Creso de Franco Peixoto, engenheiro civil, mestre em Transportes e professor de Engenharia Civil do Centro Universitário da FEI – Fundação Educacional Inaciana
Nos raros momentos em que paramos nossos carros para aguardar a passagem de um trem de carga, deveríamos aproveitar para refletir um pouco sobre a importância deste modo de transporte, o ferroviário. Em tempos ainda recentes, a ferrovia sofreu profunda mudança no Brasil. Com o estabelecimento das concessões ferroviárias, cujos prazos atingem 50 anos, viu-se o prático desaparecimento do trem de passageiros no Brasil, ao lado do envelhecimento da ferrovia.
O prazo de até 50 anos de concessão faz parecer que o interesse governamental seja simplesmente o de se ver livre do ônus das ferrovias. Porém, caso linhas robustas de crédito fossem estabelecidas para renovar a ferrovia brasileira, aí sim poderíamos crer realmente no interesse em recuperação e avanço. Desta forma, pode-se supor motivo da inapetência governamental para o estabelecimento de programas eficazes na recuperação das ferrovias brasileiras. Muitas promessas e palavras a favor da ferrovia brasileira têm sido ditas, mas ela continua doente.
Surgem discursos e projetos visando construir o trem de alta velocidade no Brasil, o tal do “trem bala”. Para tanto, estima-se custo da ordem de US$ 10 bilhões, apenas para o trecho Rio-São Paulo, com citações de extensão até Campinas. A pressa do governo federal em sua construção, que ainda expressou desejo que este esteja em operação até a Copa do Mundo de 2014, é fator absolutamente preocupante.
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Projeto de tal envergadura financeira deve ser amplamente avaliado, em distintos cenários de possibilidades. A hipótese de cessão de áreas próximas da ferrovia para garantir a viabilidade do empreendimento pode ser o verdadeiro cenário do pano de fundo do ‘trem bala’.
Imaginemos a cessão de áreas com altíssimo potencial junto ao Vale do Paraíba e regiões Metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro! E o que interessa é mesmo a ferrovia? Estudos publicados na mídia sobre a viabilidade do trem de alta velocidade também deixam dúvidas sobre dados e abrangência. A tarifa reportada de US$ 60,00 para o trecho Rio-São Paulo pelo ‘trem bala’, em meados de 2007, é inviável, quando comparada aos preços praticados no transporte aéreo, em amplidão que atingia valor inferior a R$ 60, para o mesmo trecho e pouco tempo atrás.
Considerando-se poder dispor já, dos propalados US$ 10 bilhões para se construir o ‘trem bala’, a atender apenas Rio e São Paulo, há necessidade de novos estudos das efetivas prioridades do setor. Devem ser comparadas as vantagens e desvantagens entre o ‘trem bala’, objeto de atendimento exclusivo do pólo São Paulo-Rio, e a manutenção ferroviária em todo o País. Para tanto, pode-se considerar custo médio de construção de uma ferrovia convencional da ordem de US$ 1 milhão por km, que permitiria incorporar algo em torno de 10 mil km de ferrovias. Adotando-se custo de manutenção das ferrovias brasileiras a 50% do custo de construção, poderiam se requalificar aproximadamente 20 mil km em todo o País.
A notícia de que seriam aplicados também mais de R$ 10 bilhões na ferrovia brasileira não é suficiente para diminuir a importância destes estudos comparados. Afinal, conhecida a verdadeira prioridade, quer seja o trem de alta velocidade ou a manutenção de praticamente toda a malha ferroviária brasileira, há de se aplicar o primeiro montante financeiro no empreendimento de “prioridade zero”.
Portanto, caso o governo não se sensibilize em analisar profundamente e de forma não atabalhoada este projeto, o do trem de alta velocidade, provavelmente veremos em pouco tempo o colapso do sistema rodoviário e os elevados custos agregados do transporte rodoviário, sufocando nossa competitividade no mundo globalizado e relegando o nosso Brasil definitivamente para a rabeira econômica dos ditos emergentes. O trem abala qualquer economia quando não é levado a sério.
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