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Multimercados lucram com corte maior da Selic

O dia seguinte ao corte de 0,75 ponto percentual na taxa Selic, para 13% ao ano, trouxe ganhos sensíveis para alguns multimercados que ou consideraram tal hipótese nas suas estratégias de curto prazo ou viram posições em juros reais e nominais mais longas frutificar. Um filtro na base de dados da Morningstar mostra que alguns gestores conseguiram obter para suas carteiras retornos próximos ou até acima de 1% em 12 de janeiro, o pregão imediatamente após o Comitê de Política Monetária (Copom) ter decidido acelerar o passo de redução do juro básico brasileiro.


Nessa lista aparecem gestoras como Canvas Capital, XP, Mauá, Verde, Safra, Kapitalo, Vinci e Modal. No topo está o fundo Ipanema Paineiras Hedge, uma carteira dedicada a investidores qualificados, que ganhou expressivos 2,5%.


“Nossa aposta em taxa de juros já vinha sendo carregada há algum tempo”, diz o gestor da Paineiras Investimentos David Cohen. “Com a inflação para baixo e o governo seguindo a dinâmica de reformas, abriu-se um espaço interessante para a queda de juros.” Sem fazer projeções, ele diz que vem privilegiando estratégias de juros nominais e sugere que tem uma taxa bem mais baixa na cabeça do que aquela que “o mercado vem falando”.


Numa primeira etapa, Cohen considera que o país caminha para uma Selic de 10% ao ano, ante os 13% atuais, mas vislumbra a chance de seguir caindo a uma velocidade menor numa segunda fase de alívio monetário. Para que esse cenário se concretize, o especialista considera que não basta a evolução fiscal, passando também por questões estruturais, com o menor peso do BNDES na economia.

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No geral, os gestores ouvidos pelo Valor passaram a considerar que, no fim deste ciclo de alívio monetário, a Selic estará abaixo de um dígito. A maioria ganhou no pós-Copom por uma leitura com viés de longo prazo para as variáveis macroeconômicas e o consequente rumo da taxa básica brasileira, diz o analista de seleção de fundos André Boesso, da gestora de patrimônio GPS. “Pode se dizer que não foi uma grande surpresa o 0,75. A impressão é que os gestores já foram se preparando para um ambiente de corte da Selic há algum tempo, aplicados em juro nominal e em NTN-B [Notas do Tesouro Nacional série B, atreladas à inflação]”, afirma. “A atividade e a inflação mais fracas, corroboraram para o cenário de maior probabilidade de corte de 0,75.”


O Safra Galileo, por exemplo, não tinha na conta uma probabilidade elevada de que o BC acelerasse o passo de alívio monetário, mas se isso acontecesse ajudaria, diz Luiz Fabiano Godói, o executivo responsável pela gestora do Safra. “A filosofia da casa é sempre mirar posições de médio e longo prazo, nunca para eventos de curto prazo como uma única


reunião do Copom.”


A Canvas Capital também não tinha uma posição específica para o primeiro Copom do ano, mas considerava na sua alocação que em algum momento ao longo do primeiro trimestre ou, no mais tardar, até o fechamento do semestre, o BC intensificaria o ritmo de redução da Selic. Segundo Felipe Niemeyer, o sócio responsável pela área de relações com investidores da gestora, a inflação vinha trazendo surpresas positivas que permitiam fazer esse plano de voo, enquanto a atividade econômica, por seu lado, custa a reagir.


“Os dados da indústria vieram fracos, a confiança teve uma recaída, então havia visão de que o país poderia ter um ciclo de corte mais intenso”, diz. “Como acreditávamos que, eventualmente, o BC deveria acelerar, tínhamos posições pré em DI e em NTN-B”, disse.


Se antes do encontro de política monetária do BC, a gestora tinha uma exposição maior em juros nominais e parcela menor em reais a situação agora se inverteu. A casa espera que o Copom prossiga com o novo ritmo de redução de juros imposto em janeiro, de 0,75 ponto percentual, nas próximas reuniões, com a Selic fechando o ano abaixo de 10%.


Com a cabeça de que a Selic teria que cair mais do que o mercado colocava nos preços dos ativos, a gestora BBM estava há cerca de seis meses aplicada em juros nominais e reais, olhando mais para a Selic terminal do que para um Copom especificamente, afirma o gestor Marcelo Mendes. “Já tínhamos uma visão pessimista para a atividade do país e uma percepção benigna para a inflação de curto prazo e que veio ainda melhor do que esperava o próprio mercado.”


