Um dia após o acidente entre um bonde e um táxi, em Santa Teresa, que resultou na morte de uma pessoa e em ferimentos em outras dez, o governador Sérgio Cabral decidiu ontem transferir a operação do sistema para a prefeitura. O anúncio foi feito na presença do prefeito Eduardo Paes, durante a abertura do 51oCongresso Nacional de Hotéis (Conotel), no Centro de Convenções Sul-América, na Cidade Nova. Não foi fixado ainda o prazo para a transferência. A prefeitura passará a administrar uma frota de 14 bondes, mas apenas seis foram reformados e estão funcionando, segundo a Secretaria estadual de Transportes. Os demais estão parados na garagem da companhia por falta de peças de manutenção ou por terem virado sucata.
— Conversei com o prefeito. Os bondes de Santa Teresa são a cara do município. Não tem cabimento que continuem sob a responsabilidade do estado — disse Cabral.
Paes ouviu calado a declaração do governador e não informou quanto a prefeitura terá que investir no sistema e se haverá necessidade de constituir uma nova empresa municipal para administrar os bondinhos. O custo atual para operar o sistema é de cerca de R$ 250 mil por mês, sendo que o déficit operacional é de R$ 220 mil. A única fonte de receitas é a venda de passagens, que rende R$ 30 mil mensais.
Estado investiu R$ 6 milhões este ano
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Somente este ano, o estado já teria gasto cerca de R$ 6 milhões no processo de substituição dos bondes antigos por novos, segundo um levantamento feito pelo presidente da Comissão de Cultura da Alerj, Alessandro Molon (PT), no Siafem, um sistema de acompanhamento de contratos do estado. Ontem, Molon encaminhou uma representação ao Ministério Público pedindo que sejam investigados os contratos do estado com a empresa T’Trans, responsável pela modernização. Hoje, ele deverá pedir ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) que faça uma inspeção especial no contrato.
— Em junho, fizemos audiência pública na qual os moradores relataram vários pequenos acidentes que estavam ocorrendo com os novos bondinhos. O estado, no entanto, decidiu prosseguir com a modernização — disse Molon.
O deputado estadual e ex-vice-governador na gestão Marcello Alencar (1997-2000), Luiz Paulo Corrêa da Rocha, lembra que não é de hoje que o estado tenta transferir a operação dos bondinhos para a prefeitura.
Ele lembrou que o sistema chegou a ser oferecido aos ex-prefeitos Cesar Maia e Luiz Paulo Conde: — O entendimento é que o bondinho é um típico serviço municipal. Mas não se chegou a um acordo antes por conta da questão financeira.
Luiz Paulo acrescentou que, por se tratar de transferência de patrimônio, é provável que a parceria entre estado e prefeitura tenha que ser aprovada pela Assembléia Legislativa. O secretário estadual de Transportes, Júlio Lopes, disse que a intenção inicial do governo era entregar o serviço a investidores privados e que, desde o início do ano, as secretarias de Transportes e de Planejamento vinham realizando estudos para melhorar a operação dos bondes: — Por conta da especificidade do serviço, que só serve à Santa Teresa, começamos os estudos para tornálo mais atrativo e prepará-lo para concessão. Com a mudança, todos estes estudos serão agora debatidos nas reuniões de transição que irão acontecer com a prefeitura.
Uma das medidas que fazem parte do estudo e terá que ser discutida com o município, segundo Júlio Lopes, é a licitação das centenárias (um sistema de alimentação elétrica de composições) que ligam o bonde até a área do Silvestre e que permitirá a volta da operação do bonde até o Corcovado.
— É uma obra de cerca de R$ 1, 1 milhão, com recursos do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam). Ainda não sabemos se faremos a licitação, marcada para daqui a um mês, em conjunto com o município. Isso ainda será discutido — adiantou Júlio Lopes.
A criação de uma tarifa diferenciada para moradores e turistas também será discutida.
Perícia vai esclarecer se houve defeito nos freios do veículo
O delegado titular da 7ª DP (Santa Teresa), Fernando Veloso, disse ontem que a professora Andreia de Jesus Resende, que morreu esmagada durante um acidente com um bonde no domingo, não pulou do veículo em movimento. Testemunhas contaram que a vítima, de 29 anos, foi projetada para fora na colisão que ocorreu com um ônibus. A polícia fez uma perícia ontem no bonde, mas o resultado só ficará pronto em cerca de 15 dias. Uma das hipóteses é que o veículo tenha perdido o freio.
Ontem, a vice-presidente da Associação de Moradores de Santa Teresa (Amast), Jussara Braga, questionou a segurança do sistema de freios dos bondes reformados. Um deles teria estourado num acidente ocorrido na semana passada. A associação estuda agora fazer manifestações para pressionar a Justiça Federal a julgar a ação civil pública, movida em fevereiro deste ano, que pede o fim dos testes com os bondes reformados e o retorno dos 14 veículos antigos às ruas de Santa Teresa, enquanto não forem realizados estudos técnicos que garantam a segurança do sistema.
Segundo o advogado Abaeté de Paula Mesquita, da Amast, na ação, protocolada na 21aVara Federal, o juiz José Luiz Castro Rodrigues convocou o estado e o município a se manifestarem. Ainda de acordo com o advogado, os moradores aguardam há 40 dias o juiz assinar a decisão: — Esperamos uma decisão favorável, diante de mais este acidente com os bondes.
O secretário estadual de Transportes, Júlio Lopes, disse que o acidente com o bonde no domingo não foi causado por problemas nos freios.
— É um absurdo dizerem que houve falha no freio. Esse trem tem um sistema com três freios, e as próprias testemunhas contaram ter ouvido um barulho que se assemelha ao do freio. Se ele tivesse falhado, teria havido uma catástrofe maior — afirmou Júlio Lopes, acrescentando que a reforma dos bondes, feita a partir de 2006, vem sendo acompanhada por engenheiros do estado.
De acordo com a Secretaria de Transportes, o sistema de frenagem utilizado nos bondes é o mesmo das ferrovias mais modernas do mundo.
— O sistema de freios dos bondes modernizados, além de mais seguro que o antigo, foi desenvolvido seguindo normas nacionais e internacionais de segurança de transporte sobre trilhos, tendo passado por aprovação da Associação Brasileira de Normas Técnicas, órgão regulador do sistema de frenagem. Os bondes antigos não tinham nada disso — disse Lopes.
Massimo Giavina-Bianchi, diretor presidente da Trans Sistemas de Transportes SA (T´ Trans), responsável pela reforma dos bondes, também contestou a afirmação da Amast de que o acidente foi causado por falha no freio. Ele explicou que os novos bondes têm três freios: um dinâmico (ação motora), um pneumático de serviço e emergência (a disco) e um de estacionamento.
Este último foi o que parou o veículo. Segundo ele, o operador acionou o freio de emergência, que funcionou, mas acabou sendo danificado pela colisão com o táxi. O veículo teria batido diretamente na unidade de comando pneumático, provocando o rompimento da tubulação de ar. O freio de estacionamento teria, então, entrado em ação, parando definitivamente as rodas.
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