O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou nesta quinta-feira, 12, uma nova linha de financiamento voltada ao setor ferroviário, ampliando para até 40 anos o prazo de pagamento dos recursos destinados a projetos de transporte e infraestrutura sobre trilhos, voltado especialmente para cargas. O lançamento foi realizado durante o evento Novos Caminhos sobre Trilhos: O Futuro das Ferrovias no Brasil, promovido na Arena B3, em São Paulo, com a presença do ministro dos Transportes, George Santoro.
A iniciativa representa uma mudança significativa na política de financiamento do setor. Atualmente, os empréstimos do banco costumam ter prazos entre 20 e 25 anos. Com a nova modalidade, o período praticamente dobra, adequando-se melhor ao perfil dos investimentos ferroviários, caracterizados por altos volumes de capital e longos ciclos de maturação.
Segundo Felipe Borim, superintendente de Infraestrutura do BNDES, a medida busca ampliar a capacidade de alavancagem dos projetos e melhorar suas condições de viabilidade econômica.
“Estamos anunciando uma nova linha de crédito para ferrovias, estendendo o prazo de financiamento, que normalmente fica entre 20 e 25 anos, para até 40 anos. É uma iniciativa específica para o setor ferroviário e alinhada às necessidades desse tipo de investimento”, afirmou.
Além da ampliação do prazo, a nova linha contará com mecanismos mais flexíveis de carência, ajustados ao cronograma de execução das obras. O modelo também incorpora ferramentas já utilizadas em concessões rodoviárias, como garantias flexíveis e sistemas de amortização customizáveis, permitindo uma estrutura financeira mais aderente à realidade de cada empreendimento.
“Com isso, permitimos um maior nível de alavancagem, o que ajuda a viabilizar os investimentos. Também teremos mecanismos de carência adequados ao prazo de implantação dos projetos e instrumentos financeiros que já vêm sendo aplicados com sucesso em outros segmentos de infraestrutura”, acrescentou Borim.
A medida reflete uma compreensão mais alinhada às particularidades do modal ferroviário. Diferentemente das concessões rodoviárias, que passam a gerar receita poucos meses após o leilão por meio da cobrança de pedágios, os projetos ferroviários exigem anos de construção antes de iniciarem sua operação comercial.
Ao comentar a nova política de financiamento, o ministro George Santoro destacou justamente essa diferença estrutural entre os dois modais.
“Quando se trata de ferrovia, especialmente em projetos greenfield, é necessário realizar grandes investimentos antes que qualquer receita seja gerada. Enquanto uma rodovia pode começar a arrecadar pedágio poucos meses após o leilão, uma ferrovia pode levar oito anos ou mais até entrar em operação e produzir fluxo de caixa. É preciso criar mecanismos que cubram esse intervalo de viabilidade”, explicou.
Carteira de concessões soma R$ 160 bilhões
Durante o evento, o Ministério dos Transportes também apresentou sua carteira de concessões ferroviárias, que prevê nove leilões até março de 2027. O pacote contempla oito projetos já estruturados e em diferentes estágios de preparação, com potencial de gerar cerca de R$ 160 bilhões em investimentos na malha ferroviária nacional.
Paralelamente, o Governo Federal trabalha com uma perspectiva ainda mais ampla para o setor, estimando cerca de R$ 600 bilhões em investimentos distribuídos por projetos estratégicos como a Malha Oeste, o Corredor Minas-Rio, os três corredores da Malha Sul, o Anel Ferroviário do Sudeste, a EF-118, a integração FICO/FIOL e a Ferrogrão.
A estratégia busca preparar a infraestrutura logística do país para o crescimento esperado da produção industrial, agrícola e de biocombustíveis nos próximos anos. O objetivo é ampliar a integração entre as malhas existentes, conectar regiões ainda sem acesso ferroviário e fortalecer a complementaridade entre ferrovias, rodovias e portos, reduzindo gargalos logísticos em corredores de exportação, especialmente no Porto de Santos.
Para Santoro, a carteira de projetos atingiu um nível de maturidade que permite o avanço dos certames já no segundo semestre deste ano.
“Hoje a carteira está muito mais madura do que há um ano. Temos quatro projetos em análise no Tribunal de Contas da União e outros em fase de encaminhamento. Está tudo avançando para que possamos realizar uma sequência importante de leilões no segundo semestre”, afirmou.
Entre os empreendimentos prioritários está a Ferrogrão, cujo edital deve ser encaminhado ao Tribunal de Contas da União (TCU) ainda neste mês de junho. A expectativa do governo é realizar o leilão da ferrovia ainda no segundo semestre.
Apesar do potencial de expansão, o Brasil ainda enfrenta um desafio histórico na infraestrutura sobre trilhos. Atualmente, o país possui menos de 10 mil quilômetros de ferrovias efetivamente operacionais, número significativamente inferior aos cerca de 35 mil quilômetros de malha ferroviária que chegaram a existir ao longo de sua história. A ampliação dos mecanismos de financiamento e a retomada dos investimentos são vistas pelo governo como etapas fundamentais para reverter esse cenário e ampliar a participação das ferrovias na matriz logística nacional.



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