Cinco
anos desde que o projeto foi idealizado, o porto privado de São Luís, no
Maranhão, começou a sair do papel. Na sexta-feira foi lançada a pedra
fundamental do empreendimento, marco zero do início da construção do condomínio
multicargas. Batizado de Porto São Luís, terá potencial para quase dobrar a
movimentação do porto público do Itaqui (MA), o sexto do país e que encerrou
2017 com 19,1 milhões de toneladas operadas.
O
novo porto é um investimento da China Communications Construction Company
(CCCC), maior companhia de infraestrutura da China, em conjunto com empresas
nacionais. Em setembro a CCCC comprou 51% de participação no negócio que foi
idealizado dentro da construtora WTorre. Os 49% restantes são divididos entre a
WPR, empresa de infraestrutura de Walter Torre (com 24%), a Lyon Capital (com
20%, fundada por Paulo Remy, ex-presidente da WTorre) e minoritários (executivos
com aproximadamente 6%).
O
investimento total será da ordem de R$ 2 bilhões e com ele a CCCC finca os pés
em seu primeiro – mas não último – ativo logístico no Brasil. A companhia
avalia com atenção investir em outros portos, ferrovias e rodovias para criar
corredores logísticos eficientes entre a região produtora da carga e o embarque
no navio.
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“Não
temos um limite de orçamento. Há dinheiro disponível não só da CCCC. Temos parceiros,
parceiros investidores, instituições financeiras que podem se juntar a nós.
Tudo vai depender do retorno dos projetos”, disse Chang Yunbo presidente
da CCCC South America.
No
radar, estão as ferrovias Ferrogrão, Norte-Sul e Fiol, todas já qualificadas no
Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) para irem a leilão, mas ainda sem
edital lançado, o que impede uma posição mais assertiva do grupo. Além dessas,
a Fico, ferrovia de integração Centro-Oeste, também interessa, mas está mais
atrasada.
Dois
projetos, contudo, estão mais avançados, com due dilligence (auditoria) em
curso. São a compra de uma participação na Malha Sul, concessão ferroviária da
Rumo que liga São Paulo a três portos no Sul, e o Terminal Graneleiro da
Babitonga (TGB). Este é um projeto privado em São Francisco do Sul (SC) que tem
como controladores o FIP Anessa, de investidores de Santa Catarina, com 80%, e
a gigante chinesa de alimentos Cofco com o restante.
O
objetivo da CCCC é adquirir o controle do TGB e iniciar as obras imediatamente,
conforme adiantou o Valor.
Uma
das cinco maiores empresas de infraestrutura do mundo, a CCCC encerrou 2017 com
faturamento de US$ 75 bilhões e uma carteira de pedidos de US$ 150 bilhões.
Aproximadamente
70% do investimento no Porto São Luís será financiado pelo ICBC, o Banco
Industrial e Comercial da China. O restante é equity.
Quando
totalmente implantado, o porto terá capacidade para movimentar até 20 milhões
de toneladas por ano, mas a construção será faseada. Na primeira etapa, que deve
estar pronta em quatro anos, haverá oferta para 15 milhões de toneladas. Serão
7 milhões de toneladas para grãos; 3 milhões de toneladas para fertilizantes;
2,3 milhões toneladas para carga geral; e 2,7 milhões de toneladas para
combustíveis. Essa etapa consumirá aproximadamente R$ 800 milhões do total.
Antes
de a CCCC entrar no negócio, o projeto previa uma área para contêineres, onde
são transportadas as cargas industrializadas, de maior valor agregado. Mas isso
foi logo dissipado pela chinesa, pois há pouca demanda para esse tipo de carga
na região.
A
obra abrange área de dois milhões de metros quadrados onde serão construídos
seis berços de atracação, sendo quatro na primeira fase. Haverá ponte de acesso
e ligação rodoferroviária. O investimento prevê um desvio de 3 quilômetros
ligando a ferrovia Carajás, da Vale, até o empreendimento, além de uma pera
ferroviária (espécie de carrossel para a entrada e saída eficiente dos trens).
O
tramo superior da ferrovia Norte-Sul, de Porto Nacional (TO) a Açailândia (MA),
sob concessão da VLI, se conecta à Carajás.
“São
Luís vai se tornar um dos maiores e mais importantes portos do Brasil. Sem boas
conexões, a eficiência de um porto nunca será alcançada, o custo do produto
aumenta e a competitividade é reduzida. A nossa condição é totalmente
diferente, disse Yunbo.
Além
da conectividade, outros dois diferenciais foram determinantes para a CCCC
entrar no projeto. A profundidade dos portos do Maranhão, de mais de 20 metros,
dispensa a realização de dragagem e permite atender navios de grandes dimensões
sem restrição de calado, o que não acontece em portos do Sul e Sudeste que são
limitados. O segundo diferencial é a proximidade com os mercados consumidores.
Do Maranhão, a carga chegará mais rapidamente à China, pois as embarcações
usarão o canal do Panamá, recentemente expandido. Isso poderá reduzir em até
sete dias o tempo de navegação na comparação com as rotas que saem de portos do
Sul e Sudeste.
O
executivo esvaziou a noção de que o investimento integra uma estratégia maior
de segurança alimentar, para abastecer a população chinesa. “Temos a
logística necessária para importar grãos do Brasil. Investir aqui não significa
que exista um problema de segurança. China e Brasil têm uma relação excelente.
Quando eu preciso de você e você de mim, nos tornamos bons parceiros”,
disse Yunbo.
Durante
o lançamento da pedra fundamental, o embaixador da China no Brasil, Li
Jinzhang, afirmou que esse é o primeiro investimento do zero da China no país e
“marca um novo modelo da parceria sino-brasileira.”
O
grupo chinês Herun, que atua na área de processamento de grãos, assinou um
contrato de “take or pay” – será o embarcador âncora do projeto.
A
origem da carga que o porto pretende captar é um mix. Inclui parte da demanda
de grãos produzidos no Centro-Oeste que descem para portos do Sul e Sudeste,
por vezes congestionados e com vocação natural para contêineres; além da
crescente produção agrícola que sobe em velocidade acelerada em direção ao
Norte do país.
O
governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), destacou que o projeto irá criar
mais de 4 mil empregos. Questionado, disse que o Porto São Luís não esvaziará o
porto público do Itaqui, mas “será complementar” a ele.
– Fonte: http://www.valor.com.br/empresas/5392757/cccc-inicia-obra-de-porto-e-mira-ferrovias
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