrutura.

Procurada, a Motiva disse que a “decisão de desinvestir dos aeroportos está em consonância com o direcionamento estratégico apresentado em seu Capital Markets Day, em setembro, de priorizar o crescimento seletivo e sinérgico nos segmentos de rodovias e sistemas sobre trilhos (trens, metrôs e VLTs). A transação reflete uma escolha de realocação de capital com foco em criação de valor.”

Na MRV&Co, grupo de Rubens Menin que congrega a incorporadora focada no programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) e outros negócios na construção, a divisão americana Resia está passando por “revisão estratégica”, com a venda de cerca de US$ 800 milhões (R$ 4,2 bilhões) em terrenos e em sete projetos prontos, de 2025 até o fim deste ano. Mais de 60% do banco de terrenos da empresa pode ser negociado. Até o momento, a MRV&Co vendeu US$ 167,3 milhões em ativos – ou 21% da meta.

A decisão foi tomada por causa da alta queima de caixa da Resia. Os valores, em dólares, pesavam no resultado consolidado do grupo brasileiro. No ano, o grupo teve queima de caixa de R$ 244,7 milhões, dos quais R$ 239,2 milhões vieram da divisão, enquanto o carro-chefe, a incorporação no MCMV, gerou R$ 29,8 milhões. No acumulado até setembro, a Resia teve prejuízo líquido de R$ 1,24 bilhão, o que levou o grupo MRV&Co a registrar prejuízo de R$ 1,08 bilhão no período.

Procurada, a MRV&Co informou que “desde o anúncio da nova estratégia, a companhia vem operando com um modelo de negócio financeiramente e operacionalmente mais enxuto. A expectativa é que, ainda neste ano, a Resia volte a contribuir positivamente para a geração de caixa da MRV&Co”.

A decisão de vender boa parte dos ativos do negócio foi anunciada no fim de 2024, mas a divulgação de um “impairment” (previsão de baixa ao valor recuperável) de US$ 144 milhões (R$ 757,2 milhões), em julho, foi o que acalmou o mercado, que estava aflito com a queima de caixa da MRV&Co.

Fonte: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/02/24/ativos-mudam-de-maos-e-redesenham-grandes-grupos.ghtml

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