A expectativa agora é que o BC mantenha a dose de 0,75 ponto percentual de baixa da Selic nas próximas reuniões, com a taxa básica terminando 2017 na casa dos 9% ao ano. Mas não descarta a hipótese de que o Copom em algum momento até acelere a redução para 1 ponto percentual. “O BC conseguiu reancorar as expectativas, principalmente para a inflação de serviços, e, com a atividade vacilante o risco é para mais 100 basis-points do que para 75.”


Na estratégia traçada para o multimercado da casa, o gestor diz que já se embutia a aceleração do ritmo de redução da Selic, para 0,50 ponto, e quando veio o 0,75 ponto, o ganho se amplificou. “Para a gente era menos importante um Copom específico e por isso sempre realocávamos [recursos] na parte mais curta ou longa da curva [nos vencimentos dos contratos de juros ou títulos públicos], conforme a precificação de mercado.”


A gestora foi para o Copom com um terço das posições aplicadas em juros nominais e dois terços em reais e, após a reunião, encurtou a parcela em juro real de 2021, para os papéis com resgate em 2019, mantendo metade da exposição em taxas reais e metade em nominais.


Leitura similar tinha Luiz Eduardo Portella, sócio gestor da Modal Asset, que contava com um corte de 0,50 ponto percentual para a Selic, mas já previa a indicação do BC por um passo maior em fevereiro. “Isso justificou a posição aplicada em DI [juros futuros], a relação risco/retorno era boa.”


Já a Vinci Partners foi uma das gestoras que se posicionaram especificamente para este Copom, considerando nas suas estratégias a chance de o BC pular de uma redução de 0,25 ponto percentual para 0,75 ponto sem mesmo uma comunicação prévia. Segundo o chefe do departamento econômico da asset, Fernando Machado Gonçalvez, o desempenho da inflação fez com que a casa adotasse uma posição tática que trazia a possibilidade de aceleração.


“A gente está aprendendo com este BC, que a cada reunião vai tomar a decisão baseado em critérios já conhecidos, nos dados, vai seguir as informações disponíveis”, afirma. A gestora optou por ficar exposta na parte mais curta dos contratos de juros e após a confirmação passou a privilegiar os contratos de dois a três anos. “São os vencimentos em que a gente enxerga a possibilidade de, mais adiante, ficar evidente um corte mais acentuado do que aquele que se tem na curva.”


Gonçalvez conta que a Vinci tem um cenário de desinflação bastante acentuada e que são as posições em juro nominal que podem melhor captar isso, tanto na atividade econômica mais fraca quanto no comportamento dos índices de custo de vida. Para o ciclo completo, que se estenderia pelos primeiros meses de 2018, a gestora antevê uma Selic de 9% ao ano.


No seu XP Macro, a XP Gestão já vinha carregando posições em vencimentos intermediários e longos em juros nominais desde o primeiro semestre do ano passado, valendo-se da crença de que o BC de Ilan Goldfajn seria conservador para trazer a inflação de volta à meta de 4,5%. Júlio Fernandes, gestor do fundo, afirma que antes de tudo a convicção era que a inflação convergiria para a meta, que o final do ciclo era mais importante que o passo. Mas foi no discurso incremental do próprio BC acerca dos custos da desinflação para o PIB e de eventuais benefícios de um mandato dual que a casa viu a senha para uma dose possivelmente acima do próprio BC acerca dos custos da desinflação para o PIB e de eventuais benefícios de um mandato dual que a casa viu a senha para uma dose possivelmente acima do 0,50 ponto percentual já considerado pelo mercado, diz o gestor Bruno Marques. Montou assim uma estratégia de opções que ganharia com tal ajuste. “Se antes o BC tinha ganhos em ser conservador, nesta reunião já não mais porque a inflação já convergiu para a meta. Com o PIB mais fraco, não havia mais ganho marginal naquela estratégia conservadora.” Para as próximas reuniões de política monetária, a gestora espera mais três cortes de 0,75 ponto percentual ou mais três ou duas reduções de 0,50 ponto, levando a Selic para 9,25% ao fim do ciclo.

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