Bolsas em mãos, entram todos no “The Canadian”, o trem que faz o percurso de Toronto a Vancouver. Uns levam livros e comida, outros seus laptops, e isso já basta. O que todos querem mesmo é um lugar bem posicionado. Imagina gastar quatro dias da vida ao lado de um banheiro, um bebê choroso (que não é o seu), ou alguém criticamente tagarela. O trem deixa a estação.
É bonito sair da Union Station, ao pé da CN Tower, e ver as luzes de Toronto se afastarem pouco a pouco. Agora somos parte da locomotiva sólida que rasga um país sem vacilar. Do idílico Leste à calorosa Costa Oeste. Os mais empolgados vão colados na janela, feito peixe beijoqueiro em aquário. E em 30 minutos de viagem, tudo o que se vê são coníferas. Rápido assim, você já saiu da maior cidade do país para o Canadá profundo, a oferta mais generosa de chão do mercado, sem direito a sinal de celular nas próximas 24 horas. A partir de então, são milhas e milhas de chão. Coníferas, lagos e chão. Um surto inflacionário de chão, planícies sem fim ao longo das províncias de Ontário e Manitoba. A vista alcança vilarejos como Hornepayne, Melville, Nakina. Quem sabe que existe?
Nem tente fazer marcação no Foursquare. No connection for you. Uma viagem de quatro dias de trem não é só um deslocamento (a menos que você tenha medo de avião). Quem embarca procura não só um destino final, para então poder riscar um ponto a mais no mapa com caneta vermelha. Sempre há uma motivação mais íntima em viagens deliberadamente longas. Rochelle, por exemplo. Cabelo desgrenhado, uns 60 anos, óculos escuros. Falava dos tempos de mocinha e suas aventuras na Califórnia. Festa na casa de Frank Zappa, perdeu um show da Janis Joplin porque estava louca demais para se aguentar em pé. Estava novamente ali, fazendo no chão o caminho para o seu saudoso Pacífico.
Um senhor de seus 70 e muitos ouve as histórias de Rochelle e dá risada. Camisa xadrez, boné de veterano da Segunda Guerra Mundial, mapa detalhado sempre ao alcance. O mundo dá mesmo muitas voltas e acaba se encontrando num vagão encarrilhado no meio dos campos dourados de Saskatchewan, a terceira província que o trem corta.
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O Canadian é operado pela Via Rail. A companhia cobra 800 dólares canadenses pelo trecho Toronto-Vancouver, classe econômica (consegui um descontão e paguei 200 dólares). É o preço para ter água, banheiro (vaso e torneira) e o dom de mil e uma possibilidades de caber numa poltrona. Nada de cama. Não, não é barato. E paga-se muito mais ainda para ter facilidades como chuveiro, refeições e acesso a cabines de dormir. E isso porque a Via Rail é subsidiada pelo governo, que gastou um bilhão de dólares para reformar os trens da companhia nesses últimos cinco anos.
Meu companheiro de cadeira ao lado, direto da Alemanha, comparava indignado o modelo canadense com o europeu. Mas foi no trem lento e pouco prático que o alemão fez contatos e já arranjou onde se hospedar de graça em Jasper, província de Alberta. Essa cidadezinha marca o início da cadeia de montanhas rochosas que vai até o Pacífico. É uma das paradas mais bonitas do trem: duas horas para esticar o espinhaço e encher os olhos de montanhas, depois de dois dias e meio de vastos campos, lagos e rolos imensos de feno.
A família indiana segue unida ao meu lado, filhos encangados nos pais, comida com cheiro de curry de manhã, tarde e noite, jogos de baralho. A família de Quebec, na minha frente, era menos falante, cada filha com seu ursinho e laptop. No fim, todos unidos no mesmo metro quadrado, inventando posições para despistar a falta de espaço, um entrelaçado de pernas que só quem é íntimo sabe fazer.
O time dos sozinhos dá o seu jeito. Inventa travesseiros com toalhas e livros, come frutas, pão e chocolates que trouxe na bagagem. Os mais calados revisam a vida enquanto a paisagem repetida trabalha como um mantra para os olhos. Os mais despachados pedem cerveja e vão falando dos shows recentes do Roger Waters. A velha guarda fica entre porres homéricos em São Francisco e histórias de trincheira.
A viagem não é uma só. Um casal toca no banjo e bandolim canções folk do coração canadense. Uma falava dos mosquitos no Norte de Ontário. Outra, de uma moça de Saskatchewan que quer um vestido com laço de fita do seu amor. Quem não quer? Finalmente, no último dia de jornada, chega a Colúmbia Britânica, com suas majestosas montanhas. A viagem lendária ganha a sua cereja. Ou melhor, tudo até então parecia ser a cereja, o bolo estava ainda por vir. Rios, canyons, montanhas maciças e várias combinações de tudo isso. Colúmbia Britânica é uma festa. Os passageiros dão gritinhos de alegria. Já os fumantes fazem mais algazarra nas paradas ao ar livre do que ao passar ao lado de cachoeira. Sim, o Canadian cruza uma queda d`água à qual só ele tem acesso. Mas o senhorzinho do meu lado só pensa num trago.
Lá vai o trem com Rochelle, o veterano de guerra, o alemão e sua nova amiga, o cheiro do curry e dos cigarros não fumados no caminho. Enquanto o trem segue pelas terras sem fim, as gentes se misturam. Isso é o Canadá. Mesmo sem o luxo de um Expresso do Oriente, o exotismo de uma Darjeeling Himalayan Railway, ou a magnitude de uma Transiberiana, a viagem do Canadian é bela. Quem entrou ansioso para encontrar um bom lugar no trem, saiu mais relaxado, querendo um bom lugar no mundo. Ou, pelo menos, um bom lugar em Vancouver.
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